"Devemos salvaguardar os direitos humanos mas também a dignidade do refugiado"

Para a antropóloga e professora Cristina Santinho a integração está a falhar.

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"Sem um certificado, não é possível a inserção no mercado de trabalho", diz Cristina Santinho DR

Cristina Santinho, antropóloga, professora universitária e investigadora do ISCTE-IUL, participa num debate nesta quarta-feira no Teatro Matos, em Lisboa, no qual reflectirá sobre acolhimento e integração.

Como avalia o processo de acolhimento em Portugal?
A fase de acolhimento está a ser relativamente bem salvaguardada. O que temos que preparar com muito empenho é a integração, porque a integração tem falhado. Não falo só dos recolocados da União Europeia ou dos reinstalados do ACNUR. Na mediatização destas chegadas, as situações dos refugiados espontâneos têm ficado esquecidas. Todos eles carecem de uma boa preparação da sociedade portuguesa para fazerem uma boa inserção.

Como por exemplo o ensino do português?
Sim. A solução tem passado por cativar algumas ONGs [organizações não-governamentais] que se disponibilizam, mas isso não certifica os próprios alunos. Sem um certificado não é possível a inserção no mercado de trabalho. Eles têm a possibilidade de trabalhar mas uma vez que as suas habilitações não são reconhecidas a imersão do mercado de trabalho não tem a ver com as suas capacidades e competências. Um engenheiro químico que chegue a Portugal e não tenha um certificado vai falhar a sua inserção no mercado de trabalho, vai continuar a subalternizar-se.

E isso tem consequências?
O que se deve fazer é acolher os refugiados, não apenas por empatia e salvaguarda dos direitos humanos. Temos que criar as condições práticas para que seja salvaguardada a sua dignidade, de modo a que não estejam na dependência de subsídios – uma dependência que eles próprios rejeitam. O refugiado teve a sua vida anterior enquanto estudante ou profissional. Trata-se de resgatar esse passado conhecimento e capacidade.