Morreu Sharon Jones, a guarda prisional que se tornou uma fera da soul e rainha do funk

Cantora de 60 anos era a “voz poderosa” da banda The Dap-Kings. Vinte anos de carreira bastaram para que fosse considerada uma referência da soul e do funk.

Sharon Jones num concerto em Portugal, em 2010
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Sharon Jones num concerto em Portugal, em 2010 LM Miguel Manso - Publico

Quis estar em palco praticamente até ao fim. Mesmo quando uma neuropatia lhe afectava os pés e as pernas, restringindo-lhe os movimentos. O cancro que tinha no pâncreas não a impedira de cantar quando apareceu, não iria fazê-lo agora que estava de regresso. Sharon Jones, cantora soul, senhora de uma voz poderosa e vocalista da banda funk/soul The Dap-Kings morreu na sexta-feira rodeada de amigos e familiares, confirmou a sua agente, Judy Miller Silverman. Tinha 60 anos.

No obituário que lhe dedicou o diário norte-americano The New York Times, Steve Kenny e Joe Coscarelli recuperam uma entrevista que a intérprete deu em Julho, quando a doença começava já a ganhar terreno. Nele lembram que nasceu no Sul, na Geórgia, onde a comunidade negra sofria diária e severamente com a discriminação, que cresceu em Brooklyn e que só se tornou famosa quando já estava na casa dos 40. Até então, os executivos da indústria discográfica consideravam-na “demasiado baixa, demasiado gorda, demasiado negra e demasiado velha” para apostarem nela.

“Subir ao palco é a minha terapia” disse no Verão ao New York Times. “Temos de olhar para a vida como ela é. Ninguém sabe quanto tempo me resta, mas agora tenho força e quero continuar.”

A luta de Jones contra o cancro que lhe foi diagnosticado em 2013 está documentada no filme Miss Sharons Jones!, da realizadora americana Barbara Kopple. É Kopple quem diz à BBC que a intérprete chegava a deixar ao rubro alas do hospital quando fazia os seus tratamentos de quimioterapia – “quando as pessoas estão à sua volta ou há público, ela fica com energia e esquece-se da dor”.

É também neste documentário que Sharon Jones lembra que, na Geórgia, quando a mãe precisou de uma cesariana e foi levada para o hospital, a equipa médica não a operou nas salas convencionais, mas numa arrecadação. Chegada a Nova Iorque, a segregação era menos violenta, mas continuava lá, a marcar o seu dia-a-dia, assim como as drogas e a violência. Cantar era coisa que fazia apenas no coro da igreja e em casamentos.

James Brown e ela

Jones, que publicou o seu último álbum no ano passado, juntou-se aos Dap-Kings em 1996 e, em meados dos anos 2000, atingiram o êxito com 100 Days, 100 Nights (Daptone Records, 2007), o seu terceiro álbum de estúdio, gravado com recursos analógicos de forma a criar o som “old school” do funk e do afrobeat originais dos anos 1960. Foi a partir deste álbum, que tem na faixa tema – uma canção sobre o amor que nos diz que são precisos 100 dias e 100 noites para abrir o coração de um homem – um dos seus maiores sucessos, que houve quem passasse a referir-se à vocalista como “rainha do funk”.

Há já anos que a mulher que fora funcionária dos serviços prisionais (na famosa prisão de Rikers Island, em Nova Iorque) e segurança em bancos até ter ser descoberta pelo produtor e líder dos Dap-Kings, Gabriel Roth (também conhecido como Bosco Mann), se transformara numa cantora profissional. Em 2007 tornou-se uma estrela. Cinco anos antes, o primeiro disco que Jones e os Dap-Kings gravaram com a Daptone Records, Dap Dippin’ Whith Sharon Jones & The Dap-Kings, deixara já a crítica rendida, escreve o jornalista Nacho Ruiz no jornal El Mundo. Os especialistas reconheciam-lhe “um timbre vocal poderoso, com um carisma e uma profundidade inauditos”.

Em 2005 saiu Naturally e, antes do álbum de 2010, I Learned the Hard Way, veio o tal 100 Days, 100 Nights, cuja popularidade beneficiou certamente do facto dos Dap-Kings, formação cujo percurso se mistura com o da discográfica Daptone Records, terem entretanto participado em metade das faixas do álbum Back in Black, de Amy Winehouse, lançado em 2006.

Por vezes comparada com James Brown (1933-2006), que costumava imitar em adolescente e que era vizinho da família na cidade de Augusta, na Geórgia, onde a mãe da cantora começou por criar sozinha seis filhos depois de se separar, Sharon Jones sempre deixou claras as suas influências entre as divas clássicas da soul, como Aretha Franklin, mas soube imprimir “paixão” às canções, fazendo da interpretação muito mais do que um exercício de estilo, escreve ainda Nacho Ruiz. “[Jones] tornou-se uma das vozes fundamentais da soul dos nossos dias, revitalizando o género e resgatando a sua versão mais pura e contundente.”

O produtor britânico Mark Ronson, citado pela BBC, junta-se aos que a elogiam: “Sharon Jones tinha uma das mais magníficas e desesperadas vozes dos últimos tempos.”

A essa voz, que por vezes rugia e outras sussurrava, juntavam-se, em palco, “movimentos electrizantes”, numa “assombrosa entrega física”, mesmo quando a doença a debilitava, garante o crítico do diário El País, Fernando Navarro.

Jones chegou a dizer numa entrevista, em género de balanço de uma vida que sabia estar a chegar ao fim em que teve oportunidade de cantar ao lado de Lou Reed ou David Byrne, que a música e o seu público lhe tinham permitido fazer tudo aquilo que mais desejara – tirar a mãe do bairro social e comprar-lhe uma casa a que ela pudesse chamar sua.

Quando regressou dos primeiros tratamentos para gravar o seu álbum de 2014, Give The People What They Want, nomeado para os Grammys, tinha a cabeça rapada e o olhar orgulhoso de sempre, escreve ainda o espanhol El País. “A música é a minha felicidade, a minha alegria”, afirmou então a este diário. “Quando me concentro nela, o meu espírito e o meu corpo entram em comunhão.” Ficar em casa, seguindo o conselho dos médicos, seria morrer em vida.

"A voz é um dom de Deus. Agradeço-Lhe ter-me dado este dom. E sei que Ele vai guiar-me até eu não poder mais", dizia ao PÚBLICO em 2014 esta mulher que passara, quatro anos antes, como um furacão pelo palco do Super Bock Super Rock, no Meco, e que voltara logo no ano seguinte para o Cool Jazz Fest, em Cascais. "E eu vou continuar a lutar e a cantar até não poder mais. Darei sempre tudo o que tenho.” Nós agradecemos.

Notícia actualizada às 15h25