Na cidade das tripas, há cada vez mais soluções para vegetarianos

A oferta é cada vez maior e mais diversificada. E há até pratos típicos adaptados, como é o caso da francesinha vegetariana ou a feijoada de pleurotus, que simula as tripas à moda do Porto.

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Quintal Bioshop Nelson Garrido
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Black mamba Nelson Garrido
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Black mamba Nelson Garrido

Na última década, sobretudo nos últimos cinco anos, tornou-se mais fácil ser vegetariano ou vegano na zona do Porto. Há uma série de novas propostas na área da restauração, que cresceu em quantidade e em diversidade e se especializou na área. Há também uma maior abertura por parte dos restaurantes comuns, que agora já incluem nos menus a opção de escolher alguns pratos vegetarianos. Este crescimento acompanha a procura que também cresceu, por motivos de saúde, espirituais ou por questões ideológicas.   

Há 36 anos, quando o Suribachi, no Bonfim, abriu portas, pouco se falava sobre vegetarianismo no Porto e em Portugal no geral. Maria Arminda Lima, responsável pelo espaço desde a abertura, recorda que não havia muita informação nessa altura. Muito menos existia oferta no mercado, refere. Lembra-se de um espaço em Cedofeita, a Pirâmide, que em meados de 1975 era procurado por quem queria conhecer melhor o tema ou experimentar a gastronomia, que acredita ser mais saudável.

Foi por esse motivo que aos 24 anos alterou os seus hábitos alimentares. Um problema de saúde levou-a a procurar soluções alternativas, que passaram sobretudo pela alimentação.  Consequentemente e por falta de opções, foi-se reunindo com alguns amigos, para partilharem conhecimentos e encomendarem, em conjunto, produtos alimentares que não se vendiam nas lojas comuns, que eram posteriormente divididos por todos. O grupo foi crescendo e foi o pontapé de saída para o restaurante e loja de produtos dedicado à macrobiótica, vegetarianismo e veganismo, que ainda gere hoje aos 67 anos e é um dos primeiros no Porto especializados na área. Não se define como vegetariana ou como vegana. Embora os seus hábitos alimentares se aproximem daqueles que um vegetariano tem, não se inibe de comer “uma ou duas vezes por ano” um prato de carne. Faz isso sem qualquer problema e explica que o que está em causa “é saber o que se come e como se come”.

Vê com bons olhos “a maior abertura que existe hoje em dia” para este tipo de hábitos alimentares e a quantidade de opções que foram aparecendo nos últimos anos. Não consegue contabilizar o número de vegetarianos que existem no Porto, mas, pela procura e pelo sucesso das novas propostas, acredita que tenha crescido.

Treinar o paladar

Uma dessas novas propostas é o Cultura dos Sabores, na rua de Ceuta, que serve comida, quase na totalidade, vegana. A funcionar há dois anos e meio no antigo edifício da Livros do Brasil, abre com um propósito de missão. O restaurante é um projecto familiar de Alexandra Marinho e Vítor Neves, que também é presidente da direcção da Europacolon em Portugal, associação de apoio ao doente com cancro digestivo. Essa sua ligação acaba por ser fulcral para a abertura deste negócio, que diz ter nascido como prolongamento da sua actividade na associação. De acordo com dados da Europacolon que refere, todos os anos há 13 mil novos casos de cancro digestivo em território nacional, sendo que oito mil acabam em morte. Vítor Neves apoia a ideia de que um dos caminhos para a diminuição desses valores passa pela alteração dos hábitos alimentares. Passo que deu há oito anos, após 54 “a comer de tudo”. Podia ter sido complicado, mas “não foi”, afirma. Como em qualquer transição, diz ser necessário haver força de vontade. Teve essa força também porque, “ao contrário do que se possa pensar, ser vegetariano não implica comer comida sem sabor”, diz.

Essa é a mesma lógica que diz transportar para o Cultura dos Sabores que, tendo a missão de contribuir para “uma melhoria dos hábitos alimentares da população”, não abdica da ideia de que “comer é também um prazer”. Na cidade das tripas e das francesinhas é necessário “treinar o paladar”. É por isso que o menu inclui, à imagem do que acontece noutros restaurantes vegetarianos e noutros que não o são, pratos típicos adaptados, como é o caso da francesinha vegetariana, o tofu à bráz ou a feijoada de pleurotus, que simula as tripas à moda do Porto.              

Para Vítor Neves, actualmente a oferta é grande. Acredita que se tornou mais fácil para os vegetarianos e veganos da zona do Porto ter acesso a produtos ou a restaurantes, “que cada vez são mais variados”, diz.

A oferta é, de facto, mais diversificada. Há restaurantes onde se pode optar por uma refeição mais requintada, espaços onde se pode ir apenas lanchar ou espaços mais descontraídos que misturam conceitos.

Hambúrgueres e música

A Black Mamba - Burgers & Records é um desses exemplos. É uma hamburgueria vegana, mas é também uma loja de discos dedicada às sonoridades mais extremas do rock. À partida não há qualquer tipo de ligação, mas para Pedro Agra, que co-fundou o espaço com Tucaiana Lobato, faz todo o sentido. Foi precisamente essa ligação com a música que o fez chegar a vegano. Há uma vertente do punk e do hardcore, derivações do rock das quais é adepto, que tem uma mensagem muito vincada relativamente às questões dos direitos dos animais e do desperdício de recursos. Consciente dessa realidade, há dez anos que se tornou vegetariano. De uma “forma gradual e natural”, tornou-se vegano há cinco. Como explica, um vegano, ao contrário de um vegetariano, não consome qualquer produto de origem animal, seja ele alimentar ou de outra natureza.

