Crítica Cinema

J. K. Rowling tirou um niffler da mala

Uma “extensão” do universo de Harry Potter sobre o David Attenborough dos animais fantásticos é uma pequena surpresa.

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Com Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los, Joanne Rowling lança aquela que é provavelmente a sua maior aposta desde que os seus sete livros sobre o jovem feiticeiro Harry Potter se tornaram num fenómeno cultural. É uma história escrita propositadamente para o cinema, ambientada no mesmo universo dos livros e inspirada por um seu pormenor (o “manual de animais mágicos” usado nas aulas de Hogwarts), mas decorre numa época completamente diferente e não duplica personagens.

Tudo razões suficientes para torcermos o nariz e partir do princípio que por trás deste spin-off ou “extensão” reside apenas a necessidade de ter “produto novo” para manter o franchise a carburar, sobretudo quando a própria Rowling já dissera não querer voltar a escrever sobre Potter e ter parcialmente voltado atrás com a peça teatral entretanto estreada em Londres. O que nos fazia desconfiar ainda mais da operação era a presença aos comandos do britânico David Yates, realizador dos últimos quatro filmes de Harry Potter – precisamente aqueles que eram simples objectos funcionais, sem chama nem alma.

É por isso com algum alívio e com bastante satisfação que podemos dizer que Monstros Fantásticos é muito melhor do que se poderia esperar. É, até, capaz de estar ao nível do melhor dos oito filmes Potter (O Prisioneiro de Azkaban), embora só o tempo permita vir a dizê-lo. O que é certo é que Rowling tirou um coelho da cartola – ou, mais apropriadamente, um niffler da mala onde Newt Scamander, o seu novo herói, contrabandeou um sem-número destas criaturas mágicas raras para a Nova Iorque dos anos 1920, onde as tensões entre os feiticeiros e os muggles (aqui chamados de sem-mages) estão à beira de explodir.

Esta já não é a história de um rapazinho que vai crescendo aos nossos olhos e aprendendo a valorizar a sua diferença; é a história de um adulto que se recusa a ceder ao cinzentismo e à uniformidade dominantes, e que apenas quer partilhar o deslumbre do mundo “natural”. Scamander, sob os traços gentis de professor distraído de Eddie Redmayne, tem aliás qualquer coisa de David Attenborough dos animais mágicos.

A grande vantagem de Monstros Fantásticos é não ser um “compacto” de duas horas e meia de um livro de 800 páginas – repleto de piscadelas de olho aos sete livros originais e de pistas para as sequelas que já se anunciam, o filme tem um espaço de respiração natural e próprio onde nunca sentimos que estão a ficar coisas por dizer.

David Yates pode continuar a ser simples ilustrador, mas o seu à-vontade com o universo serve-o bem aqui, permitindo-lhe prestar atenção aos actores e brilhar nas sequências de efeitos visuais, das quais duas em particular conseguem reproduzir em imagens a verdadeira magia da escrita de Rowling. Essa magia nunca esteve tanto no universo que criou; antes na sua capacidade de o ancorar em emoções humanas e universais e de no-las transmitir de modo certeiro e honesto.

As aventuras de Newt Scamander prometem por isso ser o passo lógico seguinte: como ser adulto num mundo que não é aquele que desejamos. Para já, Monstros Fantásticos, sem ser um grande filme, é suficientemente divertido e desenvolto para dar vontade de acompanhar as próximas aventuras.

 

Corrigida às 21h24: David Attenborough em vez de Richard Attenborough.