Francisco Vidal e Pedro Batista encontram a pintura na marginal

Cresceram com o horizonte territorial e cultural da marginal de Cascais em fundo. Começaram no punk, skate, surf ou hip-hop. Agora os artistas plásticos Francisco Vidal e Pedro Batista juntam tudo isso, que nunca esteve desligado, numa exposição conjunta na galeria Underdogs: Marginal

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A exposição conjunta de Francisco Vidal e Pedro Batista inaugura esta sexta na galeria lisboeta Underdogs FOTO: Jose Pando Lucas
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Obra de Pedro Batista FOTO: Jose Pando Lucas
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Obra de Pedro Batista FOTO: Jose Pando Lucas
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Obra de Francisco Vidal FOTO: Jose Pando Lucas
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Obra de Francisco Vidal
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Obra de Francisco Vidal
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Francisco Vidal

Tem muitas leituras. É sobre a marginal de Cascais. O eixo Oeiras-Carcavelos. Um microcosmos cultural onde dois homens que já foram adolescentes cresceram. É sobre punk, skate, surf, do-it-yourself. É uma exposição de pintura de dois artistas que valorizam a fisicalidade do acto de pintar. É um diálogo contextual, onde mais do que linguagens visuais comuns, há experiências de vida semelhantes com marcas distintas na relação e interpretação do mundo.

Marginal, a exposição conjunta de Francisco Vidal e Pedro Batista, que inaugura esta sexta na galeria lisboeta Underdogs, prolongando-se até 23 de Dezembro, resulta de um desafio endereçado por Pedro a Francisco. “Quando a Pauline Fossel, da Underdogs, me convidou a fazer uma exposição aqui sugeri, pouco tempo depois, fazê-la com o Francisco que aceitou de imediato”, lembra Pedro, que evoca a intuição, a empatia, os amigos comuns, o sentido geracional e o “termos crescido no mesmo sítio”, para explicar o repto endereçado.

“Conhecemo-nos através da pintura há uns dez anos”, recorda Francisco, revelando que para além das pinturas de cada um, existirá um elemento importante na exposição: uma fanzine de formato A3, que possibilitará ao visitante aperceber-se do que partilham os dois artistas. Foi a pintura que os juntou, mas antes dela, viriam a perceber depois, tinha havido uma vivência com muitos pontos de contacto, ao nível do território da adolescência e da cultura então experimentada. Isso está inscrito na sua obra, garantem, mas terá uma tradução mais simples e imediata no número zero da fanzine Marginal.

“Na nossa adolescência a fanzine era algo importante”, lembra Francisco. “Ainda não havia internet e era a possibilidade de aceder a um espaço crítico. Era aquela coisa meio adolescente de querer mudar o mundo. Tocamo-nos nesse espaço. E a estrada marginal é o horizonte onde crescemos. Queremos que a fanzine acabe por reflectir tudo isso, o punk hardcore, a cultura do skate e do surf, o pulsar da rua, os anos 1990, ou seja todo esse contexto onde crescemos e que acabou por ser estruturalmente marcante, fazendo-nos chegar até aqui.”

Francisco Vidal, 38 anos, português, filho de mãe cabo-verdiana e pai angolano, residindo entre Portugal e Angola, tendo integrado a representação deste último país na 56º Bienal de Veneza em 2015, tem vindo a explorar vários suportes, incluindo a pintura, o desenho e a instalação, que coloca ao serviço de temáticas como a miscigenação cultural, as correntes transculturais ou as utopias urbanas, com a história a cruzar-se com a política, em obras vibrantes, emotivas e delirantes, para onde concluem o neo-impressionismo, uma expressividade tão livre como tecnicamente precisa, e as cores vigorosas.

Já Pedro Batista, 36 anos, um entusiasta do skate a viver em Lisboa, tem exposto regularmente em individuais e colectivas, com os seus quadros a conviverem na coesão entre os limites do mundo e as linhas que desenham cada personagem retratada, sem um conceito base presente. Por norma os seus quadros prendem-nos, com uma expressão gráfica consistente, devolvendo-nos personagens que parecem provir de um sonho.

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FOTO: Jose Pando Lucas

Quando se entra no espaço expositivo percebe-se com facilidade quem pintou o quê. Têm uma marca autoral perfeitamente definida, apesar de por vezes falarem do seu trabalho de uma maneira que se toca, quase como se fosse algo táctil, uma pulsão física. “Gosto da dimensão manual da pintura, é classe operária”, ri-se Francisco, “é físico e obriga a valorizar a cultura do trabalho e do fazer. Isso é importante. Como é o sentido crítico ou o silêncio da pintura.” “Somos os dois muito intuitivos, parece-me”, acrescenta Pedro, “e isso pressente-se no processo da pintura, onde existe muita acção, reacção ou resposta, não sendo a conceptualização o mais relevante em muitas situações.”

A dimensão territorial e cultural enfatizada pelo título da presente exposição – a estrada marginal que liga Lisboa a Cascais – confronta-os com a percepção que muita gente ainda possuiu dessa localização. “Terra de betos e de gente bem”, é ainda a resposta que obtêm quando nomeiam esse território, ri-se Pedro.  “Mas é um erro”, afirma, “porque aquilo que nós reflectimos é uma estrutura social mista, que junta pessoas privilegiadas com bolsas de menos favorecidos. Junta-se tudo ali. Foi essa a atmosfera que me marcou, essa possibilidade de confluência e de respeito pela diferença. Havia muitas coisas a borbulhar nos anos 1990 por ali. Fomos talvez a primeira geração a receber uma série de influências globais e reinterpretá-las com um espírito do-it-yourself. Isso ficou.”

O que permaneceu, para além desse movimento desalinhado e multidisciplinar onde coabitavam punk e hip-hop, pintura e graffiti, cultura de rua e determinação existencial, foi também um certo espírito adolescente de rebeldias que querem empregar na exposição. “O facto da Underdogs não ser uma galeria convencional agrada-me”, diz Francisco, “porque podemos ocupar o espaço de forma diferente, até porque a pintura precisa disso, de novas formas de ser comunicada e de ser activa socialmente e aqui existe lugar para isso acontecer.”

A energia crua e a força dinâmica que guiaram o caldeirão fervilhante onde os dois mergulharam em determinada altura das suas vidas é o pano de fundo que, de forma subtil, contextualiza a sua obra. Mas depois existe a poética muito pessoalizada de cada um e isso também se sentirá nesta estrada Marginal.

“Gosto muito do trabalho do Francisco”, afirma Pedro, “porque as coisas acontecem de forma despreocupada no início para se irem construindo. Percebe-se essas transformações. É uma pintura muito viva. Adoro as composições, as cores, as colagens, os padrões e repetições. Convoca uma relação emocional e isso encanta-me.” Por sua vez, diz Francisco acerca de Pedro: “ele faz muito retrato, é um artista de atelier, existe uma ligação forte, gosto de o ver pintar, é da escola de Lisboa. É pintor como eu.”