Cinco instrutores, médico e director da prova de Comandos foram detidos

Investigação às mortes no curso de Comandos teve novos desenvolvimentos: detenções por suspeita de vários crimes de abuso de autoridade e ofensas à integridade física que estarão na origem de duas mortes no curso.

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Rui Gaudêncio/Arquivo

Sete militares, cinco oficiais e dois sargentos do curso de Comandos foram detidos na manhã desta quinta-feira no âmbito de uma operação conduzida por procuradores do Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa e pela Polícia Judiciária Militar. As detenções, confirmadas ao PÚBLICO por fonte judicial, estão relacionadas com a investigação às duas mortes ocorridas durante o 127.º curso de Comandos. 

O furriel Hugo Abreu, com 20 anos, morreu a 4 de Setembro, no primeiro dia do curso de Comandos quando faziam uma prova de corrida. O Exército adiantou então que a morte se tinha devido a um golpe de calor (insolação), porém, os indícios recolhidos pela investigação apontam cada vez mais para a tese de crime. Os militares terão sido impedidos de beber água durante várias horas de esforço físico debaixo de temperaturas altas que chegaram aos 40 graus Celsius. Outro militar, Dylan Silva, colega do mesmo curso, viria a morrer, uma semana depois, no Hospital Curry Cabral, quando aguardava um transplante de fígado.

Entre os detidos estão o tenente-coronel que é director da prova de Comandos, o médico do curso (que é capitão e a quem a PJ Militar já tinha imputado responsabilidades) e cinco instrutores (três tenentes e dois sargentos).

As detenções já foram confirmadas pela Procuradoria-Geral da República, em comunicado, revelando que "estes militares são suspeitos da prática de crimes de abuso de autoridade por ofensa à integridade física (art.º 93.º do Código de Justiça Militar)". "Na sequência das detenções, serão presentes ao juiz de instrução criminal para aplicação de medidas de coacção", diz a mesma nota. Ao que o PÚBLICO apurou, os sete detidos foram levados para o Estabelecimento Prisional Militar de Tomar e só na sexta-feira de manhã serão presentes ao juiz de instrução criminal em Lisboa.

Exército sabia que militares iam ser detidos

Como destaca o comunicado da Procuradoria-Geral da República, "para além dos sete visados pelos mandados de detenção" desta quinta-feira, "o processo tem dois outros arguidos constituídos, também estes militares", que são dois enfermeiros. "As investigações prosseguem, estando em causa factos susceptíveis de integrarem os já referidos crimes de abuso de autoridade por ofensa à integridade física (art.º 93.º do Código de Justiça de Militar), bem como de crimes de omissão de auxílio (art.º 200.º do Código Penal)", acrescenta o comunicado.

O porta-voz do Exército, Vicente Pereira, reagiu também em comunicado, informando apenas que "a apresentação dos mandados ao Comando do Exército decorre do previsto na lei quanto à detenção de militares no activo e na efectividade de serviço". O Ministério Público teve de informar antecipadamente a hierarquia superior do Exército de que as detenções estariam iminentes, conforme o previsto na lei. A mesma nota diz ainda que o ministro da Defesa Nacional, José Azeredo Lopes, acompanha o caso em "estreita ligação" com o chefe do Estado-Maior do Exército, o general Frederico Rovisco Duarte.

No final de Outubro os relatórios das autópsias aos dois militares que morreram durante um treino dos Comandos foram entregues ao DIAP de Lisboa e ao Ministério Público de Benavente, onde decorrem as investigações.

Decorrem ainda três processos disciplinares, instaurados a dois oficiais e a um sargento.

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