Dois portugueses nos EUA: um lucra com a Black Friday e o outro passava bem sem ela

Após o Dia de Acção de Graças, instala-se o caos nas ruas e nas lojas. É a "Sexta-feira Negra", que desde os anos 60 tem vindo a ganhar relevo e que já se tornou o dia mais lucrativo para os lojistas americanos, aqui vista por dois emigrantes portugueses na costa Leste.

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Nos EUA, nestes dias, há milhares de pessoas em filas, o caos nas lojas e os atropelos, empurrões e pisadelas AFP/PEDRO PARDO

“A Black Friday é o dia mais louco de todos na América, em que se faz mais negócio”. Quem o diz é Arnaldo Oliveira, um emigrante português de 61 anos, natural de São Miguel, Açores. O empresário não tem dúvidas de que a “Sexta-feira Negra” é o dia em que mais lucra no ano inteiro. “Fazemos o dobro do que na véspera de Natal e nos outros dias nem se compara”, garante. Na sua loja, a North End Stereo, onde vende produtos portugueses e electrodomésticos, regista, tal como em todos os estabelecimentos americanos, um aumento explosivo de clientes neste dia. “As pessoas criam contas no banco, vão lá pondo 5, 10 dólares por semana, aquilo que puderem, e depois gastam tudo na Black Friday”. Arnaldo adere à onda das grandes promoções, mas alerta que apenas o faz em alguns produtos e em quantidades específicas. E convém chegar o mais cedo possível para as apanhar: “Só os primeiros dez ou 12 clientes é que conseguem os descontos, não dá para todos os que vêm a seguir”.

São milhares de pessoas em filas, o caos nas lojas e os atropelos, empurrões e pisadelas que geram as nódoas negras que inspiram o nome do dia. “As pessoas agarram numa peça que querem comprar, ainda mal a tiraram da prateleira e já outra pessoa está a pegar nela também. Depois gritam, tratam-se mal… não há respeito pelas regras de convivência que durante o resto do ano se verificam. As pessoas entram num estado de psicose de grupo”, conta Miguel Bastos. Também ele é português, do norte do país, e emigrou para os EUA há 12 anos. Vive em Baltimore, Maryland, tem 43 anos e é director de operações de uma filial da corticeira Amorim. Embora não goste de se envolver na confusão das compras desenfreadas, lida com os seus efeitos através dos colegas no escritório. “Vejo-os chegar com materiais de escritório que poderiam ter pedido cá, mas que quiserem comprar na véspera. Quando lhes pergunto por quê, dizem apenas ‘ora, porque estava em promoção!’”.

O amor dos norte-americanos pelos saldos é o alimento deste dia “negro”. O termo alude ao velho hábito dos retalhistas, no tempo em que as compras ainda eram registadas à mão, usarem canetas de tinta vermelha para indicarem que os saldos das lojas eram negativos e a tinta negra para os positivos. A passagem para o lado “negro” acontecia no dia seguinte ao Dia de Acção de Graças, quando as pessoas começavam as compras de Natal. Este hábito começou depois do grande desfile do Dia de Acção de Graças do Macy’s, uma das maiores redes de armazéns de lojas americanos, que encheu as ruas de Nova Iorque em 1924.

Porém, a associação do termo “negro” à euforia desta sexta-feira só se tornou realmente popular a partir dos anos 60, quando os polícias em Filadélfia começaram a queixar-se do caos que se instalava nas lojas e nas ruas, com milhares de carros em filas intermináveis. A desordem era tal que os polícias estabeleceram a ligação a outro dia, ainda mais negro, da economia americana: a quinta-feira de 24 de Outubro de 1929, quando se deu o crash da bolsa de Nova Iorque e o princípio do pior período da economia mundial no século XX.

Quase um século depois, a Sexta-feira Negra ainda não é um feriado oficial nos EUA, apesar de muitos trabalhadores (que não façam parte do sector retalhista) terem o dia de folga para aproveitar a ocasião. As lojas, essas, abrem mais cedo e também fecham mais tarde, aproveitando para renovar os stocks e oferecer descontos entre 25% e 70% que enchem os olhos dos consumidores e antecipam a vaga de saldos de Janeiro. E para ficar ao corrente das melhores oportunidades, há que estar atento aos meios de comunicação. “O jornal Standart Times cá em Newport, por exemplo, é aumentado pelo menos dez vezes na parte da publicidade, porque vêm referenciados os produtos das várias lojas que vão estar em promoção e as quantidades”, explica Arnaldo Oliveira, que também promove os seus produtos, mas nas rádios e jornais portugueses de Newport – no último caso com direito a fotografias e tudo.

E ainda que cada consumidor seja livre de comprar ou não neste dia, Miguel Bastos culpa a grande pressão social que há para o fazer. “As lojas são muito agressivas nas publicidades que fazem e, se não compras nada, não te sentes bem. As pessoas compram coisas de que nem precisam, só porque está em promoção. É a pressão do grupo”.

Uma pressão que começa a fazer-se sentir muito antes e que afecta o espírito do Dia de Ação de Graças. Miguel comemora-o com os “poucos mas bons” amigos portugueses que vivem perto de si, mas Arnaldo passa o dia em família, como manda a tradição. Já vai no segundo casamento, tem três filhas, já com as respectivas famílias, e afirma sem hesitar que este é “o dia mais familiar do ano, mais ainda do que o Natal”. A família Oliveira junta-se na casa do patriota a partir das 10h para o almoço (“é a altura mais importante do dia, em que comemos o peru”) e só volta a separar-se às 22h, quando os elementos mais novos do clã vão preparar-se para as compras do dia seguinte.

“Até há quem compre tendas, leve comida e fique a noite toda em frente às lojas, à espera que abram no dia seguinte. Às vezes, está muito frio, muito vento, mas eles não desistem. Pelo menos este ano vamos ter bom tempo”, diz Arnaldo, recordando um caso em que a persistência deu frutos. O filho de uma colega sua da loja ganhou no ano passado um Ford Mustang que estava a ser oferecido a quem conseguisse chegar ao fim das 16h do desafio ainda com uma das mãos sobre o veículo. “No fim, já era ele contra dois americanos, e um disse ‘dou-te cinco mil dólares se desistires e te fores embora’. O outro disse 'eu dou 10 mil', mas ele não aceitou, ganhou e agora tem o carro”, conta.

Texto editado por Raquel Almeida Correia