Uma igreja que é uma coroa em Famalicão

O novo templo católico de Santiago de Antas está carregado de referências simbólicas. Foi inaugurado no passado domingo.

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Nelson Garrido
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A partir da nova estrada aberta junto à igreja de Santiago de Antas, em Famalicão, o templo românico fica perfeitamente enquadrado entre a torre sineira e a nave do novo local sagrado da freguesia. Os dois edifícios não podiam, porém, divergir mais: o mais antigo é rectangular, pequeno, e granítico; o novo, que foi inaugurado no domingo, é elíptico, enorme, e construído em betão pintado de branco. “Queríamos fazer este contraste para mostrar às pessoas que é uma peça completamente diferente”, explica Hugo Correia, arquitecto que assina a obra.

A igreja antiga, com origem no século XII, está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1958. O projecto de arquitectura do novo edifício teve, por isso, que passar pelo crivo do  Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar). Nas conversas com os técnicos do património “surgiu muitas vezes a pergunta: por que não reveste a granito ou de algum material próximo a nova igreja?”, conta Correia. “Nós éramos completamente contra. A igreja antiga é tão valiosa, que não queríamos correr o risco de confundir as pessoas”.

Acabou por convencer os técnicos do Igespar e desenhar uma igreja moderna, de linhas simples, mas carregada de simbolismo. No interior, os únicos ornamentos estão no retábulo do altar, desenhado por Tiago Costa, arquitecto que esteve a colaborar no gabinete de Hugo Correia nos últimos anos. Esses dois painéis foram construídos em cerâmica e decorados com folhas de ouro e prata, com imagens de S. Tiago e de Nossa Senhora da Conceição. A igreja tem formato oval e no exterior é circundada por vários anéis que se entrecruzam, criando um efeito de malha. De acordo com Correia, pretendem simbolizar a coroa de espinhos que terá assentado sobre a cabeça de Jesus Cristo no momento da sua crucificação.

Há outras referências a símbolos da doutrina da Igreja Católica na obra. O piso de madeira é percorrido por duas linhas paralelas em mármore, que ligam o exterior do edifício ao altar. A primeira, azul, representa o rio Jordão, local do baptismo de Cristo, e liga o exterior do templo à pia baptismal e depois ao retábulo mor. A segunda linha, vermelha, representa o sangue do profeta, e termina sob o púlpito onde são feitas as leituras dos textos sagrados.

A freguesia de Santiago de Antas foi uma das que foi absorvida pela cidade com o crescimento de Vila Nova e Famalicão nos últimos anos. O vizinho Parque da Devesa e novos empreendimentos imobiliários fizeram crescer uma localidade que até há 30 anos era marcadamente rural. Hoje, tem cerca de 8.000 pessoas e a velha igreja não tinha condições para acolher os que, dentro destes novos habitantes, são católicos.

“Não havia assentos para todos”, conta o padre Agostinho Alves, que está na paróquia há seis anos. Além disso, faltava-lhe conforto: “era fria no Inverno e muito quente no Verão”. Hoje, a temperatura deixou de ser um problema dentro da igreja, onde há também lugar para muitas mais pessoas – o novo edifício tem 500 lugares sentados e espaço para mais 200 pessoas nas naves laterais – e condições acrescidas para as actividades da paróquia no piso subterrâneo, onde foi criado um centro pastoral com quatro salas para as sessões de catequese e uma sala com capacidade com 200 pessoas e possibilidade de receber espetáculos e festas.

A construção da nova igreja era, por isso “uma festa que há muito tempo se esperava” na freguesia de S. Tiago de Antas, ilustra Agostinho Alves. Esse dia chegou no domingo, com a realização de uma missa inaugural a que presidiu o Arcebispo de Braga, Jorge Ortiga.

Ao todo, a obra da nova igreja de Santiago de Antas custou 3,2 milhões de euros, financiados quase exclusivamente por fundos próprios da paróquia e por intermédio de um peditório feito de porta a porta juntos da população local e do apoio de alguns beneméritos. A Câmara de Famalicão deu também um auxílio, cedendo o terreno em que o edifício foi implantado por um prazo de 100 anos e atribuindo dois subsídios, num total 230 mil euros, que serviram para pagar o projecto de arquitectura e os arranjos exteriores.