Crítica

Carne para canhão

A história de alguém que veementemente se opôs à violência – Desmond Doss, objector de consciência que recebeu a Medalha de Honra do Congresso americano por actos heróicos, sem disparar um tiro, em Okinawa – é violentada com o fascínio pela violência de Mel Gibson.

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Dez anos depois de Apocalyto, e saindo do seu apocalipse mediático onde o público e o privado trocaram de lugar, Mel Gibson quererá provar qualquer coisa como realizador. Reafirmar-se. A uma história verídica – a de Desmond Doss, objector de consciência que foi o primeiro a receber a Medalha de Honra do Congresso americano por actos heróicos em Okinawa: não tendo disparado um tiro, mas querendo participar, integrado numa unidade médica, no esforço de guerra do seu país, salvou a vida de 75 homens – Gibson impõe a sua visão: os filmes como território das lendas, o heroísmo como a matéria de que são feitos, os bons de um lado e os maus de outro, a salvação na ferocidade do instinto.

E é assim que a história de alguém que veementemente se opôs à violência – a passagem pelo exército foi a via dolorosa de Desmond Doss ao esbarrar com o preconceito e o medo que a sua decisão causava (Doss é interpretado por Andrew Garfield, o Peter Parker/Spiderman de The Amazing Spider-Man 1 e 2) – é violentada com o fascínio pela violência que é todo de Gibson (Braveheart; A Paixão de Cristo). Que vai aproximando o martírio de Doss, a sua fragilidade e força, das pranchas de BD. Cinema como carnificina. Sem questionar nada, como a personagem o fez, O Herói de Hacksaw Ridge é um filme mercenário do espectáculo da guerra: pragmatismo feroz, sem ansiedades morais algumas.