Flávio Miranda
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Flávio Miranda

Flávio e Raquel foram à China para denunciar a exploração de ursos

Casal português foi conhecer o santuário dos ursos-negros-asiáticos. Na China, é extraída bílis aos animais, de forma cruel e dolorosa, para o fabrico de medicamentos

Há décadas que os ursos-negros-asiáticos são vítimas da indústria de extracção de bílis na Ásia. Sabes o que isto significa? Os animais são mantidos em pequenas jaulas, durante toda a sua vida, e diariamente é-lhes retirada bílis, de forma cruel e dolorosa, para a produção de medicamentos. Esta actividade suscitou a curiosidade dos portugueses Flávio Miranda e Raquel Marques que decidiram viajar para China e contar a história da fundação Animals Asia (AAF), responsável por resgatar e cuidar destes ursos.

O fotógrafo Flávio conheceu a fundação através de um programa de televisão e assustou-se ao perceber que “práticas como estas ainda são realizadas nos dias de hoje”, contou ao P3. A partir desse momento, iniciou uma série de pesquisas para entender o trabalho desenvolvido pela Animals Asia.

A identificação foi quase imediata — e Flávio quis relatar esta realidade aos europeus. Com 33 anos, os seus trabalhos focavam-se sobretudo em fotografias de pessoas e peças de teatro, mas a vontade de “fazer artigos sobre animais e a natureza em cidades distantes” foi maior. “Achei que esta era a melhor escolha para o meu primeiro trabalho do género”, reflectiu Flávio. “Em Portugal vê-se muito trabalho de animais mas sempre na roda do mesmo. Nunca saímos do nosso cantinho, nunca saímos da nossa Europa.”

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O percurso até ao Santuário — administrado pela Fundação, na província de Sichuan, na China — demorou cerca de 25 horas de avião e umas tantas de carro e foi realizado em Setembro de 2015. Foi Flávio quem tratou de todos os contactos com a instituição e embaixada, bem como dos transportes até ao local. “Foi complicado chegar ao destino porque nós fomos para o interior da China, para uma cidade que não tem turismo.”

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Os 40 graus, o clima húmido e as condições físicas dos ursos não facilitaram o trabalho do casal. “Foi um choque, um bocado desmotivador”, afirma Flávio. “Nunca tinha feito nada do género e de repente apanhei-me a fotografar ursos com condições muito más.” Flávio e Raquel deram de caras inclusive com um animal que esteve quase 30 anos preso num sítio exíguo: “Já não tinha patas e a cara estava deformada”, recorda.

Os ursos salvos pela fundação não podem ser devolvidos à vida selvagem uma vez que estão demasiado traumatizados e debilitados fisicamente. “Os problemas de saúde são muitos: cancro na vesícula biliar (causa de morte de cerca de 1/3 dos ursos resgatados pela AAF), crescimento atrofiado, movimentos limitados, almofadas das patas rachadas (provocado pelo contacto constante com as grades), desidratação, subnutrição, artrites, garras encravadas (por não serem cortadas nem gastas pelo uso diário), cegueira e dentes desgastados (por roerem as grades)”, descreve Raquel no artigo “Até que a crueldade acabe”, que escreveu depois da viagem.

Dessa forma, os santuários são a sua nova casa, onde podem viver em liberdade e sob os devidos cuidados. Para Flávio, conhecer estes animais fê-lo perceber o quanto sofreram e como era preciso “dar a conhecer a realidade para poder ajudar”. Acredita-se que existam mais de dez mil ursos em quintas na China e 1200 no Vietname, onde a extracção foi proibida em 2005. 

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