Torne-se perito

Crises e sucessos dos governos de esquerda sul-americanos

A esquerda que está ou esteve até há pouco tempo no poder na América Latina não é herdeira da Revolução de Fidel Castro.

Morales, Kirchner, Mujica, Rousseff e Maduro em 2013
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Morales, Kirchner, Mujica, Rousseff e Maduro em 2013 Miguel Rojo/AFP

A esquerda que está ou esteve até há pouco tempo no poder na América Latina não é herdeira da Revolução de Fidel Castro, explicou o historiador cubano Rafael Rojas, citado pelo El Mundo. É, antes, produto de mudanças cíclicas políticas e de resultados eleitorais. Por isso, o que acontecer aos governos que ainda a representam pouco será afectada pela morte do último grande revolucionário. Na verdade, a crise da esquerda latino-americana já se vem a concretizar há um par de anos — igualmente fruto de alterações internas e não de grandes convulsões neste território que agrega 600 milhões de pessoas e tem dos mais ricos recursos naturais do planeta. Corrupção, crise económica, tentativa de perpetuação no poder, descontentamento dos cidadãos com todos estes cenários têm ditado viragens à direita. Mas alguns resistem, por mérito.

Brasil

Luiz Inácio Lula da Silva era o rosto da nova vaga de esquerda, o nome mais internacional de todos, que significava a esperança do crescimento de uma região que passou demasiado tempo na sombra das ditaduras e do sub-desenvolvimento. Mas quando a meada dos escândalos começou a ser desfeita, ele veio arrastado. O novelo revelou que a corrupção, endémica e antiga, não poupou o partido que representava os trabalhadores e os pobres. E que era profunda, do mais baixo nível da administração ao parlamento e à maior empresa do país, a Petrobras. Lula — e a sua família — é alvo de uma investigação que ainda não ousou dar-lhe ordem de prisão. Mas que já teve um efeito: arrasou o Partido dos Trabalhadores e a "herdeira" de Lula, Dilma Rousseff, destituída por manipulações orçamentais e que deixou a presidência com o Brasil mergulhado numa recessão. A direita, representada por Michel Temer, chegou ao poder pela porta lateral e, apesar de estar igualmente imersa em corrupção, tudo fará para lá se manter.

Venezuela

Se há um eco da revolução cubana, é aqui. Hugo Chávez, que depois de uma tentativa de golpe chegou ao poder por via das urnas (1998), cunhou o termo "bolivarianismo" para definir um programa que definia mudanças económicas, políticas e sociais baseadas no ideário do libertador Simón Bolívar; o "novo socialismo". Venezuela e Cuba seriam países irmãos, a Venezuela ajudaria os amigos regionais fornecendo-lhe petróleo a baixos custos. Mas Chávez morreu, o preço do petróleo — que equilibrava as contas — caiu a pique, e o "herdeiro", Nicolás Maduro, que conseguiu ser eleito Presidente por curta margem, não tem aptidões ou carisma para segurar a "revolução". Em 2015, o "chavismo" perdeu as legislativas e o país vive uma guerra institucional que adensa uma crise já grave pela falta de liquidez e bens para fazer funcionar a economia (não há matérias primas, não há electricidade, não há alguns medicamentos e alguns alimentos são racionados; a inflação atinge números astronómicos). A revolta social avoluma-se. Até quando sobreviverá Maduro, e com que meios, são as perguntas que se fazem sobre o futuro próximo da Venezuela.

