Hillary tem Beyonce, mas as “Latinas for Trump” dão espectáculo na Quinta Avenida

A porta da Trump Tower de Nova Iorque está transformada em palco, onde "actuam" à vez os grupos que odeiam e adoram o candidato republicano à Casa Branca que empresta o nome ao edifício.

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Todos os dias, grupos pró e anti-Trump usam a entrada da Trump Tower, da 5.ª Avenida, como cenário das suas acções políticas, vigiados pela polícia e numa coexistência mais ou menos pacífica DREW ANGERER/GETTY IMAGES/AFP

Enquanto Hillary Clinton ataca a recta final da campanha nos estados mais importantes com o seu exército de celebridades composto por generais como Beyonce e Jay Z, Donald Trump continua a sua luta de um único homem transformado em polvo com tentáculos estendidos um pouco por todo o lado. Mas à porta da sua Trump Tower, neste mundo inteiro que é a Quinta Avenida, um grupo de mulheres latinas dão-lhe uma mãozinha e não param de puxar pelo seu nome, numa manifestação de apoio com alguns momentos de tensão e muitos, muitos telemóveis a chocarem uns contra os outros para guardarem na memória este raro espectáculo.

São as "Latinas for Trump", e estão aqui para provar que o magnata não perdeu toda esta comunidade para Hillary Clinton. Ainda há quem resista ao apelo dos Democratas, dizem, enquanto repetem as mesmas acusações contra a candidata que Donald Trump sublinha nos seus comícios.

Elsa nasceu em Nova Iorque mas é filha de Porto Rico por parte da mãe e da Grécia por parte do pai. Grita "Hillary para a cadeia" com todas as suas forças até ficar rouca, os braços já cansados de tantas horas a segurar bem alto um cartaz onde acrescentou a marcador as palavras “Latinas for”, em cima de “Trump, Pence. Make America Great Again”.

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Detractores de Trump Alexandre Martins

Com o cartaz bem lá em cima, sob o olhar atento dos agentes da polícia de Nova Iorque que foram chamados para manter as coisas dentro dos limites do bom senso, Elsa grita que Donald Trump “é a pessoa mais generosa” que já conheceu. “Ele reconstruiu o rinque de patinagem, que foi um desastre completo nesta cidade durante nove anos. E quando o entrevistaram sobre isso ele disse que apenas queria que o rinque ficasse bonito. E pagou tudo do seu bolso.”

Mas o que leva esta mulher de ascendência latina, única seguidora do judaísmo numa família inteiramente cristã, a apoiar o candidato que é visto como hostil a parte da sua herança?

“Donald Trump tem muitas qualidades que estão em sintonia com os meus valores. Fiz muito trabalho de casa, não sou uma apoiante de última hora. Li muito sobre o Donald Trump, e também li muito sobre a Hillary. Tal como estamos agora, este país vai na direcção erada, e precisamos que o barco mude de rumo. Acredito que o Donald Trump vai fazer isso por nós”, diz Elsa, já mais calma mais ainda sem disfarçar o rancor que lhe atravessa a voz com o volume quase no mínimo. Tal como milhões de outros eleitores, Elsa não é apenas apoiante de Trump; ela odeia Hillary Clinton com todas as suas forças. Chama-lhe antiética, imoral, ladra, mentirosa. Resumindo, “uma má pessoa no geral”.

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Apoiantes de Trump Alexandre Martins

“As pessoas que trabalham com ela não podem olhar-lhe nos olhos e nem podem dirigir-lhe a palavra. Não contribui para nenhuma instituição de solidariedade social”, acusa Elsa, e nem lhe falem da Fundação Clinton, que apesar de toda a polémica entregou 88,3% dos seus fundos a programas de assistência social um pouco por todo o mundo, segundo uma análise de 2015 do site FactCheck.org. Elsa fica zangada quando lhe pedimos um comentário sobre isso, os olhos furiosos quase a explodirem para falar, mas é a boca que faz o trabalho que lhe compete: “Ela é uma pessoa muito, muito perigosa.”

