Guterres, primeiros-ministros, secretários-gerais e inveja

O secretário-geral não é o Imperador do Mundo e não tem ao seu serviço um exército para impor a Lei. O secretário-geral tem a capacidade de iniciativa, de intermediação, de persuasão que lhe confere o cargo e a relação com os dirigentes dos Estados membros.

 “De todos os altos dirigentes das Nações Unidas Guterres é o que tem maior experiência de campo e o único que tem uma visão estratégica das Nações unidas”. Foi com estas palavras que Josette Sheeran, a americana que era então Directora Executiva do Programa Alimentar Mundial (PAM), apresentou António Guterres, quando, na sua qualidade de Alto- Comissário da ONU para os Refugiados, foi o orador convidado da comemoração do 50º aniversário do PAM. E foi com as mesmas palavras que encerrou o eloquente e assustadoramente realista discurso que Guterres ali proferiu, expondo a situação dramática dos refugiados face à persistência de velhos conflitos, à emergência de novos e à incidência da crise financeira na disponibilidade de auxílio dos países mais ricos.

Estando a par do que corria em alguns mentideros da ONU, tomei aquelas palavras como um incentivo para a candidatura de Guterres a secretário-geral da organização. Candidatura de que já se falava e tinha a preferência do aparelho operacional das Nações Unidas. Pese embora estar ciente de que seria nas capitais dos membros permanentes do conselho de segurança que o assunto se decidiria, tive sempre a convicção de que o nosso ex-primeiro-ministro teria fortes probabilidades de vir a ser escolhido.

Simplesmente porque, tendo tido o privilégio de o acompanhar no processo de Timor e de observar o seu percurso no Conselho Europeu, era evidente que, como dizia a responsável do PAM, ele era o melhor e isso era reconhecido nos meios multilaterais. E a verdade é que esta “justiça imanente” por vezes sucede. Veja-se a expressão de contentamento dos embaixadores da Rússia e dos EUA no inusitado anúncio da escolha de Guterres com a presença de todos os membros do Conselho de Segurança.

Má notícia: não há, nunca houve e nunca vai haver um dirigente político perfeito. Pelo menos enquanto tais funções forem ocupadas por seres humanos. Na perspectiva da História, tinha a ideia de que cada geração, na melhor das hipóteses, procurava resolver os problemas que encontrava e, com isso, criava novos problemas que deixava às gerações seguintes. Mas agora, com a estonteante evolução tecnológica, julgo que cada geração que chega ao poder ainda está a tentar compreender os problemas que tem de enfrentar e já lhe apareceram outros.

Está na moda dizer, com ar basbaque, a respeito da escolha de Guterres, “mas porque é que eles são tão bons lá fora e tão maus cá dentro”. Pois saibam que António Guterres terá sido o primeiro-ministro que presidiu ao melhor momento da História de Portugal. Quando deixou o Governo Portugal tinha a melhor situação financeira em democracia (em ditadura é mais fácil…), com uma dívida abaixo de 60% e um défice inferior a 3%.

E foi primeiro-ministro numa época, que vinha de trás e prosseguiu até ao eclodir da crise financeira mundial, em que nunca tantos portugueses viveram tão bem. Portugal gozava ainda de um enorme prestígio internacional, para que Guterres contribuiu de forma definitiva pela sua brilhante e marcante actuação no Conselho Europeu e, sobretudo, do êxito surpreendente de Timor.

Para além disso o seu Governo tomou decisões fundamentais que se repercutem ainda. O impulso à educação e à investigação científica, o mais importante activo de que dispomos. A criação do rendimento mínimo garantido que já existia há décadas (a própria Irlanda o tinha quando ainda era uma colónia) em todos os outros países da Europa e nos tirou do fundo da cauda da União Europeia em matéria de desigualdade.

Alguns pândegos, embora mostrando-se satisfeitos com a eleição de Guterres, com a sua sideral ignorância sobre o modo como funciona a ONU, lembraram-se de ir dizendo que os anteriores secretários-gerais foram personalidades apagadas, que não ficaram na História. Mas para não falar de Hammarskold ou Boutros-Ghali, é curioso que, depois da mobilização em torno de Timor se tenham esquecido do papel que desempenhou Koffi Annan, um admirável secretário-geral das Nações Unidas. Não foram as manifestações em Lisboa, por reconfortantes que para nós tenham sido, que viabilizaram a auto determinação e a consequente independência de Timor: foram as negociações conduzidas na ONU, que sem Koffi Annan nem sequer tinham começado. 

O secretário-geral não é o Imperador do Mundo e não tem ao seu serviço um exército para impor a Lei. São os estados membros que tomam as decisões. O secretário-geral tem a capacidade de iniciativa, de intermediação, de persuasão que lhe confere o cargo e a relação com os dirigentes dos Estados membros. São essas, aliadas à sua grande experiência, as qualidades que se reconhecem a Guterres e que todos estão seguros colocará, com a sua inteligência, humanismo e persistência, ao serviço da justiça em prol da paz, da procura da resolução pacífica dos conflitos e dos objectivos traçados na Carta das Nações Unidas.

Porque será que há quem julgue que só se eleva destilando-a  para apoucar os outros?

 

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