Opinião

A culpa é do excecionalismo americano

Parece ser na educação, mais do que a classe ou o rendimento, que se encontra a correlação mais forte com o sentido de voto.

Nova Iorque, EUA. — Tem andado tudo afadigado por aqui à procura da razão, de uma razão, pela qual Clinton tenha perdido para Trump. Numas eleições tão bizarras, nem a razão do costume (“porque teve menos votos”) pode servir. Como toda a gente já sabe, não só Clinton teve mais votos do que Trump — a diferença já vai em dois milhões —, como teve uma margem maior do que a maior parte dos candidatos vencedores no último século e meio. Em percentagem, é preciso recuar até 1876 para encontrar um candidato com uma diferença pontual igual à de Clinton (mais de 1,5%) que não tenha ido parar à Casa Branca, e foi porque decidiu desistir. História verdadeira: nesse ano, o democrata Samuel Tilden, vencedor das eleições no voto popular e no colégio eleitoral, entregou a presidência ao perdedor republicano Rutherford Hayes, em troca — preparem-se — de os estados do Sul poderem restabelecer a segregação racial.

Trump ganhou onde interessa ganhar: no colégio eleitoral. Por sua vez, isso tem lançado os analistas na senda de um segmento do eleitorado — os trabalhadores brancos rurais de quatro estado do Midwest — bem menos numeroso do que algumas das minorias a que se queixam de ser dada demasiada atenção. Mas pelo caminho vão caindo outras narrativas. Afinal, segundo os últimos dados, nas cidades com mais de 50 mil habitantes, Clinton ganhou também entre os trabalhadores brancos, sobretudo os de rendimentos mais reduzidos, desde que tenham um grau educacional mais elevado. Parece ser na educação, mais do que a classe ou o rendimento, que se encontra a correlação mais forte com o sentido de voto.

Enquanto isso, o Presidente Obama, os apresentadores de televisão e as poucas figuras consensuais que restam no país tentam fazer pela unidade dos estadunidenses da única forma que conhecem: dizendo-lhes que pertencem à maior nação do mundo. Isso é evidentemente dogma por aqui, e leva-se bastante a mal que alguém duvide do excecionalismo americano.

Mas é esse excecionalismo que faz com que os americanos andem à procura de razões para este resultado eleitoral quando têm uma à frente do nariz e se recusam a considerá-la. A mesma, aliás, que também permite entender o "Brexit" no Reino Unido. As elites anglo-saxónicas, assim como uma boa parte das elites anglófilas em todo o mundo, estão de tal forma convencidas de que a demagogia autoritária não pode por natureza ganhar nestes países, e venderam de tal forma essa narrativa à população em geral, que se encontram sem saber o que dizer perante a falha na sua grelha de leitura. Quando deveriam dizer o óbvio: o fascismo e o nacional-populismo podem ganhar em qualquer parte do mundo, e este país faz parte do mundo.

Boquiabertos, os americanos vão descobrindo agora que o próximo presidente do país considera que, por lei, os seus conflitos de interesses são sempre legítimos e que pode perfeitamente gerir os seus negócios a partir da Casa Branca. E descobrem também que há muito pouco que as suas instituições, a sua imprensa ou a sua sociedade civil possam fazer contra isso. O excecionalismo americano, partilhado por esquerda e direita, deixou o país excecionalmente mal preparado para uma situação destas.

Por isso nos canais de televisão “liberais” tem havido agora um autêntico desfile, por uma vez, de comentadores russos, turcos e italianos para falar de como se organizou a resistência a Putin, Erdogan ou Berlusconi. Em surdina, os americanos dos EUA ouvem pela primeira vez na vida: bem-vindos ao mundo real.