Bombas voltam a cair em Alepo, teme-se o início de grande ofensiva

Aviação síria atacou as zonas controladas pela oposição no Leste da cidade. Moscovo usou pela primeira vez caças estacionados a bordo de porta-aviões para atacar em território sírio.

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Nos bairros do Leste de Alepo, cercados desde Julho, vivem cerca de 250 mil pessoas Abdalrhman Ismail/Reuters

Após um mês de acalmia, as bombas voltaram a cair sobre os bairros do Leste de Alepo, em poder dos rebeldes sírios, num prenúncio do que poderá ser uma nova grande ofensiva do regime de Bashar al-Assad para, com o apoio dos aliados, conquistar a zona e tentar vencer a mais importante batalha da guerra. Em simultâneo, Moscovo anunciou um ataque coordenado contra grupos jihadistas nas vizinhas províncias de Homs e Idlib.

“As forças do regime efectuaram raides e largaram barris de explosivos sobre vários bairros residenciais”, revelou Rami Abdel Rahman, director do Observatório Sírio dos Direitos Humanos, sublinhando que este é o primeiro ataque aéreo na zona desde 18 de Outubro, quando o Governo sírio e a Rússia anunciaram que iriam suspender os bombardeamentos na cidade com o objectivo de permitir a saída da cidade dos “grupos terroristas” aí presentes.

A “pausa humanitária” durou oficialmente três dias, sem que nenhum grupo armado tivesse abandonado a zona, mas Moscovo e Damasco decidiram prolongar a suspensão dos ataques, argumentando que pretendiam dar tempo aos Estados Unidos para convencer os rebeldes que apoiam a distanciar-se dos grupos jihadistas.

Segundo a televisão estatal, os ataques desta terça-feira, visando os bairros de Sakhur e Massakan Hanano, foram efectuados apenas pela aviação síria. A Rússia tinha anunciado que pretende manter, para já, a moratória nos ataques à cidade. O Observatório diz ter informação de que o ataque matou pelo menos cinco civis.

Na mesma altura em que eram reportados os novos bombardeamentos, o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, surgia na televisão a informar o Presidente Vladimir Putin do lançamento de um ataque coordenado contra forças do Daesh e da Fatah al-Sham (a designação adoptada pelos sírios da Frente al-Nusra após se desligarem oficialmente da Al-Qaeda).

Na operação participaram pela primeira vez caças estacionados a bordo do porta-aviões Almirante Kuzmetsov, que chegou à região nos últimos dias. Foram igualmente disparados mísseis de cruzeiro, a partir de uma fragata fundeada na região, e mísseis terra-terra lançados de uma base móvel russa enviada para território sírio.

“Fizémos uma investigação exaustiva de todos os alvos”, afirmou Shoigu, explicando que da lista faziam parte “armazéns de munições, centros de treino de terroristas e fábricas” situados nas províncias de Homs e Idlib, esta última controlada na quase totalidade pelo chamado Exército da Conquista, que une forças islamistas e jihadistas, encabeçada pela Fatah al-Sham. Esta aliança encabeçou a ofensiva lançada no final de Outubro para tentar quebrar, a partir do exterior, o cerco aos bairros sob controlo da oposição em Alepo – uma acção que envolveu disparos indiscriminados contra zonas residenciais do Oeste da cidade, em poder do Exército. 

Nos últimos dias, vários responsáveis ocidentais afirmaram temer que o Exército sírio e os aliados tenham aproveitado a pausa do último mês para reagrupar e reforçar os meios disponíveis para um novo assalto ao Leste de Alepo – o mais visível dos quais foi a chegada do único porta-aviões russo ao Mediterrâneo oriental, após uma viagem seguida com preocupação pelos líderes europeus. Tanto Moscovo como Damasco insistem na sua determinação para derrotar os grupos terroristas activos no país, insistindo que cabe aos grupos da oposição síria dissociar-se daquelas forças, a quem acusam de estar a manter os civis como escudo humano. A rebelião afirma, no entanto, que o regime sírio mais não quer do que enfraquecer quem os combate, e acusa Assad de querer forçar o êxodo da população das zonas ainda sob o controlo da oposição.