Quando a fotografia salva um corpo incapaz

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As cicatrizes falam-lhe e não esquecem. Lá estão, espalhadas pelo corpo, um lembrete do que aconteceu há sete anos: um acidente de mota e uma vida em reconversão. “Vou estando melhor e pior”, conta João M. Almeida ao P3, em recuperação da décima cirurgia a que acaba de ser submetido. O osso infectou, condicionando-lhe a mobilidade; as canadianas são inseparáveis até hoje. “A perspectiva é ficar com a perna quase 100% funcional — há sete anos que dizem isto”, diz o fotógrafo amador de 46 anos, algures entre a ironia e o desalento. Em 2014, inseriram-lhe os parafusos com que andou até Fevereiro, durante um ano e sete meses. Um ano e sete meses em que a sua fotografia teve obrigatoriamente de mudar. Antes dessa operação, João dedicara-se a fotografar “naturezas mesmo mortas”, trabalhando conceitos como “morte, resistência, sobrevivência”. Imagens de ruínas, texturas de pedras e paus, objectos do passado que deram origem ao livro “À Margem da Vida”. Chegado a casa, após a cirurgia, deu-se conta do que mudara: “Não podia fotografar o que andava a fotografar”. Decide então pôr-se em frente do espelho, voltando-se já não para o exterior, mas para o interior, seguindo até o mote dado pelo fotógrafo espanhol José Manuel Navia num “workshop”: “Há o fotógrafo que gostavas de ser e o que podes ser. Este era o que eu podia ser, fechado em casa, numa situação particular, em que estava triste e chateado”. O resultado foi “2: Fototerapia”, que João aqui apresenta, e que deu origem a um livro de edição de autor. “É um olhar para mim, para o meu corpo e para o meu espaço.” Estão lá as temáticas anteriores, mas não só: “É um aceitar da minha condição actual, quase uma reconstrução da minha auto-estima. É olhares para ti, olhares para as tuas coisas, não no sentido conformista, mas valorizando-te, aceitando a incapacidade.” E funcionou? “Sim, este projecto mudou alguma coisa em mim. Sinto menos revolta pela minha situação.” O livro “2: Fototerapia” é lançado a 15 de Dezembro, no Salão Ideal, em Lisboa, com João Mcdonald na apresentação, sendo também inaugurada na mesma altura a exposição. Estará depois à venda na página de Facebook do fotógrafo, As imagens do João. Depois, quem sabe, sairá a continuação, um trabalho que mostra o outro lado de todo este "doloroso" processo: “As pessoas que estão à minha volta”.

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