Nikola Jelenkovic/Unsplash
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Megafone

O Natal está a chegar e eu emigrada

Existe quem cheire a batatas cozidas com Azeite Galo e couve da aldeia, existe quem enche a boca de Brexit e de vontade de mandar o pessoal mais novo “para o país deles”

Está a chegar o Natal e eu em Londres, não cheira a castanhas nem as miúdas dos secundários andam com a barriga à mostra pela Baixa em pleno Novembro – não há Baixa, nem cheira a castanhas. Não há quem venda cautelas como a minha avó fazia no Natal, nem miúdos a exibirem-se em cima de skates na Praça do Comércio.

Dois anos, quatro meses e dezasseis dias desde que emigrei, tinha dezanove anos e deixei em Portugal duas irmãs, um irmão e uns pais com o coração apertado. O Big Ben passou a ser atração para quando a família vem cá visitar e o London Eye sinal de atravessar a ponte para ir trabalhar – isto perdeu a piada amigos. Oxford Street só para entregar currículos e todas as bandas que tenho oportunidade de ver ao vivo, se não comprar o bilhete no minuto que fica disponível, depois só em segunda mão pelo triplo do preço.

Ir a Portugal no Natal significa contar as libras para os meses seguintes. Se estiverem aqui com um grande emprego a conversa é outra, agora os pobres do sítio que só sabem se têm dois dias de férias no Natal uma ou duas semanas antes, esses sim lá mandam as libras ao ar. Existem anos em que chegamos a 24 e vamos embora a 26 de madrugada — ao meio-dia de dia 26 já é para trabalhar. Dois dias por amor: um amor que cheira a castanhas, a tios a discutir futebol, a mousse, gelatina e a primos bebés que nunca se conheceu a não ser por videochamada ou pelas mil fotos nas conversas no grupo da família no Whatsapp. Emigrar é ter a mãe e o pai a aprenderem a mexer em smartphones só para nos ouvirem, só para nos verem e acharem que estamos perto. Engana-os e engana-nos a nós que estamos longe.

Aqui cheira a Brexit mas nem sempre são os Britânicos, às vezes são os portugueses. Entrei na mercearia portuguesa, devo ter ido comprar um vinho rasca para afogar as mágoas pós-referendo: Então, é para comemorar? – respondi que não, era para lamentar – Não me preocupo, estou cá já lá vão vinte anos - respondi que eu não – Ah! Pois, a mim não me rala – agarrei nos sacos e fui embora, lamentei por quem votou e pelos meus que só se importam com o seu próprio umbigo. No Natal têm cá os filhos, as filhas, as mulheres, os maridos e provavelmente a mãe, já velhota e que já não consegue tratar dos terrenos – Ah! Pois, a mim não me rala –. Depois temos os que são CEO de grandes empresas, temos aqueles que os papás meteram aqui como engenheiros ou arquitectos – temos os “empreendedores”, onde a ideia de negócio é a coisa mais pensada de sempre, mas nem todos tiveram dinheiro para investir. Existem pessoas como o meu pai, que emigrou sozinho e deixou tudo em Portugal, que dividiu quarto aos cinquenta e muitos anos, que as saudades doeram tanto que não aguentou e a quem o país falha com falta de apoios para famílias como a minha, que têm uma criança com paralisia-cerebral e zero ajudas. Por fim temos pessoas como eu, arrancaram aos dezoito anos ou pouco mais de Portugal para entrar na Universidade ou tentar entrar na Universidade e se conseguirmos, quando conseguimos, temos que conciliar a Universidade com um emprego, tentar passar de um quarto para um estúdio e de um estúdio para uma casa com um jardim todo por arranjar. Nós não somos melhores ou piores, somos outra geração e cada uma teve as suas particularidades. As nossas famílias estão longe e muitas vezes precisam é que se lhe envie dinheiro em vez de nos enviarem a nós. O que é que todas estas categorias têm em comum? Somos emigrantes – mas nem sempre ser emigrante para um é igual a ser emigrante para outro. O que é que é importante? Empatia. O que é que não existe? Exactamente.

Cheira a Brexit e não a castanhas – o único sitio que aquece o peito é em casa, isto se tivermos a sorte de já estar na fase em que temos uma casa, depois podemos ter uns quantos azulejos pintados com elétricos espalhados nos móveis, uns quantos amigos que no meio dos dias de vinte e sete horas conseguem vir dar um abraço.

Fui à mercearia portuguesa comprar rissóis, falámos das nossas vidas: estou com uma depressão – respondeu-me que isso é falta de acartar baldes – acarto outras coisas, saudades, responsabilidade, falta de colo e ansiedade, acarto a minha maneira de ser que certamente é diferente da sua e trabalho que não suja as mãos também é trabalho – disse-me que quando se mudaram para cá não tinham tempo para isso, sempre no plural, um português nunca o é sozinho - o amor pela pátria, falar por todos - depois olho para a esposa com um ar abatido, os cigarros são comidos e a boca fica calada – mas se calhar isso foi só com o senhor – diz que não, que a esposa pensa o mesmo, ela não fala. Fui embora e deixei os rissóis queimar, como os cigarros que aquela senhora engolia.

Está a chegar o Natal e existem milhões de pessoas emigradas, cada uma com particularidades diferentes e uma dinâmica pessoal completamente distinta da dos vizinhos, no entanto em Portugal somos todos o mesmo: os emigrantes. Cá somos vários e nem sempre somos vítimas ou acartamos baldes, nem sempre temos depressões, mas há quem as tenha, às vezes cheira a castanhas - mas não é no peito de todos e sim, temos sempre saudades, mas isso não faz de nós boas pessoas - faz de nós pessoas. Existe quem cheire a batatas cozidas com Azeite Galo e couve da aldeia, existe quem enche a boca de Brexit e de vontade de mandar o pessoal mais novo “para o país deles”.

Este ano é só mais um e esta época é só mais uma, as dificuldades de não ter a casa onde crescemos por perto está presente diariamente. Que o Natal em vez de apenas consumista seja um puxão de consciência e que se lembrem de quem está longe da mesma forma que se lembram de quem está perto. Viver noutro país traz ferramentas para lidar com determinadas rasteiras da vida, mas não nos priva de falar de politiquices anulando quem está a lutar por ter mais e ser melhor. Ser emigrante não é ser extraordinário. A empatia é urgente e não existe nenhuma meia vermelha pendurada na lareira, onde toda a empatia precisa caiba. O que nos salva é o vinho e talvez por isso ainda tenha que voltar aquela mercearia.