Assad considera "promissora" posição de Trump sobre a Síria

Presidente sírio disse, em entrevista à RTP, que poderá ser um "aliado natural" dos EUA no combate ao Daesh, mas precisa de "esperar para ver" se o Presidente eleito muda o rumo da política americana.

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Assad diz não ter “grandes expectativas” sobre o próximo inquilino da Casa Branca Joseph Eid/AFP

O Presidente sírio, Bashar al-Assad, considerou “promissor” que Donald Trump tenha admitido a hipótese de colaborar com a Rússia e a Síria na luta contra os jihadistas do Daesh, mas diz que Damasco “vai esperar para ver” se o Presidente eleito muda realmente a estratégia norte-americana para o conflito no país.

Na primeira entrevista divulgada desde a vitória do candidato republicano, há uma semana, Assad diz à RTP não ter “grandes expectativas” sobre o futuro inquilino da Casa Branca, sublinhando que “a Administração americana não se restringe ao Presidente”.

Questionado, no entanto, sobre declarações recentes de Trump, em que este defendeu que Washington se deve concentrar em vencer os jihadistas e não em derrubar o regime sírio, Assad disse estar disposto a dar o benefício da dúvida ao próximo Presidente americano. “Não podemos dizer o que ele vai fazer, mas se ele combater os terroristas é claro que seremos um aliado natural, juntamente com os russos, os iranianos e muitos outros países que querem derrotar os terroristas”.

Mas apesar de saudar a mudança de discurso, o Presidente sírio mostra-se céptico sobre as condições que este tem para concretizar uma mudança de política. “Como vai ele enfrentar as forças contrárias no seio da Administração e os meios de comunicação mainstream que estiveram contra ele?”, questionou, lembrando que “há 50 anos que os Estados Unidos se imiscuem nos assuntos internos dos outros países e é por isso que eles são bons a criar problemas, não a resolvê-los”. “Temos de esperar para ver o que fará ao assumir a sua nova missão”, acrescentou. 

Ainda no sábado, numa entrevista ao Wall Street Journal, Trump distanciava-se daquela que foi a linha adoptada pela Administração de Barack Obama, dizendo que continuar a apostar na queda de Assad “vai acabar por colocar os EUA a combater a Rússia”, principal aliado do regime sírio, com quem o Presidente eleito quer manter melhores relações do que o seu antecessor.

Na entrevista, Assad voltou a acusar a Administração de Barack Obama de apoiar, como muitos dos seus aliados, grupos terroristas activos na Síria, e apelidou de “doente e megalómano” o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmando que “todos os terroristas que entraram no país o fizeram através da Turquia”.

Assad utiliza desde os primeiros protestos, em Março de 2011, o termo “terrorista” para se referir a todos os que se lhe opõem, da oposição síria aos jihadistas do Daesh e da Frente Fatah al-Sham (antiga Al-Nusra).