Donald Trump e a lição de Martin Niemoller

Martin Niemoller escreveu um famoso poema, que de resto conheceu várias versões como a do seu contemporâneo Bertolt Brecht, captando bem a forma como muitos trataram o nacional-socialismo e Hitler ao longo de demasiado tempo. Alertou ele: “Primeiro vieram buscar os comunistas e eu não disse nada pois não era comunista. Depois vieram buscar os socialistas e eu não disse nada pois não era socialista. Depois vieram buscar os sindicalistas e eu não disse nada pois não era sindicalista. Depois vieram buscar os judeus e eu não disse nada pois não era judeu. Finalmente, vieram buscar-me a mim – e já não havia ninguém para falar.”

A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas tem sido tratada de um modo geral com complacência. Os argumentos são variados: ele não é ideológico, agora no poder não vai cumprir muito do que prometeu, as instituições vão fazer o seu papel, os freios e contra-pesos vão funcionar e por aí fora. Trata-se de uma atitude perigosa e talvez a melhor forma de demonstrar isso seja reflectir sobre o que é, mas ao mesmo tempo sobre o que não é, o Presidente-eleito dos EUA.

Antes disso, importa referir que a actual atitude para com Trump não é um caso isolado. Com variações, o mesmo acontece com Viktor Orbán, que está a destruir peça por peça a democracia liberal na Hungria, com Jaroslaw Kaczynski, que está a levar a Polónia pelo mesmo caminho, com Recep Erdogan, que está a prender os que fazem frente ao seu poder – desde jornalistas e professores até militares e juízes –, e em certos casos até com Vladimir Putin, que eliminou – por vezes literalmente – toda a oposição na Rússia. De forma diferente, o mesmo pode dizer-se do apoio dado por muitos à Guerra do Iraque.

Para evitar equívocos, comecemos pelo que Trump não é. Ele não é um fascista. Como defendeu Sheri Berman, há grandes diferenças entre o fascismo e o populismo. Os primeiros eram contra a democracia, eram anti-liberais e opunham-se ao capitalismo, propondo-se levar a cabo uma revolução que substituísse a democracia liberal por um novo tipo de ordem política assente na ideia de uma nação unificada e purificada sob a orientação de um líder carismático e poderoso. Já os segundos, partilhando a aversão às lideranças democráticas que consideram fracas e ineficientes, não pretendem acabar com a democracia: eles são anti-liberais e não anti-democráticos. Acresce que há uma enorme diferença entre o contexto da década de 1930 e o actual, seja pelo facto de a democracia estar hoje muito mais enraizada, seja pela robustez da sociedade civil, seja pela existência do estado social, seja por não vivermos nos nossos dias nada parecido com a “Grande Depressão”. Há ainda uma colossal distinção entre os Estados Unidos e a Alemanha de então.

Quem é então Donald Trump? Ele é herdeiro da tradição populista norte-americana cujas raízes profundas estão no chamado “nacionalismo racial”. A sua característica mais saliente e duradoura – que começa com o Partido Americano, conhecido como os Know Nothing, criado em 1854 – é a rejeição ressentida e por vezes violenta dos imigrantes: os irlandeses, os alemães e os católicos em geral, primeiro, os chineses, depois, ainda os japoneses e agora os hispânicos. Depois, tem-se assumido ao longo do tempo como a voz do povo contra as elites políticas e dos grandes negócios, consideradas responsáveis pela deterioração das condições de vida da população. Também radica numa concepção da América em termos étnico-raciais, ou seja, como um povo unido pelo mesmo sangue e cor de pele.

A primeira linha de grande preocupação com uma presidência Trump está assim nas suas posições relativamente aos imigrantes. Não haja ilusões: ele vai levar a cabo uma política agressiva nesta área, traduzida num aumento do número de deportações de pessoas ilegais, mesmo que dificilmente atinja os 11 ou 12 milhões que prometeu. Mas, ainda mais grave do que isso, a sua retórica funcionará como um catalisador de ressentimentos e mesmo de acções violentas contra os imigrantes, transformando-os no bode expiatório de tudo o que correr mal, tal como aconteceu com outras minorias no passado. É o que se pode esperar quando eles são chamados de violadores e traficantes de droga pelo futuro Presidente do país.

Numa segunda linha temos as instituições em geral. Donald Trump irá assumir-se como a voz do povo contra o establishment, responsabilizando este último por todos os resultados menos bons que obtiver. As elites e instituições políticas, sobretudo as federais, serão o segundo bode expiatório e, num extremo, podem mesmo ficar em causa, ou pelo menos a sua função de checks and balances.

A terceira linha de sobressalto tem a ver com as minorias étnicas, nomeadamente os hispânicos, os afro-americanos e mesmo os asiáticos. Como vimos, a concepção de América da tradição populista de Trump baseia-se na partilha de um mesmo sangue e cor de pele: dos brancos. Para além da qualidade da liberdade destas minorias, podem estar em causas as muitas políticas destinadas a garantir igualdade de tratamento entre todas as raças e etnias, por exemplo ao nível do acesso ao emprego.

Finalmente, para referir apenas os casos mais graves, pode estar em causa a qualidade da democracia na América. O episódio do musical Hamilton, ou da reunião com os responsáveis por alguns dos meios de comunicação social de referência, são disso um sinal preocupante. Amanhã pode ser com as universidades, com os think tanks, com os comediantes ou com as inúmeras associações que existem no país. E depois os próprios direitos de voto podem ser sujeitos a crescentes restrições (o que, de resto, já está a acontecer em alguns estados).

Com as devidas diferenças, é bom ter presente a lição de Martin Niemoller, não ser complacente e denunciar qualquer ataque à democracia, à liberdade, aos direitos e garantias na América. Enquanto há “gente para falar”.

Universidade Nova de Lisboa e Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI-UNL)