Os dados, e a informação, no cérebro das cidades inteligentes

Na energia, na mobilidade, ou na gestão de serviços, não há projecto de smart cities que não inclua sensores e bases de dados que apoiem cidadãos e autarcas nos processos de decisão.

A energia e a mobilidade são duas das áreas fulcrais das <i>smart cities</i>
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A energia e a mobilidade são duas das áreas fulcrais das smart cities Helder Olino / PUBLICO
A energia e a mobilidade são duas das áreas fulcrais das <i>smart cities</i>
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A energia e a mobilidade são duas das áreas fulcrais das smart cities Renato Cruz Santos
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A energia e a mobilidade são duas das áreas fulcrais das smart cities Paulo Pimenta

Algumas das nossas cidades, com Lisboa e Porto à cabeça, estão a ganhar uma infra-estrutura quase invisível, uma rede de sensores ao serviço de uma revolução urbana que, segundo o académico sul-coreano Jung-Hoon Lee, responsável por projectos de dados abertos no seu país, está a acompanhar “a quarta revolução industrial”. Lee considera que a informação é o motor destas mudanças, num pensamento em linha com o de decisores políticos de muitas cidades do mundo.

Sabemos que um melhor auto-conhecimento nos ajuda a tomar melhores decisões no dia-a-dia. E o mesmo se aplica às cidades, nas quais a pressão para um uso mais eficiente e mais sustentável dos recursos exige que no processo de decisão exista informação credível e actualizada. Para a gestão de um sistema de recolha de lixo, de pouco adianta sabermos que, estatisticamente, os habitantes de uma dada localidade produzem uma dada quantidade média de resíduos por dia. Mais útil será, por exemplo, termos, dia após dia, num computador, um mapa actualizado dos contentores que acabaram de encher, e desenhar as rotas dos camiões em função disso, poupando milhares de euros. Os sensores, e a informação processada a partir de redes de dados, tornaram isso possível.

O tema dos dados - e a da sua disponibilização ao público - tem sido uma constante, com cada vez mais espaço de discussão, em fóruns como a Smart Cities Expo, cuja sexta edição se realizou na semana passada em Barcelona e na qual Jung-Hooon Lee foi um dos centenas de oradores. Nos resíduos, como na água, na energia ou na mobilidade, as cidades estão pressionadas a reduzir a sua pegada ecológica, e a transformação em informação desses dados gerados por uma teia capilar de pequenos aparelhos é assumida como uma ferramenta indispensável para alcançar a mudança. Porque - e voltando ao exemplo do lixo - se um vereador do ambiente souber que numa determinada rua ou bairro se produz mais resíduos/per capita do que no resto da cidade, é possível intervir junto dos cidadãos, desde logo alertando-os para esse “desvio”, e promovendo, por exemplo, uma campanha direccionada a esse problema.

A tendência actual é que sejam os sensores instalados nas cidades que recolham as maiores quantidades de dados, apesar de outros meios de recolha, como as redes sociais e os call centres, poderem ser usados, sustentou Lee. Em Lisboa, os dados vão ser fornecidos pelos transportes, contadores de electricidade e produtores de energia renovável. Tal como já aconteceu num projecto-piloto no Porto, na iluminação LED vão ser colocados sensores de qualidade do ar, de meteorologia, de ruído e wi-fi, como explicou em Barcelona Francisco Rodrigues, gestor de projecto da Lisboa E-Nova, a agência municipal de energia e ambiente que tem a seu cargo a implementação das medidas de inteligência e eficiência urbana na capital. Iniciativa semelhante vai ser levada a cabo no Porto, num projecto-piloto na zona do pólo universitário da Asprela.

Depois do tratamento dos dados, a informação vai ser alojada numa plataforma aberta a cidadãos e empresas - para que também os privados possam ter acesso a dados que lhes permitam personalizar ou desenhar novos serviços - e que dará apoio à autarquia na hora de tomar decisões. “Saber que determinada zona tem o ar muito poluído permite saber onde cortar ou redireccionar o trânsito. Saber que amanhã vai estar muito sol, vai permitir coordenar o carregamento de automóveis com as horas de maior produção de energia”, exemplificou Francisco Rodrigues.

