Nikias Skapinakis, uma pintura que vence o quotidiano

Entre figuração e abstracção, sem escolher uma ou outra, as pinturas de Nikias Skapinakis privilegiam a densidade cromática, a expressividade das cores, a força das camada lisas.

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Logo que se entra na galeria dos Artistas Unidos uma frase escrita em letras brancas brilha discreta no escuro. E lê-se assim: “A arte – visual, literária, musical – não serve só para inquietar, ou provocar, mas também para encantar, divertir e apaziguar”. Não está assinada, mas a sua autoria subentende-se. Será de Nikias Skapinakis (1931, Lisboa), o artista que é o sujeito de Paisagens Ocultas, patente até 17 de Dezembro no Teatro da Politécnico, em Lisboa. E o seu significado não se afasta daquilo que as suas pinturas, em guache e a óleo, parecem comunicar à experiência do espectador. Uma leveza graciosa oferecida pela cor, um escapismo visual de calor humano, que o desenho desperta, uma familiaridade difusa diante das formas, das linhas, das composições.

As paisagens que se ocultam nas suas telas, transcendendo-as também, são lugares que acolhem os visitantes, resguardando-os do mundo exterior. Oferecem a quem as vê um consolo que sustém o olhar. Mas dê-se a palavra ao artista, a propósito destas obras, com quem conversámos por email: “A minha intenção foi a de contraditar certos contextos da arte contemporânea que, arbitrariamente, reduzem o campo da expressão artística. Tratou-se, como dizia João Fernandes [subdirector do Museu Rainha Sofia], de ‘uma provocação tranquila’. De resto, a pintura é uma arte essencialmente ambígua. Aquilo que aparentemente é amável pode ser, na verdade, angustiante”.

A ambiguidade das pinturas esconde-se na relação entre as cores, naquilo a que delicadamente aludem, no que podem representar na relação com a abstracção, com outros domínios artísticos. Com a própria noção de arte contemporânea. “As artes praticadas no século XX sofreram uma síntese”, considera o artista, “que deu lugar no presente a uma contiguidade das expressões artísticas. As artes visuais, as artes cénicas, a música, a banda desenhada, a arte urbana, o design passaram a partilhar os seus domínios exclusivos. Por outro lado, o campo artístico foi invadido pela linguagem, pela filosofia e, até, pela sociologia”. Face a esta complexa diversidade, a pergunta a fazer-se, sugere, “não é o que é arte contemporaneamente, mas o que não é arte”.

A técnica é sensível

No entender do artista, a arte deve ser o mistério absoluto. É isso que as suas pinturas, a óleo e a guache, sugerem – comunicam com uma forte lucidez. Não se deixam descodificar, não podem ser esgravatadas, feridas em nome de um significado imediato. Facultam apenas uma experiência dos sentidos, da memória, do pensamento, experiência essa que tem na técnica uma das suas principais condições. “Julgo que a técnica permite excluir o que não é arte. A técnica é sensível, não é uma mera prática oficinal e é herdada, como uma experiência, através do tempo. Nenhuma obra de arte, em qualquer domínio, é possível sem técnica”, elabora o pintor.

Na obra de Nikias Skapinakis, a técnica deriva do gesto artístico onde se acumulam conhecimentos, sensibilidades, uma história herdada de saberes aprendidos, qualidades que a afastam de certos radicalismos da contemporaneidade. As paisagens ocultas não deixam de provir de conceitos – abstração, figuração, desenho, linha, cromatismo –, mas são sobretudo produtos de um fazer no qual se advinha uma prática continuada, tanto nos guaches como nos óleos. Pressente-se a mão do artista, o seu envolvimento com os materiais, o tempo que lhe terá consagrado, a imagem de um atelier.

Nas séries mais numerosas, o olhar do espectador pode até imaginar uma ideia musical de movimento, como se a energia suave do desenho, a exuberância luminosa das formas, os planos da cor, formassem uma música e nesta se apreendessem melodias, ritmos, sons. Impressão curiosa, pois Nikias Skapinakis, sendo um melómano, pintou em silêncio as suas paisagens. Mas de onde vêm elas? E porque são ocultas? “Nos anos 60, desenvolvi uma série que corresponde ao começo da fase a que chamei 'parafiguração' e que se caracterizava por objectos e paisagens abstractizantes, recortadas por um fundo branco”, responde o artista. “Mas nunca fui um pintor abstracto. Se pormenores da minha pintura forem isolados, como já aconteceu, podem, no entanto, sugerir pinturas abstractas, contrariando, efectivamente, o sentido paisagístico que as identifica”.

