Análise

Que políticos querem os italianos?

Não se sabe se haverá “efeito Trump” no referendo. Mas, na Itália, o “não” significa um regresso ao “pântano”

Há uma figura clássica nas artes marciais que consiste em desviar o ataque do adversário e utilizar contra ele a sua própria força, recusando o embate frontal e projectando-o. É o que o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, tenta fazer, perante as sondagens que vaticinam a vitória do “não” no referendo constitucional de 4 de Dezembro, adoptando a sua antiga postura de político anti-establishment.

O triunfo de Donald Trump nas presidenciais americanas ameaça introduzir uma dinâmica nova na política europeia, que jogaria contra Renzi. Se não é legítimo fazer transposições mecânicas da nova paisagem americana para a Europa — e se é muito cedo para o verificar — a maioria dos analistas, europeus e americanos, tende a crer nessa influência, prevendo um forte estímulo dos populismos.

Que fez Renzi? Perante as sondagens e a euforia com que os seus adversários populistas celebraram a vitória de Trump — como o advento de um “populismo mundial” — mudou o estilo e os temas da campanha. Passou a sintonizar o seu discurso com o sentimento “anti-establishment”, começou a falar grosso a Bruxelas, ameaçou vetar o orçamento europeu, acabando na abstenção, exigiu que a UE obrigasse a Hungria e outros países respeitarem a sua quota de refugiados, a anunciou que Roma não cumpriria o limite do défice imposto por Bruxelas. E, sobretudo, lembrou que o verdadeiro campeão da luta contra “a casta” é ele mesmo e a revisão constitucional um seu instrumento.

Note-se que Renzi nada tem a ver com Grillo. Não assume uma posição eurocéptica, pelo contrário. Faz, sim, uma crítica às práticas da UE e da Comissão Europeia, na sequência de posições antigas. Mas tornou-se óbvio que o tom e os actos são determinados pelo referendo.

Os referendos são assim

Beppe Grillo, líder do Movimento 5 Estrelas (M5S), denunciou estas medidas como um “bluff” do primeiro-ministro que “reduziu a Itália a uma colónia da Europa”. Uma sondagem do Corriere della Sera mostrou que estas posições de Renzi são aprovadas por quase dois terços (62%) dos italianos, entre os quais a larga maioria dos eleitores do M5S e da Força Itália, de Silvio Berlusconi. Mas, para mal de Renzi, esta aprovação não se reflecte nas sondagens.

Os institutos de opinião pensam que, pelo contrário, a margem do “não” tende a subir — de quatro para sete ou até dez pontos. Falam no desencanto dos eleitores perante a falta de resultados económicos. “Há uma clara aceleração do ‘não’ e o factor Trump parece ter inclinado a balança entre os que estavam indecisos”, diz à Reuters Roberto Weber, da agência Ixe. Renzi responde-lhes que vão ter uma grande surpresa como com Trump.

No dia seguinte das eleições americanas, o primeiro-ministro estava perante um problema agudo. As sondagens, que em Abril davam uma larga vantagem ao “sim”, passaram a ser inquietantes depois de Agosto. Uma a uma — dizem as sondagens — as várias reformas até merecem a aprovação da maioria da opinião pública.

O problema é que cerca de metade do eleitorado diz não ter opinião sobre a substância da revisão constitucional, que conhecem mal ou até desconhecem, mas sabem perfeitamente como vão votar: contra Renzi e o seu governo. É um risco clássico dos referendos.

Por outro lado, quando estava no auge da popularidade, o primeiro-ministro personalizou a consulta, declarando que se as reformas fossem chumbadas iria para casa. Exprimia uma vontade de reforçar a sua legitimação e de forçar a mão aos italianos, visto que não havia nenhuma alternativa à sua liderança. Mas deu aos populistas de Grillo e da extrema-direita, a Liga Norte, de Matteo Salvini — e também à extrema-esquerda do Partido Democrático — uma oportunidade indirecta e única de o afastarem.

Berlusconi tem tido um papel discreto. Foi ele quem negociou com Renzi as bases gerais da revisão. Depois rompeu os acordos mas, ao contrário dos deputados do seu partido, tem sido prudente. Vota “não”. Mas declarou esta semana que não encontra um “herdeiro político” para o seu partido. Porque hoje “há um único líder na Itália: Renzi.”

O “rottamatore”

O principal efeito que Renzi procura é o regresso à sua antiga imagem. Em Agosto de 2010, utilizou pela primeira vez a palavra “rottamazione” (prensar um carro mandado para sucata) para exigir o afastamento da velha nomenklatura do Partido Democrático (PD), incapaz de compreender o presente, de vencer eleições e fazer reformas. Queria romper “o crónico imobilismo do sistema italiano” e “sair do pântano”. Conquistou o PD em Dezembro de 2013 e, logo a seguir, em Fevereiro de 2014, assumiu a presidência do governo — sem ganhar eleições.

“Renzi é o homem dos tempos velozes. Dos factos velozes. De resto, aos italianos agrada esta atitude. Não é por acaso que Renzi é o mais apreciado dos líderes”, escreveu na altura o politólogo Ilvo Diamanti. A partir do momento em que assumiu a chefia do governo, procurou vestir o fato de “homem de estado”. Impôs uma maratona de reformas, devidamente atrasadas pelo complexo “sistema italiano”. A sua imagem mudou. Hoje, é olhado por muitos italianos como parte do establishment. Ele responde que é o único verdadeiro adversário da “casta”, que só pode ser afastada pela suas reformas. Argumenta: os que votam “não” estão objectivamente a defender os privilégios e as taras da “casta”.

Perguntou também na altura da sua “tomada do poder” o jornalista Mario Calabresi, actual director do La Repubblica: “Ele tem razão em não querer ficar atolado no pântano. Resta saber se governar não é uma maratona e se será possível chegar à meta à mesma velocidade com que se correm os 100 metros.” Não foi. Profetizou também na altura Hugh Dixon, analista da Reuters: “Se Renzi conseguir realizar tudo isto [as reformas], será um herói. Se não o conseguir, tornar-se-á claro que mais ninguém será capaz de reformar a Itália.”

Ficam duas incógnitas. Será possível a Renzi, em duas semanas, realizar a manobra de derrubar a oposição populista fugindo ao choque frontal e usando o peso dos seus temas? E, para lá do fantasma do trumpismo: que tipo de líder político desejam os italianos — e, já agora, os europeus?