Trump e as imagens incríveis da estrela da reality TV que será Presidente

De anúncios de fast food a insultos a mulheres, o futuro Presidente dos EUA tem uma relação íntima com o mediatismo. “O imobiliário tornou-o rico, a televisão tornou-o famoso”. E estes são os vídeos.

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Reuters/JONATHAN ERNST

Barack Obama avisou os eleitores norte-americanos de que “a eleição não é um reality show”. Mas, plot twist, ou como escreve na manhã desta quarta-feira o New York Times, “reviravolta chocante”: Donald Trump, estrela do seu próprio reality show que disse durante a campanha que “o grande problema que a América tem é ser politicamente correcta”, será o 45.º Presidente dos EUA. A campanha foi um festim de momentos televisivos e clips para a Internet, apimentada por gravações e e-mails antigos, mas a memória audiovisual de Trump é bem mais rica.

Donald Trump tornou-se no primeiro homem eleito Presidente dos EUA sem qualquer experiência política, mas com muito dinheiro e enorme visibilidade mediática. Como escreveu o Washington Post em Setembro, “o imobiliário tornou-o rico, a televisão tornou-o famoso”. Um milionário polémico e sem filtro, algumas das qualidades mais elogiadas pelos seus apoiantes, aproximou-se do mundo das artes e do entretenimento bem cedo – não só tirou fotografias com Andy Warhol no Studio 54, mas cedo teve a percepção de que a sociedade do espectáculo era o seu terreno.

Especialmente no país que inventou o star system. E que evoluiria das estrelas para as celebridades, a categoria que abarca todos os que são iluminados pela esfera mediática e que se confunde de forma galopante com os inevitáveis reality shows.

Nos anos 1980, Trump defendia na NBC que a televisão “danificou muito” o processo político. Era presença regular no magazine Lifestyles of the Rich and Famous, além de ter feito anúncios para a Pizza Hut e aparições na série O Príncipe de Bel-Air. Na década de 1990 apareceu em filmes como Sozinho em Casa 2 e tomou conta dos concursos de beleza da Miss Universo e Miss América. Na década seguinte, na era dos reality shows e antecedendo o hedonismo e a memória indelével das redes sociais, não só teve um cameo em O Sexo e a Cidade e um novo anúncio para o McDonald’s como se estreou no seu concurso The Apprentice.

Qualquer um desses momentos daria frutos numa das áreas em que Trump foi particularmente bem sucedido. Criaram-se casos em torno das suas palavras ou actos. Houve elogios à forma como ficaria uma concorrente loira de joelhos, categorizações de opositoras como “porcas gordas” ou um surreal número com o então presidente da câmara de Nova Iorque, Rudolph Giuliani, em travesti, além de várias participações num dos espectáculos favoritos da América, as narrativas de violência ficcional do wrestling.

E criou também a sua frase-chave, “you’re fired” – “está despedido/a” –, que promete fazer a ronda dos memes esta quarta-feira, aplicada aos democratas que perderam o seu poder. “Essa frase”, escreveu o jornalista Bill Carter no seu livro Desperate Networks, “tornou-se um dos momentos televisivos mais aguardados da semana”. Sintomaticamente, em 2008 o programa refundou-se na versão Celebrity Apprentice (foi transmitido em Portugal na SIC Radical). No total, o franchise esteve 14 anos no ar. David Axelrod, conselheiro de Obama, escrevia em Março na CNN que um estudo provou que The Apprentice teve um impacto "significativo" nas hipóteses de Trump na corrida.

A performance de Donald Trump na campanha jogou-se na televisão e nos EUA teve muito, muito tempo de antena. “Nunca vi ninguém ter o tempo que ele teve”, disse o operacional republicano pró-Trump Ed Rollins sobre a forma como o cabo, e em particular a Fox News, o acolheu. Trump “é ouro na televisão. Aparece na TV nas suas próprias condições”, defendeu Alan Schroeder, professor de Jornalismo na Universidade Northwestern ao Washington Post. Em Março, a Time já titulava que “a reality TV tomou conta da política americana” e meses depois o diário de Washington recordava que Trump consome grandes doses de televisão e indicou, quando questionado sobre os seus consultores no sector militar, respondeu: “Bom, vejo os programas." Os seus apoiantes também viam os seus.

Nos últimos meses, muito se debateu sobre quem é responsável pela ascensão do homem com menor currículo político e um dos maiores currículos mediáticos a concorrer à Casa Branca. Muitos dos nomes identificados pelos mesmos media que não quiseram acreditar que Trump fosse vencedor são exactamente do círculo mediático. De Mark Burnett, o importante produtor de reality TV graças ao fenómeno seminal Survivor, que criou The Apprentice (que tinha uma média inicial de 21 milhões de espectadores na NBC), ao bastião conservador Fox News e a sua retórica durante a administração Obama, muitos foram sendo apontados. E passou-se também em revista o papel dos comediantes da Comedy Central pelo seu desdém pelo empresário ou outro momento mediático, mas desta feita verdadeiramente político: quando Obama brincou com Trump, espicaçando-o, num Jantar dos Correspondentes Estrangeiros na Casa Branca.

Nas primeiras horas após a vitória confirmada de Trump, uma nova versão de uma piada feita por Obama em Junho, com referência a uma série televisiva, está já a rodar mundo fora. O primeiro negro eleito para a presidência dos EUA passará a Sala Oval ao iconoclasta Donald Trump – ou “Orange is the new black”.