O “efeito inovação “ levou a ERT do calçado à indústria automóvel

Grupo de São João da Madeira é agora uma multinacional importante na cadeia de fornecimento do sector automóvel que aponta para a mobilidade eléctrica.

Foto
Fernando Merino, responsável pela Investigação, Desenvolvimento e Inovação (ID&I) da ERT. Fernando Veludo/NFactos

Foi há quatro anos que a ERT mudou o layout do seu logotipo e lhe associou o slogan “Innovation Effect”. E foi há menos tempo que isso que adquiriu uma parte das antigas instalações da Oliva Creative Factory, e ali montou um centro de inovação, em que aproveita todo o ecossistema criativo ali instalado. Se não foram estas decisões que justificam o resultado – o espírito inovador vem praticamente desde a fundação da empresa, em 1992 – a verdade é que estes foram importantes sinais que ajudariam a adivinhar este resultado: em 2016, a ERT-Têxtil de Portugal vai receber o prémio PME Inovação (ex-aequo com a i2S), atribuído todos os anos pela COTEC, com o apoio do BPI e do PÚBLICO.

A empresa foi fundada em 1992 para, então com apenas uma máquina e sete funcionários, fazer o que continua a fazer hoje: produzir a metro um têxtil técnico colado a uma espuma que era usado como forro dos sapatos pelas muitas fábricas de calçado que existiam no concelho. Sem renegar essas origens – esse tecido colado a espuma é um verdadeiro blockbuster que ainda hoje se vende, e o grupo ERT até tem hoje uma empresa que faz calçado para private label e tem duas marcas próprias, a Yum Gum e a Ghibi – a verdade é que a ERT é hoje bem mais do que um empresa que produz a metro, corta, cose ou cola produtos flexíveis. E chegou à liderança nacional numa área tão competitiva como o sector automóvel. Hoje é um grupo multinacional, com fábricas em Portugal, na Roménia e na República Checa.

“Consideramos que somos líderes [na produção de têxteis para o sector automóvel] não porque produzimos mais metros de material laminado, mas porque temos mais variedade de tecnologia de colagem, associados a projectos de corte e de costura. Temos tecnologia para tudo isso, há verticalização, dentro da empresa. A partir de 2017 faremos, inclusivamente, injecção de poliuretano”, explica Fernando Merino, responsável pela Investigação, Desenvolvimento e Inovação (ID&I) da ERT.

Como é que se deu o salto do calçado e da área dos utensílios domésticos e desportivos (as tábuas de passar a ferro passaram por ali; as cadeirinhas de bebé para bicicletas continuam a passar), para chegar ao sector automóvel? “Foi uma questão de contexto", admite Merino, e um resultado da aposta que as políticas públicas portuguesas fizeram nesse sector em particular. “O presidente da empresa foi atrás da oportunidade. Ele tinha uma empresa que colava têxteis com espumas. E a mesma máquina que colava e cortava para calçado, ou tábuas de passar a ferro, serve para fazer revestimentos das portas”, relata Merino, lembrando que a proximidade, mesmo geográfica, a empresas como a Faurecia, multinacional francesa com seis fábricas em Portugal e que foi a primeira a abrir-lhe as portas nesta área.

Hoje em dia 85% da facturação da ERT é feita no sector automóvel, onde trabalha com praticamente todo o tipo de produtos flexíveis (malhas, tecidos, couros, imitações de couros, PVC). E a vizinhança e a proximidade geográfica são coisas relativamente importantes, como demonstram as parcerias que a ERT soube desenvolver nos últimos anos com universidades e empresas e empreendedores de várias áreas de actividade, e criatividade, para chegar às soluções mais inovadoras. Pode ser uma peça de joalharia que ao ouro e zircónio juntou vidro e um fragmento de tecido. Pode ser uma solução de revestimentos de parede que junta características térmicas e acústicas a têxteis recuperados (como pasta de têxteis triturados, por exemplo) para oferecer uma inovadora forma de decoração – chamaram-lhes, na ERT, “colisões criativas”, que não deixam de ter grande potencial de mercado.

Os projectos de ID&I têm sido uma constante nos últimos quatro anos, e o recurso a financiamento comunitário também. Desde 2012, e no âmbito do QREN e do Portugal 2020, a ERT já viu aprovados seis projectos de investimento que totalizam três milhões de euros – dos quais já conclui quatro. E tem esperança de, em Janeiro, ver aprovado pelo Compete as candidaturas que lhe permitirão fazer investimentos na ordem de mais um milhão de euros. São projectos que já lhe permitiram, por exemplo, em conjunto com a Universidade do Minho, fazer o desenvolvimento de têxteis com capacidade de aquecimento.

B.I. da empresa:

Nome: ERT- Têxtil de Portugal

Fundação: 1992

Sede: São João da Madeira

Actividade: Produção de têxteis técnicos para aplicação em vários produtos na área do consumo e da mobilidade, com primazia no sector automóvel.

Facturação: 36 milhões de euros

Capital Social: 2.502.000 euros

Presença em mercados externos: Espanha, França, Polónia, Angola, Moçambique e Cabo Verde

Número de trabalhadores: 245

Accionistas: João Brandão e família