Aves: Turnos parentais não dependem da fome ou do frio mas do perigo

Observados 729 ninhos de 32 espécies de aves limícolas na época de reprodução, a conclusão é que é o risco de predação que determina quem e durante quanto tempo toma conta das crias. O cientista português José Alves foi um dos que vigiaram estas aves na região do Árctico e sub-Árctico.

A tarambola-dourada-americana sentada no ninho, no Alasca
A tarambola-dourada-americana sentada no ninho, no Alasca Joël Bêty
O abibe-comum sentado sobre os seus ovos, na República Checa
O abibe-comum sentado sobre os seus ovos, na República Checa Martin Bulla
Crias do maçarico-de-bico-direito, ou milherango
Crias do maçarico-de-bico-direito, ou milherango Verónica Mendez
Raposa do Árctico, um dos predadores de aves limícolas
Raposa do Árctico, um dos predadores de aves limícolas Verónica Mendez
O biólogo José Alves, que desde há dez anos passa três meses na Islândia a observar aves
O biólogo José Alves, que desde há dez anos passa três meses na Islândia a observar aves Verónica Mendez
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O recorde absoluto foi de 50 horas seguidas a proteger o ninho, sentado em cima dos ovos, sem comer ou beber, e pertence ao maçarico-de-bico-comprido (Limnodromus scolopaceus), uma das 32 espécies observadas num estudo que vigiou os ritmos e as rotinas diárias de aves limícolas. É o exemplo limite da inesperada diversidade encontrada nos turnos parentais destas aves que vivem em zonas húmidas costeiras, segundo o artigo científico publicado esta quarta-feira na revista da Nature. Qualquer semelhança com os humanos é pura coincidência.

Quem e durante quanto tempo toma conta das crias? Ao contrário dos casais da espécie humana, as aves limícolas não parecem ter grandes dificuldades em organizar as suas rotinas diárias no período de incubação e a alternância entre macho e fêmea nos cuidados parentais é comum às 32 espécies estudadas por um grupo de 76 investigadores. Porém, contrariando as expectativas dos cientistas, não é a fome, o ritmo circadiano (determinado pela luz do dia e escuro da noite) ou a latitude do local onde o ninho é feito que ditam os horários dos turnos dos progenitores na guarda das crias. Afinal, o mais importante será a estratégia usada para se defender dos predadores.

José Alves, do Centro de Estudos do Ambiente e Mar e do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, foi um dos cientistas que participaram no estudo coordenado pelo Instituto de Ornitologia Max Planck, na Alemanha, que incluiu 20 anos de recolha de dados em várias partes do mundo. Há dez anos que José Alves passa cerca de três meses na Islândia a observar estas aves migradoras que se deslocam para o Árctico e sub-Árctico na época de reprodução e os últimos três anos foram dedicados a este projecto internacional.

Segundo explicou ao PÚBLICO, a vigia destas aves que fazem os seus ninhos no chão (mais ou menos camuflados, dependendo das espécies) implica muitas horas de observação directa, mas faz-se também com recurso a alguns equipamentos simples: uma anilha na pata de uma das aves com um dispositivo (um “chip”, com menos de um grama e três milímetros) e que “é semelhante ao alarme que as peças de roupa têm nas lojas”, um aro em volta do ninho que funciona como uma antena que regista as entradas e saídas da ave, e ainda uma pequena sonda que mede a temperatura no ninho.

José Alves passou os meses de Verão na Islândia, mas este projecto envolveu a colaboração de muitos outros investigadores dispersos pelo mundo, desde o Alasca, à Rússia, Gronelândia, Europa e mesmo América do Sul.

O estudo publicado na Nature revela que a duração dos turnos de incubação varia entre espécies e também dentro da mesma espécie e pode ir desde uma hora a 18 horas de vigia contínua. Confrontados com uma inesperada diversidade (que não coincide com a maior regularidade dos turnos que estas aves mostram quando são observadas em cativeiro), os cientistas apenas conseguiram associar os ritmos diários à forma como as aves protegem o seu ninho de potenciais predadores.

