Entrevista

"A Autoridade Palestiniana é um regime a braços com um enorme problema de corrupção"

Roni Ben Efrat é uma das responsáveis pela Syndianna of Galilee e pela WAC-Maan -The Workers Advice Center, associações sindicais e de comércio justo em Israel. Veio a Lisboa proferir uma palestra sobre a sua actividade, organizada pelo CIDAC.

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Fábio Augusto

No tempo do Hamas e da Autoridade Palestiniana, deixou de ser possível, para a esquerda israelita, cooperar com os árabes e as populações os territórios ocupados na defesa dos seus direitos. A luta política foi substituída pelo trabalho sindical e a defesa do Comércio Justo. Roni Ben Efrat activista e promotora de Comércio Justo em Israel.

Quando pensamos em luta política em Israel, comércio justo não é a primeira ideia que nos vem à cabeça.
O comércio livre não é apenas uma escolha social e económica. É também uma escolha política. Nós, os fundadores da Syndyanna of Galilee éramos activistas de esquerda, desde os finais dos anos de 1970. Éramos cinco pessoas, judeus e palestinianos, que lutavam contra a ocupação. Desenvolvíamos acções de solidariedade com a população árabe em Israel, que era vítima de discriminação, desigualdade, pobreza, falta de oportunidades. Alguns de nós tornámo-nos presos políticos. Eu estive presa nove meses. Outros estiveram 18, 30 meses.

Desenvolviam uma acção estritamente política?
Fazíamos jornalismo. Criámos um jornal, íamos para a Cisjordânia e Gaza e escrevíamos sobre o que hoje se chamaria defesa dos direitos humanos, embora nem existisse ainda essa designação. Sobre pessoas que tinham tido as terras confiscadas, tortura nas prisões, etc.. Tinha havido, depois da primeira Intifada, os acordos de Oslo. Quando os lemos, percebemos logo que não iriam levar à independência para os palestinianos. Iria torná-los uma espécie de município dentro de Israel, com responsabilidade sobre as questões locais, educação e saúde, mas não um estado independente. Por isso fomos desde logo contra os acordos.

No entanto, os próprios líderes palestinianos acreditaram neles.
Sim, ficaram entusiasmados, mas a verdade é que não impunha nenhuma obrigação a Israel. Não referia o que aconteceria com os colonatos. Ou com Jerusalém, ou os refugiados. Era apenas um processo, sem metas definidas. Israel ficou a ganhar em tudo, os palestinianos apenas ganharam reconhecimento, mas ficaram sem nenhum trunfo. Ganharam um regime, não um estado. É isso que a Autoridade Palestiniana (AP) é desde o início: um regime, hoje a braços com um enorme problema de corrupção. Hoje, perguntamos: como puderam cair naquela armadilha?

Que poderiam ter feito na altura?
Tenho de usar um eufemismo militar: não deveriam ter colocado as armas em cima da mesa. Porque ficaram reféns da situação, a começar pelas próprias palavras: hoje, Israel pode dizer que não há ocupação, e não é responsabilizado por isso. Porque se assumisse a ocupação, teria de pagar a Educação, Saúde, estradas, infra-estruturas.

A Autoridade Palestiniana recebe financiamento internacional para isso.
Sim, mas com isso a Europa está de facto a financiar a ocupação. A AP tem interesse em que a situação continue. Muitas pessoas estão a receber chorudos salários, habitam bonitas vivendas, enquanto as pessoas nos campos de refugiados e nas aldeias estão a sufocar.

Por problemas de segurança ou económicos?
Económicos. Não podem trabalhar em Israel, e os salários que recebem nos territórios palestinianos são muito baixos. O custo de vida em Israel é muito alto e os palestinianos têm de comprar os produtos na moeda israelita, embora os seus salários sejam cinco ou seis vezes mais baixos do que os praticados em Israel.

E ninguém defende os palestinianos contra isso, a nível político, nem o Hamas?
A situação é confortável para Israel e para os líderes palestinianos. As pessoas sofrem, mas estão cansadas de derramar sangue. Há uma total falta de liderança entre os palestinianos. O Hamas são fundamentalistas religiosos que não têm nada para oferecer ao povo além de conceitos de vida medievais e opressão das mulheres. A AP é corrupta e também não tem nada para dar. Qual é a diferença entre a AP e qualquer outro regime ditatorial do Médio Oriente? Quando a Primavera Árabe começou, estávamos optimistas, porque pela primeira vez vimos um movimento que dizia: não queremos o islão radical e não queremos as ditaduras dos regimes árabes. Queremos democracia, educação, prosperidade.

Mas falharam em quase todo o lado.
Quase todo. Na Tunísia estão a proceder bem, porque encontraram um equilíbrio entre o partido islamista moderado e os liberais.

Nos territórios ocupados da Palestina não houve Primavera Árabe.
Não, o que é um sinal muito mau. As pessoas estão cansadas de violência, sem obter nada em retorno. A sua situação é agora mais complicada do que nunca, porque se dantes tinham apenas de lutar contra Israel, agora têm a AP, o Hamas. Que vão fazer? Estão numa armadilha. É triste que os palestinianos, que sempre pediram a solidariedade do mundo, e tiveram-na, não mostrem agora nenhuma solidariedade pelos países que lutam contra os seus opressores.

