Dança

O corpo guarda uma história. Faustin decidiu contá-la

“Tu és a parte da frente deste comboio. Se descarrilares, todas as carruagens irão descarrilar também”, dizia-lhe o pai quando ainda era pequeno. Foi com este sentido de responsabilidade que Faustin Linyekula cresceu, em Ubundu, na República Democrática do Congo, onde viu os pais separarem-se muito cedo e formarem novas famílias. “Cresci literalmente entre duas famílias. Havia dois homens a quem chamava de ‘pai’ e duas mulheres a quem chamava de ‘mãe’”, conta o artista, em entrevista ao PÚBLICO.

À volta de Faustin toda a gente dançava, mas a ideia de se tornar dançarino era algo inconcebível: “A dança e a música eram hobbies, algo que se fazia depois do trabalho”, diz. “Ao crescer ali, não se pode nem por um segundo sonhar que [ser dançarino] é uma possibilidade. Isso veio muito mais tarde”. Foi só aos 21 anos que Faustin começou a ter aulas de dança. Foi na escrita que iniciou o seu percurso e onde descobriu uma forma de questionar o mundo e a sua identidade, que mais tarde encontrou no teatro e por fim, na dança. Na escrita descobriu a linguagem do corpo, na dança descobriu uma forma de fazer poesia. “Foi no teatro que aprendi algo que ainda hoje está comigo. O teatro não é sobre o argumento, a personagem ou os figurinos. É sobre a presença. É um corpo que actua num espaço à frente de outro corpo que o observa. E isto é a base da performance. Se me tornei dançarino foi graças a isto. Ter a noção de que existem dois corpos que estão no mesmo espaço ao mesmo tempo e saber como articular esse momento”, explica.

O bailarino, coreógrafo e encenador estreou-se em Lisboa em 2003 e desde então tem apresentado pela cidade vários dos seus projectos. Em 2016, Faustin Linyekula sucedeu ao autor e encenador britânico Tim Etchells como Artista na Cidade - uma bienal que tem como objectivo homenagear um artista através da apresentação da sua obra – que vai já na sua terceira edição.

De entre vários dos seus espectáculos agendados, acompanhámos o ensaio geral da peça “Sans Titre”, um convite feito a Faustin pelo coreógrafo alemão Raimund Hoghe; e a apresentação da peça “Le Festival des Mensonges”, onde através da mistura de discursos políticos com o movimento do corpo, o artista convida o público a ouvir pequenas histórias do quotidiano do Congo. “Durante o dia, as pessoas estão ocupadas a lutar. À noite, fica tudo mais calmo e as pessoas respiram fundo antes de começar a luta outra vez. Bebem um copo no exterior e ouvem música alta para esquecer”, conta sobre o país onde nasceu. Também durante o espectáculo o artista faz uma pausa e convida o público a ir beber uma cerveja ou a comer, de forma a atenuar a tensão presente em toda a peça e criar uma ligação com as noites do Congo.

Nos dias 18 e 19 de Novembro, Faustin Linyekula irá apresentar dois espectáculos - "Tryptique sans Titre" e "Statue of Loss" - numa só sessão, no Centro Cultural de Belém. O artista congolês irá também estar presente no festival Temps d’Images, em Lisboa, na conferência "African Bodies European Looks", com Isabelle Danto, a 20 de Novembro.