Entrevista

"Os bancos não se podem limitar a ver os balanços das empresas sem verem a sua realidade"

O director-geral da Cotec diz que a banca tem de reaproximar-se das empresas para que o financiamento aos projectos de investimento não tolha o crescimento. Mas Jorge Portugal avisa que as empresas têm de fazer a sua parte: consolidar-se, cooperar e preparar melhor a expansão internacional.

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A burocracia continua a ser uma das "grandes barreiras" no dia-a-dia das empresas PÚBLICO

Acreditando que já houve uma inversão do ciclo económico, vamos ter cada vez mais investimento em inovação nas empresas portuguesas?
Se for à região de Vila Nova de Famalicão, uma grande região exportadora, a maior do país se se excluir a Autoeuropa, ou a de Paços de Ferreira, Paredes ou São João da Madeira, tem empresas que estão permanentemente a investir. Os dois grandes desafios são termos mais empresas a atingir uma dimensão relevante, e que aquelas que estão no mercado possam continuar a crescer pela inovação, para serem mais eficientes e poderem cobrar prémios de preço, abarcando novos mercados, seja geográficos ou de produto.

O que é preciso para dar o salto?
Os nossos empresários são bons a produzir produtos que o mercado valoriza e a identificar nichos ou a melhorar a produção. A grande dificuldade é criarem organizações capazes de crescer. Quando tenho uma empresa que factura dez milhões, a minha organização é suficiente; o meu controlo de encomendas, a logística, a equipa, etc. Mas quando passo daí para os 50 milhões, ou tenho uma organização que cresce de forma eficiente, ou então os custos crescem tão depressa ou mais que as receitas. Isso é a morte do artista. Tencionamos apresentar para o ano um estudo sobre as práticas organizativas e o crescimento empresarial e uma das contas preliminares que esperamos confirmar é que o impacto no crescimento e no emprego de umas quantas mais PME - uma pequena parte, imaginemos 5% - que pudesse ultrapassar a chamada barreira dos 50 milhões, seria absolutamente desproporcional. Segundo as nossas contas essa minoria vital poderia ser a diferença entre a economia crescer a 1,5% ou 1,6% e a crescer a 3%.

Alguma vez vai acontecer?
É preciso pelo menos uma, de duas coisas. Ou mais colaboração, ou seja, as empresas a partilharem mais informação, estratégias, risco e esforço de investimento e abordagem aos mercados, como já fazem alguns sectores que vão junto a acções promocionais, como o calçado. Mas é preciso mais, por exemplo, na área das compras, do aprovisionamento, do ID, no esforço de marketing. Outra é a consolidação das empresas. Em sectores em que há muita fragmentação, estas têm de se juntar para dar uma empresa que facture o dobro, com uma estrutura de custos mais eficiente. Depois, obviamente, as empresas têm de se capitalizar mais. Ou consolidam-se e conseguem maior massa crítica ou vão buscar capitais fora e abrem o capital a investidores privados ou são os próprios donos a recapitalizá-las.

E o financiamento?
A banca tem realmente que regenerar-se para cumprir o seu papel estratégico que é conceder crédito para investimento à economia real, para projectos produtivos. Há aqui uma necessidade que só pode ser ultrapassada se houver um esforço da banca de ter novamente proximidade às empresas, de conhecer o empresário, de conhecer o projecto e conhecer a actividade. Os bancos não se podem limitar a ver os balanços das empresas sem verem a sua realidade.

Como viu as medidas de capitalização de empresas anunciadas pelo Governo?
Há claramente um conjunto de medidas que revogam algumas fragilidades que desincentivavam a capitalização. Tradicionalmente, o tratamento dos capitais alheios e capitais próprios era desigual: o crédito era tratado como um custo e podia ser levado a resultados e os capitais próprios não. O plano que foi apresentado equipara as duas situações e obviamente incentiva à capitalização. Outras medidas são de simplificação e facilitação da consolidação entre empresas, o que são boas notícias. Mas é preciso passar das boas intenções à prática e fazer com que as medidas não fiquem no papel.

O que é que dificulta o dia-a-dia das empresas?
A burocracia e os deveres de prestação de informação às entidades como o fisco e a segurança social são pesadíssimos e iguais para todas, independentemente da dimensão. Uma empresa grande não gosta, mas pode acomodar burocracia, uma pequena empresa fica esmagada por ela. Um Estado deve ter regras de relacionamento claras, mas não precisamos da burocracia que serve só para justificar a existência de certos organismos públicos. Esse custo de funcionar em Portugal é talvez uma das grandes barreiras de competitividade das empresas.

Onde é que tem havido mais inovação? Ao nível dos processos, dos produtos?
Acima de tudo, vemos profundas transformações de empresas que operavam com um modelo de negócio e agora têm outro radicalmente diferente. É o caso de uma pequena empresa têxtil que passa de fornecer peças avulsas para operar três modelos de negócio diferentes: que consegue entregar em sete semanas uma colecção completa de básicos de desporto, ao mesmo tempo que opera um modelo de full service para uma grande marca internacional e, numa terceira vertente, oferece produtos técnicos de alto valor acrescentado. Estamos a ver em todos os sectores empresas que se especializam e encontram nichos de mercado onde se conseguem diferenciar e com isso alteram todo o modelo de negócio.

Quais são os pecados capitais que as empresas cometem?
O que já fazem muito bem é produção a nível de qualidade, embora possam melhorar a nível de produtividade. Mas diria que o grande desafio é preparar a expansão internacional. As empresas fazem uma expansão oportunística. Não se preparam bem e muitas vezes esquecem mercados óbvios, que são mais exigentes e mais maduros, mas onde as regras são mais conhecidas e onde era mais fácil entrar. As que conseguem progredir mais rapidamente são aquelas que escolhem criteriosamente os mercados e quando entram já conhecem bem as redes de distribuição e sabem perfeitamente que vão conseguir colocar o seu produto e valorizá-lo.