Está a pensar na Síria?
Sim, deixaram os sírios seres vítimas de Assad, e não fizeram nem uma manifestação de protesto. Nenhum intelectual palestiniano deu a cara para denunciar o que se passava. Até as pessoas que eram nossas aliadas durante a primeira Intifada estão agora integradas na AP, e dizem: Assad deu-nos refúgio durante os tempos do exílio, não estaremos agora contra ele.

Toda essa situação torna hoje mais difícil à esquerda israelita lutar ao lado dos palestinianos.
Exactamente. Quando falamos da ocupação, a responsabilidade é 100% dos israelitas. Mas do lado palestiniano fecham-se à solidariedade dos judeus progressistas, ou das organizações israelitas de defesa dos direitos humanos, e contra a ocupação. É um erro, porque precisariam de aliados em Israel. Não querem nada connosco.

É por isso que as vossas formas de acção política mudaram.
Sim. Começámos, logo desde os acordos de Oslo, a trabalhar em projectos diferentes. Criámos várias ONG, como a Syndianna of Galilee e a WAC-Maan, que evoluiu para um sindicato. Temos hoje três sindicatos em Israel. Envolvemo-nos, por exemplo, no grande movimento social de 2011, em que centenas de milhares de pessoas vinham para as ruas protestar contra as desigualdades e injustiças em Israel. Mas nesse movimento ninguém falava do problema principal, a ocupação. Era como se houvesse um elefante na sala e todos fingissem não ver. Porque o problema de segurança é tão forte, o medo é tão presente, que as pessoas acabam por sentir que, se são patriotas, estão do lado da posição israelita, contra os palestinianos. Se se for patriota, goste-se ou não, serve-se os objectivos da direita. É por isso que eu hoje digo que não sou uma israelita patriota.

Não se pode ser patriota contra a ocupação?
Acho que não se pode ser um democrata, já para nem dizer um socialista, como eu sou, se se toma o partido de nós, os judeus. Temos de olhar para a sociedade como inclusiva, olhar para as pessoas que são mais oprimidas.

Que são árabes, na maior parte dos casos.
Sim, nos nossos sindicatos lutamos pelas pessoas, quer sejam judeus ou árabes. Estamos agora a organizar uma grande greve numa fábrica onde os trabalhadores são quase todos judeus. E, presumo, simpatizantes da direita. Noutro caso, levámos os patrões de uma fábrica a tribunal, e ganhámos. Usamos os tribunais quando os trabalhadores estão numa posição frágil. Quando são fortes, fazemos uma greve.

As vossas lutas travam-se exclusivamente no plano sindical?
Sim, embora tenhamos também actividades diferentes das dos sindicatos convencionais. Ajudamos mulheres árabes a entrar no mercado de trabalho. Temos uma unidade de produção de azeite onde empregamos mulheres, com salários decentes. Outro projecto nosso ajuda os árabes de Jerusalém Oriental (onde a pobreza extrema atinge 82% da população) a acederem a benefícios sociais.

E a actividade de Comércio Justo consiste em quê?
A Syndianna of Galilee foi a primeira organização de Comércio Justo em Israel. Começámos no início dos anos de 1990, defendendo as pessoas contra o confisco de terras, promovendo o comércio justo para os agricultores árabes. Hoje, somos o maior exportador de azeite em Israel, ajudando os pequenos produtores. Até há pouco tempo, Israel não consumia azeite. Lembro-me de que na minha infância o azeite era considerado uma coisa dos árabes. Só entrou na cozinha israelita quando abriram nas cidades os primeiros restaurantes italianos. Nós usámos isso para promover os produtores de azeitona. Só provei azeite quando tinha 25 anos. Um dos principais produtos da nossa terra. Hoje tem muita procura.

É, hoje, esse o tipo de luta disponível para a esquerda israelita.
Sim. Claro que toda a actividade política é importante. Alguns de nós continuam a militar em partidos de esquerda. Mas em tempos de declínio desse tipo de combate, é isto que podemos fazer. Precisamos de mostrar que há alternativas de solidariedade e activismo. Não vamos ficar sentados numa cadeira a resmungar. Estamos a fazer coisas. E a mostrar que árabes e judeus podem trabalhar juntos. Nem sempre há revoluções ou grandes levantamentos. Mas nestes tempos mortos, as pessoas continuam a precisar de apoio.

Esse tipo de trabalho social com as populações é um pouco o que os fundamentalistas islâmicos têm feito, na Palestina, como em vários países, com grandes ganhos políticos.
Absolutamente. Nos territórios ocupados, o Hamas não teria uma influência tão grande, se não tivesse pessoas a fazer este tipo de trabalho. Mas eles fazem-no porque têm o apoio financeiro de países como a Arábia Saudita e o Qatar. A AP faz pouco, porque todo o dinheiro que recebe da União Europeia desaparece nos canais da corrupção.