Sons ibéricos e uma banda sonora para a vida de D. Maria I

A temporada Música em São Roque terminará no dia 20.

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Rainha D. Maria I dr

Para além da atenção dada aos músicos e aos repertórios portugueses, a temporada Música em São Roque, promovida pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, tem apostado em novos formatos de concerto, seja através da inclusão de comentários dos próprios intérpretes e de musicólogos, seja da promoção do diálogo com outras artes. É notória a vontade de estabelecer pontes com públicos mais amplos, mas o uso de apontamentos cénicos e teatrais são também sintoma de um certo cansaço dos programadores e da própria assistência face aos alinhamentos mais tradicionais.

Esta 28.ª edição, que termina no dia 20, não tem sido excepção a este panorama. Assim, o recital de António Rosado dedicado à música para piano ibérica do século XX contou com uma conversa inicial entre o jornalista Carlos Vaz Marques e o musicólogo Tiago Manuel da Hora acerca das correntes estéticas que se cruzaram num belíssimo programa, no qual a influência francesa que marcou os portugueses como António Fragoso, Armando José Fernandes e Luís de Freitas Branco emergiu com vigor sobre as “sonoridades ibéricas” que constituíam o mote do programa e em contraposição à forte identidade espanhola da Suite Iberia (2º caderno), de Isaac Albéniz.

No encerramento do recital, esta obra permitiu a António Rosado mostrar todo o seu fulgor virtuosístico. A conhecida destreza técnica e agilidade do pianista ficou desde logo patente na peça inicial — Variações sobre um tema de Chopin, de Mompou — mas o lado mais subtil ao nível das cambiantes expressivas e da gestão de planos sonoros de um intérprete multifacetado, que recentemente realizou a ambiciosa tarefa da gravação integral dos Prelúdios de Debussy (CalandaMusic), fez-se sentir no poético Nocturno de Fragoso, nos  Prelúdios op. 1, de A. J. Fernandes, e nos Prelúdios dedicados a Vianna da Motta (2º caderno), de Freitas Branco.

Um bem sucedido exemplo de “concerto-teatral” teve lugar com a parceria entre o Americantiga Ensemble, dirigido pelo maestro e musicólogo Ricardo Bernardes, e a companhia teatral 33 Ânimos. O concerto homenageava a Rainha D. Maria I nos 200 anos da sua morte, contado com um texto teatral de Ricardo Cabaça que, sem abdicar de alguns clichés, percorreu de forma eficaz os principais momentos da vida da soberana, conhecida pela sua profunda religiosidade, mas também como mecenas das artes e da cultura. Aproveitaram-se as possibilidades dos diferente espaços da igreja e as intervenções de alguns cantores em texto declamado. Se  inicialmente faltou algum ritmo à representação, as actuações de Daniela Rosado (D. Maria I) e Zé Bernardino (Confessor) foram ganhando fluência e intensidade dramática, adquirindo um ponto alto na evocação da loucura de D. Maria I.

A criteriosa selecção de música sacra dos compositores que acompanharam a vida da rainha em Portugal e no Brasil, depois das Invasões Francesas, não foi uma mera ilustração sonora, mas protagonista de pleno direito, quer pela qualidade das obras, quer pela interpretação, na qual sobressaiu o excelente tenor Márcio Soares Holanda nos eloquentes solos do Dixit Dominus de João Rodrigues Esteves, a boa sintonia do conjunto vocal e das suas diferentes disposições em função da arquitectura das obras.

As escolhas musicais acompanharam a dramaturgia, com o Tantum ergo de Carlos Seixas, cantado em procissão; os diálogos corais da Missa a 8 de Francisco António de Almeida na juventude da futura rainha; o incisivo Te Deum a 8 de David Perez, anunciando a aclamação; o belo Stabat Mater de Leal Moreira e o punjente Judas mercator pessimus, de José Maurício Nunes Garcia, nos momentos mais dolorosos, antes de se ouvir o notável Ofício Fúnebre de André da Silva Gomes, compositor lisboeta que foi mestre de capela em São Paulo, cuja produção merece ser bem mais conhecida.