Opinião

O dia da cultura científica

As medidas de Mariano Gago menos conhecidas do grande público, visando a abertura do sistema científico a partir de dentro, foram decisivas para mudar a atitude dos cientistas e dos centros de investigação.

Hoje, dia 24 de novembro, comemora-se o dia da cultura científica, instituído, em 1996, por José Mariano Gago, em homenagem a António Gedeão, poeta e divulgador de ciência. Esta decisão de natureza simbólica muito importante resume, de certa forma, o pensamento de um político que nunca deixou de ser cientista e humanista.

Porém, a sua ação neste domínio foi muito mais que simbólica. Há 20 anos, José Mariano Gago instituiu também a Semana de Ciência e Tecnologia, que se realiza anualmente em novembro por volta do dia 24 (este ano decorre entre 21 e 27). Na Semana de Ciência e Tecnologia todos os centros de investigação, de todas as áreas científicas, são desafiados a abrirem as suas portas ao público, sobretudo aos jovens, criando oportunidades para que estes possam experimentar fazer ciência e acompanhar as várias fases da produção de conhecimento.

Por exemplo, todos os anos, o Centro de Investigação e Estudos de Sociologia – CIES-IUL, de que sou membro, recebe dezenas de jovens estudantes do ensino secundário que, durante uma semana, acompanham os investigadores no seu trabalho, experimentam métodos e técnicas de observação social, contactam com alguns dos problemas e questões para os quais os cientistas sociais procuram respostas. O mesmo acontece um pouco por todo o país, nos centros de biologia, de ciências da saúde, de física e química, e em muitas outras áreas disciplinares.

Outra das suas medidas, de natureza regulamentar, instituiu a obrigação de todos os centros de investigação dedicarem uma percentagem dos seus orçamentos a atividades de difusão do conhecimento científico e de comunicação de ciência. Hoje, a maioria dos centros de investigação assumiu essa responsabilidade e alguns, sobretudo os grandes laboratórios, têm nos seus quadros investigadores que se dedicam em exclusividade às atividades de comunicação e divulgação das suas atividades e dos resultados dos seus projetos.

Neste domínio, a iniciativa de José Mariano Gago mais emblemática, e mais conhecida do grande público, foi a criação do Pavilhão do Conhecimento e de uma rede de centros Ciência Viva espalhados pelo país, envolvendo as autarquias e as instituições cientificas locais, tornando o conhecimento mais próximo das pessoas. Porém, as medidas menos conhecidas do grande público, visando a abertura do sistema científico a partir de dentro, foram decisivas para mudar a atitude dos cientistas e dos centros de investigação.

A sua preocupação com a difusão da cultura científica baseava-se na convicção de que a ciência floresce melhor nas sociedades mais qualificadas do que naquelas em que predomina a ignorância. Sociedades mais qualificadas permitem estreitar os laços de confiança com os cidadãos e permitem atrair mais jovens para a ciência. O conhecimento científico é a via para compreender o porquê das coisas, essencial a uma plena cidadania, mas essencial também ao alargamento da base social de apoio às políticas científicas. O sistema científico não se desenvolve se se mantiver isolado, fechado sobre si mesmo, constituído apenas por um reduzido número de eleitos escolhidos numa lógica de grande seletividade. E a ciência não floresce se o conhecimento científico se mantiver inacessível e incompreensível para a maioria dos cidadãos.

Quebrar barreiras de acesso ao conhecimento científico e contrariar o isolamento da ciência são responsabilidades dos investigadores e das instituições científicas que exigem iniciativas com três objetivos: (1) contribuir para qualificar as pessoas, para a educação científica e para a difusão da cultura científica; (2) comunicar e divulgar os resultados da sua atividade a um público alargado; (3) promover e participar em debates públicos, argumentando e convencendo os vários poderes, designadamente o poder político, sobre a importância da ciência para a construção de um país mais moderno e democrático.

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