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O ostraceiro não esconde o seu ninho Verónica Mendez

“As espécies que não escondem os seus ninhos [por exemplo, o ostraceiro, Haematopus ostralegus, ou o borrelho-grande-de-coleira, Charadrius hiaticula] têm turnos de incubação mais curtos. E as que os escondem [por exemplo, o maçarico-galego, Numenius phaeopus, ou o maçarico-de-bico-direito, Limosa limosa], camuflando-os cuidadosamente na paisagem, têm turnos mais longos”, explica José Alves. Porquê?

“De cada vez que há uma troca entre os parceiros, há actividade na proximidade do ninho e os predadores podem descobrir onde estão os ovos”, diz o biólogo, acrescentando que, nas espécies que preferem esconder os seus ovos, o casal opta por turnos mais longos para não denunciar a localização do ninho aos predadores. “Para as aves que não escondem os ninhos não há nenhuma vantagem em manter-se sentado nos ovos, porque está a indicar onde eles estão. Nestes casos, a estratégia é ter um parceiro sentado e o outro e a observar possíveis predadores e, assim, fazer trocas constantes”, conta.

Esta partilha de responsabilidades parentais durante o período de incubação prolonga-se em média por cerca de 20 dias nas espécies mais pequenas até próximo dos 30 dias nas espécies maiores. Em média, os casais têm quatro ovos para proteger. E, apesar dos esforços, “muitos acabam por ser atacados pelos predadores”, admite o investigador.

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Maçarico-galego faz um voo de seis mil quilómetros sem parar Tómas Gunnarsson

O incrível maçarico-galego

Das 32 espécies estudadas, cerca de uma dezena passa ou fica por Portugal no período de Inverno mas nenhuma se reproduz por cá. O maçarico-de-bico-direito, por exemplo, passa o Inverno em Portugal e no Verão vai até à Islândia.

“Pensava-se que estes padrões de incubação seriam semelhantes aos das aves em cativeiro e, por isso, menos diversificados, e que teriam uma base genética. Mas, afinal, há uma variação imensa”, resume José Alves. “Tínhamos também a hipótese da influência das reservas energéticas, que acabámos por ter de afastar. Não é a fome que determina os turnos. O factor da latitude também não é determinante. É o risco de predação é que determina estes padrões.”

A investigação mostra ainda que “as relações sociais podem ser uma força determinante em certos comportamentos, sobrepondo-se aos ritmos circadianos”, diz um resumo da Nature sobre o trabalho. Mas, mais do que isso, acrescenta José Alves: “Este trabalho também serve simplesmente para observar a espectacular biodiversidade. Isto é importante pelo espectáculo do conhecimento e da biodiversidade, é conhecimento fundamental.”

O investigador está nesta altura a fazer as malas para partir para mais uma aventura no rasto destas aves. Desta vez, José Alves viaja até ao arquipélago dos Bijagós, na Guiné-Bissau, para, entre outras coisas, observar uma ave que parece ter capacidades extraordinárias: “Vou observar o maçarico-galego que, segundo já percebemos em observações anteriores, é capaz de fazer um voo de seis mil quilómetros, sem qualquer paragem, entre a Islândia e este arquipélago e depois fazer a mesma coisa no caminho inverso.”

É uma surpreendente prova de resistência que dura quatro dias inteiros, conta José Alves com entusiasmo, e que é executada sem que a ave (que não é capaz de planar) se alimente ou hidrate ao longo do voo. “São processos que ainda não compreendemos, são coisas que desafiam o nosso entendimento. Não são sequer comparáveis com humanos que correm maratonas ou ultramaratonas.” Um próximo artigo na Nature trará mais pormenores sobre este voo único e recordista, promete José Alves. O plano é tentar perceber como é que o maçarico-galego se prepara para fazer a viagem de regresso à Islândia, que acontece entre fim de Março e início de Abril. O espectáculo da biodiversidade vai continuar.