Análise

O terceiro homem ou a “burguesia silenciosa”

François Fillon foi discreto, colocou-se ao meio e venceu com uma margem totalmente inesperada.

1. Primeira constatação: mais vale seguir a intuição do que as previsões das sondagens. Percebe-se a dificuldade, em primárias abertas da direita francesa que se realizam pela primeira vez. A afluência às urnas foi maior do que se previa. Mesmo assim, o erro foi demasiado grande. François Fillon, que ninguém via sequer na segunda volta, venceu folgadamente a primeira, muito à frente de Alain Juppé, o preferido das sondagens, e de Nicolas Sarkozy, sempre capaz de mobilizar a militância com o seu radicalismo. O anterior Presidente sofreu uma profunda humilhação às mãos do seu primeiro-ministro, a quem chamou na campanha de “Mister Nobody” e “pauvre type”. Radicalizou o discurso ao ponto de se confundir com a Frente Nacional numa altura em Marine Le Pen já conseguiu ser aceite como parte do sistema. Comparou-se com Trump na sua luta contra as elites. Saiu de cena. Juppé vinha de um passado já longínquo sem a polarização política que hoje se vive em França e na Europa. Colocava-se ao centro e promovia o “rassemblement”. A sua tradicional arrogância, assente numa mente brilhante mas inflexível, pode ter dado uma ajuda. François Fillon foi discreto, deixou que os dois principais antagonistas se confrontassem, colocou-se ao meio e venceu com uma margem totalmente inesperada. Dificilmente perderá a segunda volta contra Juppé no próximo domingo.

2. Os analistas esqueceram-se, porventura, de que há uma França profunda, burguesa, conservadora, católica, que vive no conforto das cidades médias e que ainda hoje odeia a herança de Maio de 68. A emergência da extrema-direita, apoiada nos deserdados da globalização, concentrou todas as atenções, deixando de fora essa burguesia “silenciosa” que viu os seus valores esquecidos durante muito tempo. Fillon é o seu melhor representante. Católico, foi o único candidato que tomou posição contra as leis que legalizam os casamentos gay (ainda que apenas a possibilidade de adopção) e que é contra a procriação medicamente assistida, a não ser para casais heterossexuais. Sem um discurso radical contra os imigrantes, Fillon defende a proibição do burkini, que alimentou a raiva contra os muçulmanos, depois do ataque terrorista de Nice. É, ele próprio, um exemplo dessa burguesia de província, com o seu castelo perto de Le Mans, onde vive com a sua mulher galesa e os seus cinco filhos. É aqui que se diferencia de Juppé, muito mais do que na sua política económica e social, em que ambos têm uma agenda de reformas “hiperliberal” (como acusam os socialistas) ou “delirante” (como acusa Marine), que vai do horário de trabalho à facilidade do despedimento, passando pela redução de impostos para as empresas e para as famílias da classe média e a redução drástica do peso do Estado. As diferenças são de quantidade e Fillon leva a melhor com o programa mais radical. Não é por acaso que lhe chamam de “Thatcher boy”. Ele próprio não enjeita o rótulo nem parece incomodar-se com ele. Limita-se a dizer que é apenas pragmático. Já em 2008, dizia que a França se aproximava da bancarrota. Dois exemplos: ambos querem acabar com as 35 horas, Juppé defende as 39, Fillon a lei geral europeia de 48 horas; Fillon quer um corte de 500 mil funcionários em cinco anos, Juppé apenas 200 mil.

3. As diferenças em relação a Juppé voltam a manifestar-se no que respeita à política externa. O antigo primeiro-ministro de Chirac aprecia a velha doutrina gaullista, dando à França o papel de “intermediária” entre Washington e Moscovo. Fillon vai muito mais longe na defesa de uma aproximação à Rússia. Os empresários franceses agradecem-lhe esta reconciliação com o grande vizinho do Leste. Em 1991, foi contra Maastricht. O terrorismo islâmico é a sua prioridade e isso implica o entendimento com a Rússia e até com Bashar al-Assad. Quando o criticam, diz que De Gaulle, Churchill e Roosevelt também se aliaram com Estaline para derrotar a Alemanha nazi. A ele, cabe-lhe a missão mais modesta de derrotar Le Pen na segunda volta, num contexto muito diferente do de 2002. Nessa altura, quando o socialista Lionel Jospin ficou pelo caminho e Jaques Chirac teve de enfrentar Jean-Marie Le Pen, a disciplina republicana não falhou. Hoje, já não há essa certeza. Trump foi a mais recente demonstração.

4. Se tudo correr como o previsto, o que deixou de ser uma garantia, François Fillon será o próximo Presidente francês a ter de encontrar um terreno comum com Berlim, para tentar tirar a Europa da crise profunda em que está mergulhada. Angela Merkel acaba de anunciar a sua candidatura a um quarto mandato, 48 horas depois da bela despedida que Obama lhe ofereceu e quando as sondagens indicam que já recuperou da crise dos refugiados. Quer unir os alemães “para fazerem frente ao populismo”. Na apresentação da sua candidatura, antecipou um mundo muito diferente e mais perigoso. “Pondo as coisas com cautela, o mundo vai ter de se reorganizar depois das eleições americanas e no que respeita às relações com a Rússia.” O slogan da campanha é óbvio: “Vocês conhecem-me”. Vai ser uma batalha mais difícil do que as anteriores. Tem de conter a extrema-direita sem desocupar o centro, garantindo que a sua vitória seja suficiente para impedir uma coligação do SPD com os Verdes e com o Die Linke. Com Fillon terá um parceiro disposto a fazer o que é preciso para devolver à economia francesa a capacidade competitiva, que tem perdido aceleradamente perante a poderosa economia alemã. Defende uma “ruptura tranquila” num país que sempre preferiu as revoluções. Falta saber se há um entendimento possível quanto ao futuro da Europa e o seu lugar no mundo. Trump veio baralhar o jogo. Completamente.