História de um pequeno monstro

No centro, um pequeno futuro líder, exemplo de um olhar vazio que pode ser a expressão de um Mal absoluto, a crescer e a solidificar. Estreia na realização do actor americano Brady Corbet, assumidamente inspirado por uma certa ideia de cinema europeu: A Infância de um Líder.

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Só pelo nome, Brady Corbet talvez não desperte nenhuma lembrança especial. Mas qualquer espectador atento ao cinema americano dito independente da última década já se terá, em princípio, cruzado com ele. Muito jovem, e enquanto adolescente, vimo-lo como o garoto protagonista de Mysterious Skin, de Gregg Araki, e um par de anos mais tarde como um dos "hooligans" do remake americano que Michael Haneke fez do seu Funny Games. Um pouco mais velho, também o vimos, com papel destacado, no Martha Marcy May Marlene de Sean Durkin, e nos últimos anos, aproximando-se do cinema europeu, em pequenos papéis em filmes de Olivier Assayas, Bertrand Bonello ou Mia Hansen-Love. Com A Infância de um Líder passa para o outro lado das câmaras, e é uma estreia a que não falta ambição: um retrato, abstracto mas fundado em figuras e acontecimentos reconhecíveis, da "formação" de um ditador na Europa dos anos 30. Não, é contudo, uma questão essencialmente política, e a ideologia é apenas levemente aflorada. O que interessa a Corbet é a psicologia, interrogar o que é que faz com que uma criança cresça dotada dos atributos psicológicos de um autocrata ditatorial. É por isso que "A Infância de um Líder" lembra mais um filme de terror do que uma ficção política, e está mais próximo de uma daquelas fantasias com monstros infantis (como o início do "Halloween" de Carpenter, por exemplo, quando a câmara revela Michael Myers em criança) do que propriamente um estudo histórico fundamentado. É o limite de um filme que à força de ser alusivo se torna apenas vago, e que pela insistência no inexplicado acaba por ficar apenas com sugestões explicativas demasiado simples, como os traços de carácter inatos e a "excepcionalidade" monstruosa.

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Vincent Kessler / Reuters

"Mussolini, em criança, gostava de apedrejar os padres que saiam da igreja", conta-nos Corbet, e isso é a base de uma das cenas do filme, quando o jovem Prescott (assim se chama o "líder") faz o mesmo. A conversa com Corbet decorreu em Janeiro, o filme foi estreado em 2015, não havia Trump nem na cabeça do entrevistador nem na do realizador — o que talvez fosse diferente se a conversa acontecesse agora, até porque há uma cena, quando Prescott "agarra" a tutora (Stacy Martin) pela mama, que muito lembra o já famigerado "grab'em by the pussy". Deixemos as coincidências entregues às coincidências, até porque Corbet, conta ele, vivia com a ideia de um filme sobre o período "interbellum" na Europa desde o fim da adolescência ("devia ter uns 16 ou 17 anos"), quando leu um livro (de Margaret McMillan) sobre as negociações para o Tratado de Versalhes. Mais tarde descobriu um conto de Jean-Paul Sartre que lhe deu a pista narrativa que mais fortemente seguiria para a escrita do argumento (deu-lhe também o título: o conto de Sartre chama-se L'Enfance d'un Chef). Apesar dos pozinhos reconhecivelmente históricos, como o citado fait divers da infância de Mussolini, ou as fardas castanhas com braçadeiras vermelhas da sequência final, Corbet não queria ficar colado à História. Não queria fazer "o enésimo filme sobre Hitler ou Mussolini", queria construir "uma alegoria", ou "uma leitura poética da História". E que as personagens fossem "suficientemente vazias" para que o espectador "projectasse nelas" os seus próprios "fantasmas históricos".

O centro — mesmo quando está ausente, e em muitas cenas está — é o pequeno futuro lider, e esse é o exemplo perfeito de uma "personagem vazia", e de um olhar vazio que pode ser a expressão de um Mal absoluto, a crescer e a solidificar. Tom Sweet (é o nome do actor) foi um achado e é realmente impressionante, tanto mais que o filme lhe pede coisas que normalmente não se pedem a actores-crianças: "os pais dele são artistas, portanto perceberam bem o que estava em causa, e aceitaram facilmente, mediante um conjunto de regras, um número fixo de horas de trabalho por dia, etc; mas o princípio foi sempre tratá-lo como os actores adultos, deixá-lo ter uma voz".

Sendo semi-europeu, relatando ambientes e histórias europeias, A Infância de um Líder também denota, estilisticamente, uma influência europeia. Corbet refere a descoberta do "cinema da transcendência" (como na célebre designação de Paul Schrader) como um momento decisivo da sua vida — menciona Dreyer, menciona Bresson, menciona a sensação de "libertação da câmara" que encontra no cinema europeu mais do que no americano. Melhor será pensar que isso estava na cabeça de Corbet mais como elemento para a pintura de ambientes do que enquanto motivo estilístico (porque obviamente o filme nada tem de bressoniano ou dreyeriano, e o que nele há-de singular vem do facto de parecer um objecto de copismo compósito, um pastiche genérico, que se torna curioso por isso mesmo). Na cabeça do espectador, fica, isso sim, a espantosa partitura de Scott Walker: "Parecia impossível, mas ele aceitou logo; o problema é que passaram anos desde que ele disse 'sim' e o momento em que o filme se pôde de facto fazer, mas foi fiel à palavra dada — se não pudesse ter a música dele a melhor opção era não ter música nenhuma". A partitura de Walker faz meio filme, não se leva a mal que Corbet se "encoste" a ela em várias sequências, nem que muito do élan de A Infância de um Líder venha da música: há naquelas cadências repetitivas e galvanizantes um simulacro perfeito (e por isso, assustador) do poder hipnótico, subliminar dos arsenais simbólicos e coreográficos dos totalitarismos mais célebres. É possivelmente a coisa mais notável de A Infância de um Lider — tornar a composição musical para cinema "great again".