Adriano Miranda
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Adriano Miranda

Megafone

Queria tanto ser cubano

Nunca fui turista em Cuba. Nunca dormi num hotel nem molhei o cu em Varadero. Ganhei enormes bolhas nas mãos. Rebentaram-se os lábios de tanto cieiro. Transpirei ao ritmo da catana e da enxada

Em 1994 era um tenro fotógrafo e tinha ganho um prémio em Espanha. Em Cuba, milhares de Balseros partiam do Malecon em direcção ao desconhecido. No avião da Ibéria sentia o nervoso miudinho. Gastei todo o valor do prémio num bilhete para Havana. Era louco. Talvez. Deixei a minha avó a chorar. Deixei. Mas o que importava se um lado da história estava em Cuba? Todas as manhãs e a todas as horas, jornais e televisões debitavam barcos improvisados. Cuba era somente Malecon. E a outra Cuba? Foi então que parti para Caimito. De catana numa mão e máquina fotográfica na outra.

Vivíamos o tempo negro. O Período Especial. Lojas vazias. Autocarros sem peças. Prédios gastos. Luz só de vez em quando. Racionamento de leite e iogurtes. A palavra de ordem era resolver. E com engenho e persistência os cubanos resolviam. A música não faltava. Assim como não faltava a união.

O bloqueio do vizinho e a queda do muro fizeram de Cuba uma despensa vazia. Não existia quase nada. Desde o simples sabonete ao barril de petróleo. O que existia em abundância era a dignidade, e isso foi fundamental para os cubanos. O seu sistema de saúde e educação que fazem corar um país desenvolvido continuou a funcionar, a taxa de mortalidade infantil continuou mais baixa que a dos Estados Unidos, a alimentação chegou a todos. E quando a Rússia fechou todas as portas, Cuba continuou de portas abertas para receber as crianças vítimas de Chernobyl e tratá-las nos seus hospitais.

Nunca fui turista em Cuba. Nunca dormi num hotel nem molhei o cu em Varadero. Ganhei enormes bolhas nas mãos. Rebentaram-se os lábios de tanto cieiro. Transpirei ao ritmo da catana e da enxada. Fiz quilómetros de bicicleta. Fiz outros a pé ou de boleia. Percorri quase toda a ilha. Fui a festas em casas modestas. Entrei em escolas e hospitais. Discuti muito. Com artistas, com médicos, com varredores de rua, com reformados. Abracei imensa gente. Beijei com amor. Amor sentido de que algo de mágico me estava a acontecer. Não sabia o que era e ainda hoje não sei.

O povo cubano é diferente. Não parece deste mundo. Eu, fruto do capitalismo desenvolvido, sentia-me pequeno perante a grandeza de tamanha gente. Culta, interessada, inteligente e, coisa rara, humana. Em cada esquina, em cada quarteirão, numa avenida, num largo, num café, numa marginal, num quarto, numa cozinha, numa escola, num ministério, num cabeleireiro, sentia a solidariedade a fervilhar. Respiravam-se outros valores e fiquei sem respiração quando um velho me convidou a entrar na sua casa. Olha, tenho casa, televisão, banheiro e até batedeira. O velho em novo foi criado de americano. Não tinha nada, só as suas mãos e a força do saber que alguma coisa tinha de mudar. A revolução deu-lhe quase tudo. Outras tantas faltarão.

Depois de meses a aprender a ser cubano aprendi que nunca lá chegaria. Numa noite de trovoada, a Ângela, uma negra grande e linda, olhou-me nos olhos e disse "fica". Não fiquei. Não tinha a grandeza humana que um cubano tem. Depois de meses em Cuba regressei a Portugal e todos os santos domingos ia a uma cabine telefónica para ouvir a voz doce da Ângela.

Um dia a Ângela aterrou na Portela. Foram dias loucos. E numa noite num hotel em Lisboa olhei-a nos olhos e disse "fica". Não ficou. Tinha de ajudar Cuba. O amor impossível findou. Ficamos os dois nos nossos mundos tão distantes e tão próximos. Nunca mais voltei a aterrar em Havana.

Adiós, Fidel!