Crítica

Os Stones regressam a um lugar onde foram sempre felizes

O novo álbum. Um manifesto de paixão dos Stones pelo blues, que nunca deixou de ser o guia de tudo o que foram construindo ao longo dos anos.

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Os Stones e os blues na sua forma mais descarnada e áspera

Segundo o senso comum nunca se regressa a um lugar onde se foi feliz. Na música popular, principalmente quando se mencionam grupos de sucesso com longa carreira, esse epíteto popular é muitas vezes posto em causa. Por norma esse tipo de projectos ou acaba por procurar inspiração fora da sua órbita interna — buscando, por exemplo, que produtores vindos de fora possam trazer para o interior do grupo novo alimento sónico — ou tentam retornar às origens míticas. O que faz algum sentido, porque já passou tempo suficiente para poderem voltar a um local que sabem não ser novo, mas que vão abordar como se o fosse, tal a distância transitória convocada. Deverá ter sido esse o efeito que levou os Rolling Stones a retornarem aos blues na sua forma mais descarnada e áspera, como o haviam feito a meio dos anos 1960.

E a opção revela-se acertada. No total são 12 canções originalmente tocadas por nomes como Little Walter, Jimmy Reed, Willie Dixon, Eddie Taylor ou Howlin’ Wolf, que os Stones reinterpretam em estúdio como se fosse ao vivo, sem qualquer tipo de efeitos posteriores. E essa vibração iniciática (o disco foi registado em apenas três dias), ou esse prazer recuperado de estar em grupo, acabam por passar para o lado de cá.

É o primeiro álbum sem originais de Jagger-Richards, mas isso acaba por não ser relevante, quando não se tem álbum novo há dez anos — o último disco de estúdio que editaram foi A Bigger Bang de 2005 — e enquanto, rezam as crónicas, a relação entre os dois membros mais icónicos nunca pareceu ter sido tão serena. De fora, dir-se-ia mais um projecto talhado para Richards, mas parece que Jagger esteve empenhado na tarefa e isso sente-se ouvindo o resultado final — não só do ponto de vista vocal, mas até na forma como a presença da sua harmónica se faz sentir.

O disco foi registado em há um ano em Londres, nos British Grove Studios de Mark Knofler, tendo o quarteto gravado com três dos músicos que os costumam acompanhar ao vivo e um convidado em dois temas, Eric Clapton, que surgiu quase por acaso, já que trabalhava no estúdio do lado. Ao que parece as gravações decorreram de forma tão natural que o grupo nunca se chegou a interrogar se o que sairia dali seria um álbum. E esse descomprometimento talvez tenha sido o segredo de uma obra onde se sente o deleite dos músicos a tocar. Apenas a tocar.

Em Blue and lonesome a batida é arrastada, a guitarra lânguida, com a voz quase padecida de Jagger amenizada pela harmónica, enquanto numa outra balada, All of your love, a voz é mais elástica. I gotta go é uma das mais cadenciadas, com a secção rítmica esquelética, conduzindo o ritmo com o mínimo, enquanto a harmónica deambula pelo espaço, e Little rain começa apenas com voz e guitarra, entrando depois o ritmo marcado e despido de artifícios. O álbum varia entre compassos galopantes, como em Just like i treat you, e variações rítmicas quase dormentes, com as guitarras agudas e a voz em destaque, como em I can’t quit you baby.

Produzido por Don Was e pelo próprio grupo, a abordagem privilegia sempre uma certa pureza, num manifesto de paixão dos Stones pelo blues, que na verdade nunca deixou de ser o guia de tudo o que foram construindo ao longo dos anos. Entretanto o membro mais velho do grupo, Charlie Watts, do alto dos seus 75 anos, já veio afirmar que no próximo ano deverá haver mais concertos e é bem provável que venham a trabalhar no tal álbum de originais. Mas se tal não acontecer haverá sempre os blues.