Na altura em que fez essa transição, como refere, era muito mais complicado encontrar espaços no Porto que dessem resposta aos seus hábitos alimentares. Um lugar-comum “era ir a um restaurante e como prato vegetariano o melhor que se arranjava era uma sopa”, diz. Actualmente, diz não existir esse problema e “felizmente estamos mais bem servidos”, afirma. Na sua opinião, para isso terão contribuído alguns fenómenos “de moda” despoletados por figuras públicas. O que para Pedro não é inconveniente nenhum, porque de certa forma terá ajudado no crescimento da oferta.

Comum a muitos dos espaços desta natureza é a ligação dos proprietários com a causa. Conscientes de que é um negócio, em primeira análise, o que os motivou a seguir com os projectos foi a ligação que já tinham com o estilo de vida.

No caso de Maria da Graça Silva, uma das responsáveis pelo Oriente no Porto, perto da Cordoaria, a sua motivação é espiritual. O restaurante aberto há 19 anos na Associação Hare Krishna do Porto tem por trás uma ligação a esta filosofia oriental. Ligação que foi criada pela responsável pelo espaço há 30 anos, quando tinha 13. Quando era adolescente, a mãe de Maria conheceu algumas pessoas com alguma conexão às filosofias orientais. Essa relação, aliada a alguns problemas de saúde, levaram-na a optar por uma mudança nos hábitos alimentares. Desde então assume essa direcção apenas como parte de um todo, enquadrada na filosofia que segue. Apesar dessa relação espiritual associada ao espaço, o restaurante é aberto ao público no geral.

Além dos restaurantes, há também mais espaços onde se podem comprar produtos consumidos por vegetarianos. O Quintal Bioshop, na rua do Rosário, é uma mercearia especializada em produtos biológicos, onde se podem encontrar produtos alimentares sem glúten, artigos de cosmética ou vegetais. Quem mais frequenta o espaço são essencialmente veganos e vegetarianos, embora não exclusivamente. No mesmo espaço há uma cafetaria onde são servidos almoços e lanches vegetarianos confeccionados com produtos biológicos. Mónica Mata, que abriu a mercearia há dez anos e que há dois o partilha com Leonor Moreira, responsável pela cafetaria, diz que muita coisa mudou desde que abriu o Quintal. Quando abriu não havia tantos espaços semelhantes, agora diz haver uma mercearia parecida em quase todos os bairros. Mesmo assim, diz acreditar haver espaço e mercado “para muitas mais”.

Na rota do vegetariano no Porto

Suribachi
Rua do Bonfim, 134, Porto

Um dos primeiros restaurantes do género na cidade do Porto. Aberto desde 1980, serve cozinha macrobiótica, vegetariana e vegano. Também vende ingredientes ao público.

Essência
R. Pedro Hispano, 1190, Porto

Restaurante vegetariano com ambiente intimista.

Black Mamba – Burgers & Records
Rua dos Mártires da Liberdade, 130, Porto

Restaurante de fast-food 100% vegano. É também loja de música dedicada sobretudo ao analógico e às sonoridades mais extremas do rock.

Restaurante Em Carne Viva
Avenida da Boavista, 868, Porto

Restaurante ecológico com cozinha vegana/vegetariana. É também casa de chá e de vinhos.

Restaurante Cultura dos Sabores
Rua de Ceuta, 80, Porto

Conhecida pelos bancos/baloiços virados para a rua. Restaurante/buffet vegano que também serve pratos tradicionais adptados.

Oriente no Porto
Rua São Miguel, 19, Porto

Aberto há 19 anos na Associação Hare Krishna do Porto. Conceito ligado às filosofias orientais. Também vende produtos alimentares.

Casa da Horta
Rua de S. Francisco, 12 A, Porto

Não é propriamente um restaurante mas sim uma associação que também serve refeições. Dos primeiros espaços a servir francesinha vegetariana.

Lupin
Rua Arquitecto Marques da Silva, 74, Porto

Restaurante vegetariano do chef Jerónimo Pinto de Abreu. Abre ao jantar, de quarta-feira a domingo, das 19h30 às 23h00, e ao almoço, sábado e domingo, das 13h00 às 15h30.

Restaurante da Terra
Rua Dr. Afonso Cordeiro, 71, Matosinhos
Rua Mouzinho da Silveira, 249, Porto
Mercado Bom Sucesso – Praça do Bom Sucesso, 132, Porto

Um dos primeiros a abrir em Matosinhos. Entretanto expandiu-se para o centro do Porto. Neste momento desenvolve um projecto de agricultura biológica para o cultivo dos seus próprios produtos.

Pé d'Arroz
Rua Godinho, 866, Matosinhos

Restaurante vegano e vegetariano. Dispõe de uma oferta diária de serviço buffet. O cliente pode experimentar todos os pratos do buffet pelo mesmo valor.

Quintal Bioshop
Rua do Rosário, 177, Porto

Mercearia de produtos biológicos com cafetaria e esplanada. Vende desde produtos de cosmética até alimentares. Funciona quase como mercearia de bairro.

Raw – comida & granel
Rua Heróis de França, 60, Matosinhos

Mercearia e bar que vende cereais a granel e refeições e sobremesas veganas e vegetarianas: smoothies, sopa de miso, sandes, hambúrgueres ou iogurte gelado.

Celeiro
Loja de produtos biológicos, cosmética natural e suplementos alimentares. Está nos centros comerciais Cidade do Porto, Arrábida, Campus São João, Parque Nascente Gaia Shopping e Alameda Shopping