Crítica

Salve, maravilha das vozes

De Viva Voz, canto profundo à capela, teve uma emocionante vitória no Tivoli, em Lisboa. Devia correr o país e ser recebido de braços abertos.

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De Viva Voz, o início do espectáculo RUI GAUDÊNCIO
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Cramol, em De Viva Voz RUI GAUDÊNCIO
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Segue-me à Capela, em De Viva Voz RUI GAUDÊNCIO
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Maria Monda, em De Viva Voz RUI GAUDÊNCIO
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Sopa de Pedra, em De Viva Voz RUI GAUDÊNCIO
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De Viva Voz, durante a canção Namorei a tecedeira RUI GAUDÊNCIO

O espectáculo De Viva Voz era uma tão grande aventura quanto um enorme risco. Não só porque o canto à capela, sendo o mais popular dos cantos, não é popular nos media, mas também porque o trabalho com 40 vozes de quatro grupos vocais distintos se afigurava, no mínimo, difícil. Mas quem apostou nele, corajosamente, ganhou e está francamente de parabéns: Amélia Muge, de quem partiu a ideia inicial; os quatro grupos envolvidos (Cramol, Maria Monda, Segue-me à Capela e Sopa de Pedra); o Misty Fest, que o incluiu no cartaz; o Tivoli BBVA, que o acolheu em óptimas condições técnicas; e toda a equipa, bem mais vasta, que nele se empenhou até ao mais ínfimo pormenor.

A história por detrás deste concerto é vasta, desde logo a riquíssima herança dos cantos de mulheres registada nos cancioneiros e retomada, a espaços, por vários grupos (não só de mulheres) que têm, ao longo dos anos, apostado em dar nova vida à tradição popular. Neste caso, o que nos foi dado a ver no Tivoli, em Lisboa, na noite de 12 de Novembro (cruzando repertórios que vão da tradição mais profunda até originais que nela foram beber harmonias, ritmos e influências), foi um bem gizado fresco dessa paisagem sem tempo que une o passado e o futuro do canto vocal feminino, harmónico, polifónico, rural, urbano, vindo das mais ancestrais crenças ou práticas da terra ou cimentado nos olhares e viveres de hoje. E, desde o imponente início, com todas as cantoras em palco, unidas como num feixe a cantarem em uníssono e a várias vozes, que a força do que iríamos ver se impôs. As passagens, depois, entre elas (que se mantiveram sempre em palco, actuando ora um grupo ora outro, ora em conjuntos mais alargados), fluíram sem falhas, dando ao concerto o ritmo certo, gerido entre a força do canto e as emoções.

O cenário, sobriamente telúrico (imagens de urzes e pedras, ou nelas inspiradas, num mosaico por vezes caleidoscópico projectado num ecrã largo, no fundo do palco), em conjunto com as luzes e o irrepreensível som de sala, serviram de moldura ideal ao render das vozes, que ora nos recordavam raízes (Eito fora, Embalo, Os bravos, Namorei a tecedeira) ora nos traziam a tempos mais próximos, com interpretações de Adeus ó serra da Lapa, de José Afonso, Cantiga sem maneiras, do GAC, A Monte I, de Amélia Muge ou até O cio da terra, de Milton Nascimento e Chico Buarque. E se o momento das canções de embalar podia ter sido mais envolvente, os pontos altos foram bem mais relevantes, fosse nas canções de trabalho, nas de amores, nas sugestões pícaras ou nas louvações. No final, ao soar de aleluias, surgiu no ecrã a imagem de Ti Chitas (1913-2003), pastora e cantora de Penha Garcia que é uma referência da música de tradição popular. Uma homenagem justíssima, por tudo o que representou e representa ainda.

No encore, exigido por uma plateia emocionada, ouviu-se Ai, acordé, iniciado pelas imponentes vozes do Cramol e, a fechar, com todas juntas, o tema Havemos de nos ver outra vez, que Amélia Muge gravou no seu disco Taco a Taco e que foi escrito pela sua irmã Teresa Muge, fundadora de um outro grupo feminino que também tem feito história na revitalização da tradição popular, neste caso a algarvia: as Moçoilas. Foi, como se pretendia, um espectáculo em que tradição e modernidade confirmaram parentescos e fizeram deles uma festa soberba, emocionante, inteligente e gratificante no palco e na sala. Pode haver quem diga, e argumente com base nas escolhas feitas, que ainda podia ter sido melhor. Mas como este, com tais grupos e pressupostos, foi único e foi excelente. Devia agora correr o país e ser recebido de braços abertos.