Entre a figuração e abstracção, sem escolher uma ou outra, as pinturas de Nikias Skapinakis privilegiam a densidade cromática, a expressividade das cores, a força das camadas lisas. Revelam-se com a presença da luz artificial. Ainda assim, permitem a insinuação de contornos que remetem para a realidade, para o mundo que aparece e existe fora da galeria. Na folha de sala, o artista escreve que “o desenho sinuoso devolve à pintura a recordação da paisagem oculta na paisagem abstracta do quadro”. E diante dessa paisagem, o olhar consegue esboçar horizontes, céus, veios, sulcos, contornos de montanhas, rochas, vales.

Dir-se-ia que Nikias Skapinakis pinta representações do mundo concreto a partir do interior da abstracção. Até que ponto a aplicação das cores, com o desenho, não contribui para essa aproximação (por meio das paisagens) ao mundo? “Talvez possa dizer-se que imponho uma disciplina abstractizante à simulação do mundo concreto. Através da cor que determina o desenho que a contém, sempre aludi ao real”, revela. “Divirto-me, aliás, quando, depois, encontro coincidências da minha pintura com a própria natureza. Por exemplo, encontrei extractos de rocha que lembram um pormenor do quadro de maior formato que está exposto e, já depois da inauguração da exposição, vi na imprensa uma fotografia assaz parecida com alguns dos meus guaches. Mas a memória, claro, faz o seu trabalho”.

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O olhar consegue esboçar horizontes, céus, veios, sulcos, contornos de montanhas, rochas, vales FOTO: José Manuel Vasconcellos

Tensão e apaziguamento

Volte-se às pinturas da exposição. Na folha de sala, evoca-se a série Cartazes, o interesse pelos posters, a influência do design. E a banda desenhada, na sua expressão mais minimal, será acertado falar da sua presença? “Sou, desde criança, um admirador do Tintim, o seu grafismo é inesquecível. Sigo com atenção a evolução da banda desenhada, que aprecio, como também aprecio a arte urbana. Mas o meu encontro com a arte pop é epidérmico, e deveu-se a uma expressão cartazista, que se harmonizou com os frescos do passado e coincidiu com a figuração da pop”.

Sublinhe-se que Nikias Skapinakis não é um artista pop, mas um pintor, alguém que insiste serenamente no ofício da pintura, aguardando que a contemplação do espectador se demore sobre as ilusões das suas imagens, sobre a nitidez dos seus traços, sobre a intensidade das suas camadas, sobre as diferentes tonalidades dos seus azuis, vermelhos, rosas, amarelos. Uma pintura que apazigua sem abandonar a tensão, de uma beleza peculiar, silenciosa. Cortês, confiante, sem se deixar fixar ou prender. Assim também se mostram as suas paisagens, que se multiplicam nas séries mais numerosas dos guaches ou que aguardam, sobre o fundo negro da parede, o encontro com o espectador.

Esse encontro é uma tímida, frágil relação com o exterior, pois em Paisagens Ocultas a arte encontra um refúgio, uma autonomia onde pode emergir. “ Não existe qualquer relação com o quotidiano nas paisagens ocultas”, diz o artista. A arte pop interessou-me, como me interessam os movimentos que animam a evolução da pintura”. E recorda uma data: “Em 1958, fiz uma conferência polémica, intitulada, a Inactualidade da Arte Moderna -, onde apontei a necessidade de um realismo novo, de uma nova figuração, mas tive, então, o bom senso de não dizer em que consistia”.

Nessa conferência, o artista aludia à necessidade de uma nova relação com o público exactamente através de uma recuperação da realidade e de um confronto com outras produções pictóricas que assinalavam, em simultâneo, a perenidade da pintura e a possibilidade da sua extinção. É entre dois polos que emerge a obra de Nikias Skapinakis, enfrentando a concorrência do quotidiano e vencendo-o com a liberdade do gesto, das cores, de uma sensibilidade irredutível a programas, fiel apenas ao impulso inútil, libertador e iniciador de toda arte.