Coelho à "belga" no menu de mais um Família do Lado

Projecto Família do Lado, da iniciativa do Alto Comissariado para as Migrações, juntou neste domingo 234 famílias de diferentes nacionalidades em 101 almoços-convívio destinados a promover a interculturalidade.

Foto
A viver em Portugal há 12 anos, Lysiane Hamtiaux (à direita com o marido) é uma estreante nesta iniciativa que, neste domingo, reuniu em todo o país 234 famílias de 32 nacionalidades Fernando Veludo/NFactos

O coelho com groselha “à belga” está pronto a ser servido, mas por enquanto a hora é de quebrar o gelo. “Gosto de tudo em Portugal, menos da burocracia. Detesto. É terrível para nós”, diz Lysiane Hamtiaux, de costas para a lareira acesa e sorriso aberto para o casal de portugueses que acolhe na sua casa, no âmbito da iniciativa Família do Lado, promovida pelo Alto Comissariado para as Migrações.

A viver em Portugal há 12 anos, Lysiane é uma estreante nesta iniciativa, que, na quinta edição que decorreu neste domingo, reuniu 234 famílias de 32 nacionalidades, em 101 “almoços-convívio”, cujo objectivo é claro: promover uma integração mais eficaz dos imigrantes na sociedade portuguesa, reforçando os laços sociais e a diversidade cultural do país.

Em Viana do Castelo, onde residem 1300 imigrantes, realizaram-se quatro almoços interculturais. “Curiosamente, já conhecia a Lysiane de vista, porque costumava vê-la a conversar com a dona do restaurante onde vou às vezes. Mas nunca pensei que estaria hoje em casa dela”, conta a “convidada” do casal belga Maria de Lurdes, uma enfermeira reformada com 66 anos. “Soube disto pelo Facebook e decidi inscrever-me porque sou muito comunicativa e gosto de conhecer, sobretudo estrangeiros, para conhecer a cultura e a maneira de pensar...”.

O que pensam Lysiane e o marido é que hão-de ficar por Portugal pelo resto dos seus dias. De resto, tal como uma boa parte dos cerca de 1300 imigrantes actualmente fixados em Viana do Castelo. “Temos alguns imigrantes brasileiros e ucranianos que vêm para trabalhar e refugiados que fogem da guerra – são 72 nacionalidades ao todo. Mas uma boa parte destes imigrantes são reformados, com um nível cultural elevado, que vêm à procura de uma vida mais sossegada. Alguns, sobretudo da Noruega e da Finlândia, passam cá o Inverno, que é menos rigoroso, e no resto do ano voltam para os seus países. A maioria comprou casa. Dizem que esta é the last stop…”, caracteriza Margarida Torres, da Câmara Municipal de Viana do Castelo, coordenadora de vários projectos, entre os quais aquele que põe muitos destes imigrantes a "arranhar" o português.

Pedidos de residência aumentaram

Enquanto Lysiane e o marido, numa mistura nem sempre perceptível de português e francês, degustam o vinho alentejano que lhes foi oferecido pelos convidados, em Lisboa, a secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Caterina Marcelino, provava uma feijoada, no almoço-convívio que partilhou com os seus anfitriões brasileiros. “Também lá estava uma família angolana que me contou que há dois anos recebeu uma família de Cabo Verde com quem, hoje em dia, já passa os Natais. E fomentar a interculturalidade e a relação entre as pessoas que vivem não ao lado uns dos outros, mas uns com os outros, é precisamente o objectivo desta iniciativa”, enuncia.

Originalmente chamada Next Door Family, esta iniciativa nasceu na República Checa, em 2004, pela mão de uma refugiada da Bósnia. Portugal aderiu em 2012 e, desde então, soma 468 almoços-convívio que envolveram mais de mil famílias, “das quais 55% continuam a manter relações”, segundo Marcelino. No ano passado, havia 388.731 estrangeiros titulares de autorização de residência em Portugal.

O último relatório do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras lembra que, apesar de o número de imigrantes estar a diminuir pelo menos desde 2010, o ano passado registou um aumento na concessão de novos títulos de residência da ordem dos 7,3%, totalizando 37.851 novos residentes. “Temos novas realidades a surgir, com muita gente a chegar do Bangladesh e com os refugiados que vêm da Síria, Iraque e Eritreia”, descreve Catarina Marcelino. Ainda assim, o retrato global dos imigrantes em território português não sofreu grandes alterações: os brasileiros continuam a constituir a maior comunidade (21%), seguidos dos cabo-verdianos (10%), dos ucranianos (9%) e dos romenos (8%).

Sugerir correcção
Comentar