Editorial

A morte de um grande senhor

A pose de grande senhor, que Leonard Cohen manteve até ao fim, era a marca externa de um criador sublime, mesmo quando lidava com a morte ou a amargura.

Em Janeiro, Bowie; em Novembro, Cohen. No início e quase no final do ano em que Bob Dylan foi distinguido com o Nobel da Literatura, a música popular perdeu dois dos seus mais influentes ícones, duas figuras imponentes e, cada qual a seu modo, geniais. Ambos de forma idêntica: de David Bowie não havia notícia que levasse a suspeitar da sua morte iminente, mas ele anunciou-a dias antes no negrume de um disco, Blackstar. O último disco de Leonard Cohen, You Want It Darker, poderia ser também o prenúncio do fim, mas apesar da sua mais avançada idade (82 anos) nada o indicava. Foram discos, ambos terminais, ambos de capa negra, a dizerem-nos adeus por eles.

Por altura da atribuição do Nobel a Dylan, e no meio da polémica que se seguiu, o nome de Leonard Cohen surgiu como outro potencial candidato, já que a Academia decidira abrir as portas à criação poética associada à música popular. E a sugestão tinha total sentido. Antes de ser cantor, Cohen já era um poeta. Começou a escrever versos aos 9 anos, sob o choque da morte do pai, e editou quatro livros de poesia e dois romances antes de se tornar cantor: Let Us Compare Mythologies, 1956; The Spice Box of Earth, 1961; The Favorite Game, 1963; Flowers for Hitler, 1964; Beautiful Losers, 1966; e Parasites Of Heaven, 1966.

Editaria mais livros, mesmo já depois de seguir a carreira de cantor (a conselho de amigos, como forma de tornar a sua poesia mais conhecida) e esses livros, sobretudo Book of Mercy (1984) e Book of Longing (2006) haviam de contribuir para que viesse a receber, em 2011, o Prémio Príncipe das Astúrias das Letras. No mesmo ano, recebeu o prémio Glenn Gould, cujo júri o apresentou como “um dos mais importantes e influentes criadores de canções do nosso tempo”.

Mas Leonard Cohen foi (e é, no todo que da sua obra magnificamente perdura) muito mais do que isso. A forma como a sua poesia se ligou ao universo da música dificilmente encontra paralelo nos seus pares. Mais do que um trovador, ele foi o poeta-cantor que entrou de forma definitiva no coração e no cérebro dos muitos que o seguiam, livro a livro, disco a disco, canção a canção. E essa relação com Cohen, quando se estabelecia, era fortíssima. A pose de grande senhor, que manteve até ao fim, era a marca externa de um criador sublime, mesmo quando lidava com a morte ou a amargura. “Trabalhei no meu trabalho/ Dormi no meu sono/ Morri na minha morte/ Agora posso sair”, escreveu ele em Mission. Correram as cortinas, a luz apagou-se. Só ele brilhará para sempre.