Os planos para os dois maiores centros urbanos portugueses integram-se em projectos internacionais de cooperação entre cidades, de forma a permitir a experimentação de tecnologias com impacto na mobilidade e na factura energética: Sharing Cities, entre Lisboa, Milão e Londres; Smart Impact que une o Porto a Manchester, Dublin, Estocolmo e Zagreb. A reabilitação energética é uma das prioridades em Lisboa, com vista a tornar a capital numa “cidade solar”. 250 fogos de habitação social, edifícios públicos e de serviços e o edifício da Câmara vão ter um sistema de motorização do consumo de energia, sistemas de climatização mais eficientes e com recurso a energias renováveis. A instalação de telhas fotovoltaicas no centro histórico também está nos planos. Os esforços de adopção de novas tecnologias ao serviço da eficiência concentram-se numa espécie de cidade-laboratório, de Alcântara a Santa Apolónia.

Cidades neutras em carbono

Em matéria ambiental, os autarcas de Lisboa e Porto têm um objectivo claro: tornar as cidades neutras em carbono. Tendo acesso a estes dados, será também possível actuar mais eficazmente na mitigação das alterações climáticas. E a equipa do pelouro de inovação e ambiente da Câmara do Porto, da qual faz parte Rui Calçada, mostra os resultados: através da monitorização do consumo de água, a autarquia tem vindo a corrigir anomalias o que permitiu reduzir em 30% o consumo no último ano. “É para continuar a reduzir”, reforçou o adjunto do vereador Filipe Araújo.

A cidade quer ter “instrumentos activos de gestão” e ter uma relação cooperativa com os cidadãos. O que se vai traduzir na criação de uma plataforma que mostre em tempo real o consumo de água – a fase piloto decorre em Damião de Góis com 400 habitações até Maio de 2017 – e que, numa fase posterior, permita premiar os cidadãos com maior redução no consumo e iniciar acções mais eficazes de sensibilização.

Com vista a reduzir as emissões de carbono, a mobilidade nos centros urbanos está cada vez mais associada à partilha de meios de transporte. Lisboa vai ter, para o ano, 1410 bicicletas partilhadas, dois terços eléctricas, e as viaturas da frota municipal vão ser partilhadas por vários departamentos. No Porto, 70% dos carros da autarquia serão, até ao final de 2017, completamente eléctricos. Os restantes 30%, serão híbridos.

Possibilitar a réplica destes projectos é uma prioridade, para que o trabalho não se fique apenas pela fase piloto A criação de modelos de negócio é um dos desígnios do consórcio global Sharing Cities e é isso que está nos planos da parceria feita entre o Porto e Portland, nos Estados Unidos da América. O objectivo é que as soluções aplicadas sejam traduzidas em modelos de negócio e possam ser replicados por outros municípios e pelo sector privado. Até lá, testa-se o que dá certo.

Nesta corrida carrregada de neologismos e tecnologias de ponta, as cidades têm no entanto outro desafio pela frente, que é o de garantir que não surgem, nestes processos, mais factores de exclusão social.  "Sim, é um risco e há que tê-lo sempre presente quando se pensa neste tipo de cidades", alertou Angelica Alvaray, do projecto venezuelano Citivida, apresentado em Barcelona numa conferência sobre a adopção de soluções, também elas inteligentes, para o envolvimento de grupos excluídos.

“Há sempre esse risco”, concordou Francisco Gonçalves, ressalvando que o projecto lisboeta incluiu a habitação social do Vale de Alcântara. Também é com essa consciência que o Porto integra a Smart Impact. A parceria internacional visa aferir o impacto máximo que as soluções inteligentes podem ter numa cidade, sendo que os factores de exclusão social e percepção dos cidadãos também estão em cima da mesa.

Ao mesmo tempo, os gestores das duas cidades acreditam que a informação sobre serviços em tempo real pode apoiar a intervenção dos utilizadores, com consequente pressão sobre os operadores e accionistas das empresas. No caso dos transportes, as empresas serão instadas, cada vez mais, a resolverem constrangimentos na circulação, colmatarem falhas na oferta e ajustarem os horários. A informação gerada com os dados, se não for manipulada, pode dar mais poder aos cidadãos. Quer nas suas decisões individuais, quer naquilo que diz respeito às dinâmicas da cidade.

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