Todos os dias nove pessoas pedem ajuda à Linha Saúde 24 para deixar de fumar

Serviço arrancou a 20 de Maio. Menos de um terço das chamadas são feitas por mulheres.

Foto
Dos 1630 telefonemas, só 567 foram feitos por mulheres Bruno Lisita

Homens, com idades entre os 35 e os 69 anos e a residirem na zona de Lisboa e Vale do Tejo. Este é o perfil mais comum dos utentes que ligaram para a Linha Saúde 24 a pedir ajuda para deixar de fumar. Nos primeiros seis meses do novo serviço de cessação tabágica desta linha, 1630 pessoas telefonaram a pedir ajuda para deixar de fumar – o que representa uma média de nove pessoas por dia. Com as alterações à lei do tabaco, há seis meses, o número de telefone 808 24 24 24 passou a constar dos maços de cigarros para incentivar os consumidores a deixarem de fumar e para que saibam a quem se dirigir.

De acordo com os dados enviados ao PÚBLICO, o serviço arrancou a 20 de Maio e no primeiro mês recebeu 79 chamadas para cessação tabágica. Logo em Junho o número subiu para 299, com o pico de contactos a registar-se em Julho, com 434 chamadas. A partir desse mês os contactos reduziram e estabilizaram na casa das 250 chamadas mensais. Ao todo, entre Maio e Outubro, a Linha Saúde 24 recebeu um total de mais de 290 mil chamadas de triagem, aconselhamento e encaminhamento sobre os mais variados assuntos, o que significa que o peso da cessação tabágica é de menos de 0,6% do total.

Maioria das chamadas é de Lisboa

A maioria dos contactos para deixar de fumar são da região de Lisboa e Vale do Tejo, seguindo-se o Norte, Centro, Alentejo, Algarve, Açores e Madeira. Os homens e mulheres entre os 35 e 69 anos foram os que mais usaram a linha, seguindo-se a faixa etária entre os 18 e 34 anos. Houve também 53 homens com mais de 70 anos a usar o serviço e 31 mulheres.

O coordenador da Linha Saúde 24, o enfermeiro Sérgio Gomes, explicou ao PÚBLICO que sempre que alguém liga para este serviço e pede ajuda para deixar de fumar é atendido por um enfermeiro que faz uma série de perguntas ao utente, nomeadamente para perceber o nível de dependência de nicotina. A linha fica com os dados do fumador e entra depois em contacto com a unidade de saúde mais próxima do utente com consultas especializadas. São as próprias unidades que devolvem a chamada para agendar uma consulta.

Dos 1630 telefonemas, só 567 foram feitos por mulheres, o que representa menos de um terço. Um valor que está em linha com os dados do último Inquérito Nacional de Saúde, relativo a 2014, e que estima que existam 1,16 milhões de homens fumadores em Portugal e 600 mil fumadoras. Porém, o consumo entre homens está a cair, enquanto nas mulheres tem aumentado. O relatório Portugal - Prevenção e Controlo do Tabagismo em Números 2015, do Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo da Direcção-Geral da Saúde, divulgado em Março deste ano, indicava que entre 2005/2006 e 2014 o consumo de tabaco em Portugal só tinha caído menos de um ponto percentual, com a descida a ser sobretudo travada pelo aumento do consumo no sexo feminino.

Apesar dos contactos para deixar de fumar estarem a funcionar desde Maio, a verdade é que o serviço da Linha Saúde 24 está bastante aquém do que chegou a ser pensado e limita-se a fazer este encaminhamento, sem dar apoio ou seguimento telefónico dos casos. A ideia inicial, ainda com o ministro Fernando Leal da Costa, era que as pessoas fossem acompanhadas durante um ano com oito consultas telefónicas. A expectativa era então apoiar até 50 mil pessoas em três anos. A proposta foi adiada para 2017.

O Ministério da Saúde adiantou entretanto que, até ao final do ano, se prevê que todos os agrupamentos de centros de saúde (ACES) passem a ter consultas de cessação tabágica “pela primeira vez, desde sempre”. Se para este ano o objectivo é que haja uma consulta por ACES em todas as regiões de saúde, para 2017 os objectivos são mais ambiciosos: a ideia é passar a ter uma consulta de cessação tabágica por cem mil habitantes em Lisboa e Vale do Tejo, 95 consultas no Norte, 38 no Centro, cinco no Alentejo e 14 no Algarve.
Quanto à comparticipação dos medicamentos para deixar de fumar, que tem sido prometida e adiada por sucessivos governos, ainda está em fase de avaliação pela Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed). com Alexandra Campos