Editorial

O Exército do nosso descontentamento

O annus horribilis que o Exército viveu em 2016 tem pelo menos a virtude de ter posto a instituição a olhar para dentro e a dizer-nos que algo está a mudar.

Primeiro foi o caso da exclusão de alunos gay no Colégio Militar, que obrigou o Exército Português a alterar regulamentos e a abri-lo à sociedade como escola mais inclusiva. Depois foram as mortes de dois recrutas no 127.º curso de Comandos, que lançaram um anátema sobre a instituição e o descrédito da generalidade dos portugueses.

Pelo meio mudaram-se chefias. Suspenderam-se cursos. Abriram-se investigações. E apostou-se numa política de comunicação que sinalizou uma inédita abertura ao exterior. O annus horribilis que o Exército viveu em 2016 tem pelo menos a virtude de ter posto a instituição a olhar para dentro e a dizer-nos que algo está a mudar.

Ninguém contesta a importância da instituição castrense na garantia da soberania nacional e a sua natureza e regras próprias, que fazem dela um caso muito particular no conjunto das instituições que formam a ideia de Estado. Mas essa diferença não a isenta do escrutínio público, qual fortaleza inexpugnável da qual pouco sabemos e onde nada nem ninguém pode entrar.

O caso dos Comandos prova-o à evidência: o que na altura foi oficialmente descrito como uma consequência trágica de um fortuito “golpe de calor” foi afinal, sabemo-lo agora pelas detenções de ontem e pela natureza dos crimes em investigação, fruto de uma violência bárbara exercida por oficiais superiores movidos por "ódio patológico e irracional" e de um dever de auxílio que nunca chegou para evitar a tragédia. Há três décadas, entre o início do curso de Comandos (1988) e a sua primeira suspensão (1993), nove militares morreram em circunstâncias suspeitas sem que ninguém tivesse sido responsabilizado. Também por aqui há razões para crer que algo está a mudar. 

O ministro da Defesa tinha prometido que o caso da morte dos dois recrutas seria tratado de forma exemplar e os factos que vamos conhecendo jogam a seu favor. Marcelo Rebelo de Sousa tinha avisado que “só a verdade prestigia as instituições” e o Exército, não sabemos se a bem ou a mal, foi obrigado a sair da caserna e a dar a cara em nome de uma confiança que se julgava perdida. Finalmente, e queremos acreditar que assim será, as mortes que no passado ficaram sem culpados vão desta vez ser investigadas até ao fim.

É claro que nada disto nos tranquiliza. Mas tem pelo menos a virtude de nos levar a acreditar que o desaparecimento de Hugo Abreu e Dylan Silva, os dois recrutas de 20 anos que sucumbiram ao sol e às ordens, pode não ter sido completamente em vão.

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