Crítica

O complexo de Édipo de Stravinsky

Esta ópera mantém-se surpreendente no seu detalhe – e é gloriosa a forma como agora se apresenta no São Carlos.

Foto
O coro masculino, sobre o qual recai grande parte da difícil prestação vocal, está excelente DR

De alguma forma, os criadores são levados, a certo momento, a afastar-se do pai (ou, figurativamente, a matá-lo): a sua afirmação artística pode depender disso. Há também a tentação de o substituir no relacionamento com a mãe. Stravinsky fez tudo para matar o pai (o romantismo) e tentou mesmo casar-se com a mãe (o drama teatral personificado na ópera), como testemunha o seu Édipo-Rei, de 1926-1927. A ópera resistiu aos avanços do filho, mas não deixou de lhe fazer algumas vontades: a vontade de distanciamento; a vontade de hieratismo; a vontade de monumentalização.

Na verdade, Édipo-Rei inspira-se, para tanto, na oratória, mas vai buscar o seu modelo quer ao mundo grego antigo, desdobrando a função do coro masculino em narrador e coro glosador, quer à liturgia barroca, juntando o grande espectáculo visual e sonoro em língua latina ao sermão em língua vulgar. O teatro transforma-se assim em espaço sacro para a revisitação comunal do mito, impondo ao espectador um radical estranhamento, já que lhe pede adesão contemplativa, mais do que envolvimento emocional. Nestes termos, percebe-se a impossibilidade de Stravinsky consumar o casamento com a ópera; o pai foi deposto, mas a mãe ainda pede a partilha movimentada de sentimentos, a angústia funda da fragilidade, e não apenas a sua branca e inerte estatuária.

É belo, contudo, este museu edipiano, surpreendente ainda no seu detalhe, e gloriosa a forma como agora se apresenta. O trabalho conjunto de Ricardo Pais (encenador), António Lagarto (cenografia, figurinos) e Rui Pedro Simão (desenho de luz) retoma algumas das ideias originais de Cocteau (o palco usado sem profundidade, os coralistas de corpo semi-invisível) mas em geral afasta-se delas, preterindo o imaginário grego a favor de soluções cénicas modernas, carregadas de sombra, de um despojamento de rara elegância, a que não é alheia a inspiração japonesa.

A orquestra, dirigida com verve e sensibilidade por Leo Hussain, faz jus a uma partitura de extrema originalidade e recheada de desafios técnicos: de facto, apoia-se sobretudo nos sopros (em particular, o naipe de madeiras) e nas cordas graves; na récita a que assisti (11 de Novembro) só duas fífias nos metais ensombraram a execução, de resto notável. (Mesmo uma fífia, exposta nos agudos, é de mais para um bom profissional). O coro masculino, sobre o qual recai grande parte da difícil prestação vocal, esteve excelente, merecendo os parabéns mais calorosos. Destaque-se igualmente o óptimo desempenho do barítono João Merino, no papel de narrador. Todos os (restantes) cantores solistas exibiram qualidades apreciáveis: o protagonista foi desempenhado pelo tenor austríaco Nicolai Schukoff, impressionante pelos agudos penetrantes e firmes, mas também pela intensidade da actuação cénica. O baixo Davone Tines (Créon/Tirésias) alardeou uma voz excepcional; de Cátia Moreso (Jocasta) e Marco Alves dos Santos (Pastor) não se poderia exigir melhor.

Nota negativa para um aspecto da produção, a legendagem/libreto: embora se explique no programa que os nomes obedecem à grafia inscrita na partitura (na verdade, o seu prólogo), nada justifica que se introduzam nomes franceses (por exemplo, Oedipe em vez de Édipo) na tradução portuguesa de uma obra baseada num mito que há muito faz parte da nossa cultura literária; para mais, uma obra que é cantada em latim, com o coro a referir os nomes latinos dos personagens.