Bolívia

Evo Morales, o primeiro líder indígena do país, alinha com o ideário bolivariano. No início do ano, perdeu o referendo em que propôs aos cidadãos poder ser reeleito indefinidamente. Neste caso, o princípio democrático sobrepôs-se à boa prestação do Presidente. Nos 11 anos de presidência Morales, a Bolívia cresceu economicamente como nunca antes, a pobreza caiu, assim como a desigualdade, os direitos dos indígenas entraram na Constituição. A população não lhe nega méritos, mas deu preferência à mudança de rosto no poder. Mas quando o assunto parecia arrumado, Morales ressuscitou-o. "Não estou pronto para ir para casa", disse há duas semanas, abrindo a possibilidade de fazer um segundo referendo e sugerindo que o primeiro foi manipulado. "O que fizemos politicamente pelo desenvolvimento deste país é extraordinário. Quando não nos conseguem derrotar ideologicamente ou democraticamente, usam a família e até crianças que não existem". O seu objectivo, segundo assessores, é manter-se no poder até 2025, para completar o seu programa.

Equador

Realizam-se eleições em Fevereiro de 2017 e Rafael Correa quis candidatar-se pela quarta vez, apesar de ser um Presidente impopular. Está no cargo desde 2007 (Revolução Cidadã era o nome do seu programa). É um chefe de Estado contestado nas ruas. Em 2010, enfrentou uma revolta das forças policiais, agastadas com cortes de benefícios e salários. Foi agredido e chegou a estar num hospital militar sob guarda. A lei de imprensa que aprovou motivou novos protestos, por limitar a acção dos media. A população queixa-se de insegurança e abusos — "Prisão Correa" foi lema de várias manifestações, "Para sempre Correa" foi o mote das contra-manifestações. O Tribunal Constitucional e o Parlamento deram-lhe autorização para se recandidatar este ano, o Supremo mandou fazer um referendo para ser o povo a decidir. Finalmente, há dois meses, anunciou que se retirava. O "oficialismo" escolheu um novo candidato à presidência — Lenín Moreno, que já foi vice-presidente. Os analistas dizem que tem hipóteses de ganhar pois a oposição está dividida e apresentou três candidatos, o que dispersará os votos.

Argentina

Com os Kirchner (primeiro Néstor e depois Cristina) a pobreza desceu 70% na Argentina e a pobreza extrema desceu 80% (entre 2003 e 2013). O desemprego, diz o FMI, desceu 17 pontos, para 6,9% segundo o FMI, Mas o candidato "peronista", Daniel Scioli, não conseguiu ganhar as presidenciais de 2015 e o país virou à direita — venceu Mauricio Macri. Cristina Kirchner não conseguiu assegurar receitas para sustentar o investimento público, as contas públicas caíram num buraco (o défice era gigantesco) e a economia deixou de crescer. A inflação subiu e os argentinos tiveram medo de ver o país regressar aos anos da depressão. Os escândalos de corrupção e as acusações de favorecimentos por parte de Cristina — com a morte suspeita de um procurador que a investigava pelo meio — também não favoreceram o "herdeiro" Scioli. O apelo Kirchner desapareceu e os velhos chavões — Scioli baseou a campanha no medo: a direita contra os direitos dos pobres e oprimidos — não funcionaram junto do eleitorado. No dia 15 de Dezembro, Macri celebra um ano de presidência.

Uruguai

É o grande caso de sucesso. Sucesso político e humano, por assim dizer. José Mujica — o "Presidente pobre" — chegou ao poder em 2010 e saiu em 2015. Nos dois mandatos que a Constituição lhe davam, fortaleceu a economia do Uruguai que teve dez anos consecutivos de crescimento. Aprovou reformas na Saúde e fiscais e aprovou legislação progressista (liberalizou o uso médico da canábis, o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo). Ao deixar o cargo, Mujica tinha uma taxa de aprovação de 70% e os eleitores escolheram para lhe suceder outro Presidente de esquerda, Tabaré Vázquez, um médico de oncologia. Vázquez governa desde Março de 2015. Uma das suas decisões foi criar uma equipa para investigar os crimes da ditadura militar (1973-85) — quer esclarecer tudo o que se passou, apurar responsabilidades, mesmo que os velhos generais não possam se julgados (foi aprovada uma lei de amnistia). A população gostou da decisão.