Opinião

Trumpocalipse e Lisboa em esteróides

Não podemos esquecer que Hitler demonizava os judeus, exaltava as condições miseráveis dos trabalhadores e criticava o capitalismo ou os lucros do mercado bolsista, lançando pouco depois uma longa noite sobre o mundo
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Jorge Luis Plata/Reuters

Numa pastelaria em Lisboa, na manhã seguinte às eleições americanas, os olhares fixavam-se nas noticias que passavam na televisão e o ambiente era de estupefação geral. De facto, a vitória de Trump no outro lado do oceano constituiu um sismo histórico com consequências imprevisíveis e não o podemos analisar apenas como um fenómeno isolado, mas sim como uma réplica poderosa de muitos outros que estão a ocorrer nas mais diversas geografias.

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Em Inglaterra Theresa May assumiu o comando à boleia do Brexit e dos discursos anti-imigração de Nigel Farage, na Turquia Tayyip Erdogan aproveitou o golpe de estado para reforçar o seu apoio popular, prender pessoas e exonerar Juízes, na Alemanha o partido de Angela Merkel (CDU) foi derrotado pelo AfD, partido de extrema direita nas últimas eleições regionais, em França Marine Le Pen alimenta uma esperança renovada de conquistar o poder, a Holanda treme com a possível vitória na próximas eleições de Geert Wilders, líder do partido eurocético e anti-imigração (PVV) e no brasil o país esta dividido entre o impeachment de Dilma e a progressão de Temer.

Num mundo global os contágios são rápidos e perante tantos ‘abalos’ parece incontornável procurar as suas raízes subterrâneas, aquelas que permitem explicar as fraturas que tem surgido à superfície. A emergência de uma liderança populista, protofascista, nacionalista e xenófoba é um sintoma da montanha de desigualdades criada pelo fluxo financeiro global e da erosão que está a produzir nas mais variadas democracias internacionais.

O que tem ocorrido é uma das maiores expulsões em massa de pessoas e países do espaço económico, como nos refere Saskia Sassen no seu livro "Expulsions", conduzindo à criação de bolsas de privação e a uma escalada da migração sem precedentes. É por isso que um agricultor na Índia que migra para as favelas em Delhi devido à cativação dos seus terrenos agrícolas por parte de uma multinacional não é muito diferente de um português que se viu obrigado a migrar para Londres por não encontrar trabalho em Portugal devido à austeridade imposta pelo FMI, não é muito diferente de um sírio que foge da guerra e do conflito causado pelos interesses económicos, não é muito diferente de um americano de Detroit que perdeu o seu trabalho pela sua indústria se ter deslocalizado para a China ou Bangladesh.

O mundo está a ser governado por uma elite de interesses financeiros que não conhece fronteiras, pretendendo maximizar o lucro, diminuindo a despesa e a concorrência, movendo-nos a todos de forma centrífuga, global e progressiva para os extremos do sistema, esses onde se avoluma o descontentamento. Por seu lado, a comissão europeia, as instituições internacionais como o FMI ou o World Bank e os estados pactuaram e facilitaram este processo, ajudando a produzir a tempestade perfeita sobre o interesse das populações que era suposto defenderem. Lagarde veio agora dizer que os benefícios da globalização devem ser partilhados por todos...Too late.

A nova elite conservadora que emerge dos despojos deste profundo desequilíbrio entre-países e intra-países é o próprio sistema a aperceber-se da sua queda. Dirige-se às comunidades esquecidas, aos lugares silenciados espalhados pelo mundo, acenando com o ‘espaço histórico zero’, aquele onde a memória do mal acorda travestida da persecução do ‘bem’, como nos avisou Tzevetan Todorov. Os imigrantes que perseguem não são a causa das desigualdades ou dos fenómenos de terrorismo, mas sim a sua consequência e o isolacionismo económico que proclamam é apenas uma fachada para replicarem um novo mosaico de relações de poder onde as comunidades e os povos divididos serão ainda mais espoliados da possibilidade de terem um futuro.

Não podemos esquecer que Hitler demonizava os judeus, exaltava as condições miseráveis dos trabalhadores e criticava o capitalismo ou os lucros do mercado bolsista, lançando pouco depois uma longa noite sobre o mundo. No final do trumpocalipse day surgiram em Lisboa os muppies da Câmara Municipal de Lisboa. Parafraseando Isaac Newton os mesmos convidam os web summiters a viverem a cidade ‘livre’ não ‘dos muros’ mas ‘das pontes’. Os nossos representantes políticos ofereceram a chaves da cidade, passearam-se entre CEO’S pelo bairro-alto, acenderam galos de Barcelos, exaltaram o impacto turístico e as empresas milionárias representadas neste evento global.

Num momento em que novas plataformas online como a Airbnb e a especulação imobiliária estão a provocar profundas disrupções no parque habitacional de várias cidades, expulsando ou limitando a possibilidade de serem habitadas por moradores permanentes e elitizando cada vez mais os meios urbanos, talvez seja altura de acautelar os palácios de (des)ilusões que se pretendem criar. As democracias estão a desfazer-se precisamente por aí.