Fidel Castro: Duas visitas a Portugal e o gosto pelo clima e pelos portugueses

Antigo líder cubano esteve em Portugal em 1998 e 2001.

Fidel Castro em 1998 no Porto
Fidel Castro em 1998 no Porto Fernando Veludo
Fidel Castro em Lisboa, no ano de 2001
Fidel Castro em Lisboa, no ano de 2001 Miguel Madeira/Arquivo
Fidel Castro com Américo Amorim, em 1998
Fidel Castro com Américo Amorim, em 1998 Manuel Roberto/Arquivo
Fidel Castro ladeado por António Guterres e Fernando Henrique Cardoso, do Brasil, em 1998
Fidel Castro ladeado por António Guterres e Fernando Henrique Cardoso, do Brasil, em 1998 Manuel Roberto/Arquivo
Jorge Sampaio com Fidel Castro, em 1998
Jorge Sampaio com Fidel Castro, em 1998 Manuel Roberto/Arquivo
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Fidel Castro, que morreu na sexta-feira, dirigiu os destinos de Cuba durante quase meio século, mas apenas esteve em Portugal duas vezes, uma de passagem, quando elogiou o clima, e outra mais longa, que terminou com a frase: “Gosto muito dos portugueses.”

“Gosto muito dos portugueses, esta estada ultrapassou as minhas expectativas.” Era 19 de Outubro de 1998 e Fidel tinha acabado de se reunir com o empresário Américo Amorim, partindo depois para Lisboa, no final de uma visita de três dias a Portugal, no âmbito da VIII Cimeira Ibero-Americana, que decorreu no Porto.

Fidel voltaria a Portugal menos de três anos depois, breves horas entre viagens com oportunidade para se encontrar com o então primeiro-ministro António Guterres e Jorge Sampaio, Presidente da República na altura, com quem jantou.

Chegou ao fim do dia e partiu de madrugada, quase discreto, não fosse Fidel Castro. Ainda assim nada como quando da cimeira do Porto e dos longos discursos, um no evento e outro num espectáculo de solidariedade para com Cuba, quando chegou perto da meia-noite e discursou duas horas e meia.

“Eu sei que aborreci um pouco as pessoas e os chefes de governo estão um pouco aborrecidos comigo”, admitiu aos jornalistas na hora da partida, quando lhes disse também desejar voltar a Portugal. “Logo que puder [farei cá] uma escala”, disse.

Aconteceu a 17 de Maio de 2001, no regresso a Cuba de uma visita de dez dias à Argélia, Irão, Malásia, Qatar e Síria (com uma escala surpresa na Líbia para visitar o então dirigente líbio e amigo Muammar Khadafi). Chegou a Lisboa às 18h30, descansou um pouco num hotel, reuniu-se com o primeiro-ministro e depois jantou com o Presidente da República. Como habitualmente despertou curiosidade e palavras de ordem contra o bloqueio dos Estados Unidos à ilha.

O embargo imposto pelos Estados Unidos começou em 1962, tinha acabado de ser reforçado pelo então Presidente norte-americano George W. Bush. Fidel comentou esse reforço em Lisboa, apelidando-o de “excelente”, por demonstrar, justificou, que a Administração Bush usava “pouco a cabeça”, cometendo “mais erros”.

Bom conversador, tranquilo e simpático, justificou ainda aos jornalistas a escala em Lisboa e não em Madrid: “Gosto de Portugal. É um país amável, que está no extremo da Europa” e, por isso, “não tão longe como Espanha”. Partiu à 1h40 para Havana.

Esse “gosto” ter-lhe-á ficado de Outubro de 1998. Às 11h de dia 16 aterrava no Porto, precisamente uma semana depois de ter sido anunciado o Prémio Nobel da Literatura para José Saramago. Ainda no aeroporto Fidel falou do amigo, que esperava encontrar.

E encontrou, mas antes disse que os três símbolos da Revolução Francesa, liberdade, igualdade e fraternidade, não chegaram ao fim do século XX, que a globalização tem “perigos muito grandes” (o tema de cimeira era "os desafios da globalização"), ou que “a ordem mundial dos Estados Unidos está condenada a entrar em crise”. À hora de almoço de dia 19 partiu para Espanha.

Deixara um memorável discurso na noite anterior em Matosinhos (numa festa promovida pela Associação de Amizade Portugal-Cuba). Teve encontros com o antigo primeiro-ministro Vasco Gonçalves (morreu em 2005) ou com Carlos Carvalhas (na altura secretário-geral do PCP), além de com José Saramago (morreu em 2010).

Foi em 1975, quando Vasco Gonçalves era primeiro-ministro, que Lisboa e Havana mais próximas estiveram. Otelo Saraiva de Carvalho, um dos operacionais do 25 de Abril, visitou Cuba nesse ano e foi recebido com pompa e circunstância.

Depois o Presidente Mário Soares apelidou Fidel Castro de “dinossauro”, e o primeiro-ministro António Guterres disse que preferia líderes democráticos cubanos a Fidel. Antes da visita de 1998 feita “com prazer”, quando “El comandante” descobriu que até gostava muito dos portugueses.

Ficou por saber-se se a sua opinião mudou quando em 2001 o presidente do CDS/PP, Paulo Portas (que em Novembro de 2014 fez uma visita oficial a Cuba como vice-primeiro-ministro, acompanhando 30 empresas portuguesas), disse no Parlamento que Fidel seria sempre “persona non grata” em Portugal, criticando que fosse acolhido em Portugal e até lhe dessem de jantar.

Ou quando o amigo Saramago, em Abril de 2003 e na sequência de terem sido fuzilados três cubanos dissidentes que tinham sequestrado um barco, escreveu: "Cuba não ganhou nenhuma heroica batalha fuzilando esses três homens, mas perdeu a minha confiança, destruiu as minhas esperanças e defraudou as minhas expectativas."