Obesidade infantil e diabetes revelam “falta de aposta na prevenção”

Relatório da OCDE diz que crianças portuguesas estão entre as que comem menos legumes. Especialistas avisam que o país está a falhar na prevenção das doenças, como é o caso da diabetes.

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Apesar de comerem fruta, as crianças continuam também a comer alimentos calóricos e com demasiado açúcar Nelson Garrido

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) trata “muito bem” os doentes e tem trazido a Portugal “ganhos brutais” com os tratamentos. A convicção é partilhada pelo director do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável e pela bastonária da Ordem dos Nutricionistas. Por isso, tanto Pedro Graça como Alexandra Bento defendem que na área da saúde o problema é outro: o país não aposta o suficiente na prevenção e isso traduz-se em dados preocupantes, como o elevado número de diabéticos e os valores da obesidade nas crianças, destacados no relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) publicado nesta quarta-feira.

De acordo com o Health at a Glance: Europe 2016, apresentado em Bruxelas pelo secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, e pelo comissário europeu da Saúde e Segurança Alimentar, Vytenis Andriukaitis, há alguns paradoxos. Portugal tem 9,3% de pessoas com diabetes, o terceiro valor mais elevado registado entre os Estados-membros, que têm uma média de 7%. Ao mesmo tempo, é dos países que tem os diabéticos mais controlados, evitando internamentos. Para Pedro Graça isto é reflexo da falta de aposta na “prevenção da doença e promoção da saúde”.

Os peritos da OCDE mostram-se também preocupados com as crianças portuguesas. Surgem na 10.ª posição entre aquelas que comem mais fruta nos 28 Estados-membros da União Europeia. Porém, os vegetais são um calcanhar de Aquiles, a atirar os meninos portugueses para o 26.º lugar e a falta de consistência na alimentação reflecte-se na obesidade. Nos adultos, as tendências são semelhantes, mas com os hortícolas a serem, apesar de tudo, uma presença mais frequente nos pratos.

Meninas com mais peso do que os meninos

Os problemas nos hábitos alimentares, associados ao pouco exercício físico acabam por ter expressão numa equação difícil de resolver. “Mais de uma em cada quatro crianças tem excesso de peso na Áustria, Hungria e Portugal e mais de uma em cada três na Grécia e Itália”, alerta o documento. Em média, 23% dos rapazes dos 28 Estados-membros têm excesso de peso. No caso das raparigas o valor é de 21%.

Portugal é o terceiro país com piores resultados na obesidade infantil e com uma tendência que contraria os restantes países: por cá, as meninas têm mais peso do que os meninos. O valor da obesidade nas raparigas ultrapassa os 30%, enquanto o dos rapazes fica pelos 25%. Já no relatório do ano passado a OCDE alertava para o número crescente de crianças obesas em Portugal, lembrando que se nada fizermos estas crianças vão crescer e tornar-se adultos obesos.

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“Temos tido ganhos de saúde brutais. O que falta é uma aposta séria na prevenção da doença. O SNS faz uma aposta fortíssima no tratamento e estamos a viver muitos mais anos mas sem saúde”, alerta Alexandra Bento, que defende que o foco tem de continuar a ser na aposta na literacia em saúde “para que se façam melhores escolhas alimentares”. A bastonária dos nutricionistas considera que é preciso ir mais longe na proibição dos produtos com muito açúcar e sal nos serviços públicos com estabelecimentos que servem refeições e que têm maquinas automáticas.

Pedro Graça partilha da preocupação e avança com dados complementares que tornam o problema ainda mais complexo. Regra geral, “a obesidade tem uma relação directa com o gradiente social”. Quer isto dizer que os casos de obesidade e de excesso de peso estão a surgir mais em crianças com agregados familiares de baixos rendimentos e baixa escolaridade. “Em muitos casos, bastaria investir seriamente na redução do sal, do açúcar e aumentar a actividade física para se conseguirem ganhos espectaculares nesta área”, acrescenta.

O responsável da Direcção-Geral da Saúde acredita que o país está a fazer um bom trabalho no incentivo ao consumo de alimentos como a fruta, pelo que a falha está em colocar travão aos produtos nocivos. “Creio que em paralelo com o consumo de alimentos protectores estamos a consumir, também, alimentos muito calóricos mas baratos”, diz Pedro Graça. Criando uma imagem: é comum encontrar uma criança com uma maçã numa mão e um refrigerante na outra. Há também um problema de desproporção entre a “ingestão energética e o gasto”.

Pouco exercício físico

A OCDE defende precisamente que os problemas de obesidade são também reflexo de um outra área que tem estado a falhar: o exercício físico. No caso dos menores entre os 11 e os 15 anos, em todos os países europeus, houve uma quebra na prática de exercício. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que nestas faixas etárias haja pelo menos 60 minutos diários de “actividade física moderada a vigorosa” – o que nenhum país está sequer perto de cumprir.

Mesmo assim, os melhores dados surgem na Finlândia, onde 34% das crianças com 11 anos fazem exercício pelo menos uma hora por dia. Aos 15 anos, o valor nas meninas cai para 13%. No caso dos rapazes, aos 11 anos, o valor é de 47%, caindo depois para 22%. Já Portugal aparece apenas no 18.º lugar. Aos 11 anos só 16% das raparigas cumprem as recomendações da OMS e aos 15 anos o valor desce para 5%. Nos rapazes as coisas estão melhores, com um valor de 26% aos 11 anos e de 18% aos 15 anos.

Como se muda este retrato? Alexandra Bento admite que há sempre um “grande hiato entre o conhecimento e os comportamentos”. Pedro Graça diz que é preciso repensar toda a comunicação para não continuarmos a chegar sempre às mesmas pessoas. E dá um exemplo: se numa reunião de pais a professora sensibilizar os encarregados de educação para a necessidade de terem mais atenção à alimentação dos filhos, no final do encontro a mensagem é retida, fundamentalmente, “pelas famílias com mais habilitações literárias”. “Temos de chamar as empresas e toda a sociedade para que seja fácil comer saudável e barato. As pessoas têm pouco tempo e por isso temos de ajudar a que a mudança se faça com pouco esforço”.