E ele “não é nada racista, isso é só propaganda. “As mulheres latinas deviam era olhar muito bem para a Hillary, porque ela quer aprovar uma lei do aborto até aos nove meses. Isso significa basicamente matar bebés totalmente formados dentro do útero, puxá-los cá para fora aos pedaços e atirá-los para o lixo, ou vender algumas partes.”

Dois metros ao lado, o designer gráfico Ben, de 55 anos, decidiu juntar-se à festa de bicicleta, mochila às costas, luvas sem tecido para os dedos e boné virado para trás. Mas chegou aqui para estragar os planos das “Latinas for Trump”, com uma t-shirt em que Donald Trump se apresenta com o seu icónico penteado mas o resto do corpo em forma daquelas coisas que deslizam sanita abaixo, com moscas à volta e tudo. De um lado, as “Latinas for Trump”, do outro Ben em representação do movimento “Dump Trump”.

Passa a maior parte do tempo a provocar um veterano da guerra do Vietname, que também se juntou à manifestação a favor do candidato do Partido Repubicano e ficou imóvel à frente de Ben, braços cruzados e boca calada, como que a esperar um gesto mais violento para ver a polícia em acção. “Este tipo insiste em meter-se no meio das fotografias, mas tudo bem. Porque é um durão, é um apoiante do Trump que vai dar cabo de mim. Porque é isso que gostam de fazer”, grita Ben enquanto levanta os dois dedos do meio e pede a alguém que leve aquele “estúpido dali para fora”.

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Apoiantes de Trump Alexandre Martins

Um dos polícias encolhe os ombros e faz um daqueles olhares que se falassem diriam que estão fartinhos de estar ali, deve haver coisas mais interessantes do que estar encostado a um carro de braços cuzados à espera que o tempo passe. Mas já são quase seis da tarde e só falta mais um pouco, é essa a hora em que a entrada deste monstro de 202 metros volta ao normal, entalado entre uma loja fundada pelo senhor Guccio Gucci e a Tiffany & Co., onde Holly Golightly sai de um táxi para admirar as jóias logo na abertura do filme “Breakfast at Tiffany’s”.

As regras para que esta manifestação se mantenha civilizada no meio de berros e ofensas são claras, e todos as conhecem por aqui: podes gritar, podes bloquear o caminho da pessoa com quem estás a discutir, mas não podes tocar em ninguém nem com um dedo, ou as tuas mãos vão directas para as algemas de um polícia.

Douglas Burris, de 72 anos, o veterano da guerra do Vietname que desafia o Ben da t-shirt anti-Trump está habituado a isto. Ainda ontem, diz, foi pontapeado por um apoiante de Hillary Clinton e a polícia caiu logo em cima dele. Douglas fala com toda a calma, enquanto escolhe o melhor cartaz para a fotografia: o que diz “Veteranos a favor de Trump” ou o que incentiva a fazer uma limpeza em Washington através de um slogan que Donald Trump recuperou do Presidente Ronald Reagan, em 1983: “Drain the swamp”, "drena o pântano".

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Apoiantes do grupo "Latinas for Trump" Alexandre Martins

Um pouco abaixo do chapéu camuflado e com a inevitável “Make America Great Again”, Douglas revela-se um homem calmo e ponderado. É claro que apoia Donald Trump, mas acima de tudo apoia os Estados Unidos, seja qual for o próximo Presidente.

“Se a Hillary ganhar vou apoiá-la, de acordo com a Constituição dos Estados Unidos. Fiz um juramento quando entrei na vida militar que ia apoiar e defender a Constituição dos Estados Unidos, e ainda estou amarrado a esse juramento. Apesar de estar aqui a apoiar o Donald Trump, vou apoiar e defender quem ganhar esta eleição, seja quem for”, garante.

No último debate com Hillary Clinton, Donald Trump deixou no ar a ideia de que poderá não reconhecer a legitimidade da vitória da sua adversária, uma declaração inédita entre os candidatos dos principais partidos em mais de um século e meio. Mas Douglas diz que isso foi mais uma das várias distorções feitas pelos “mainstream media”.

“Isso foi mal interpretado. Quando o George W. Bush concorreu contra Al Gore as coisas demoraram um mês a resolver-se. Foi isso que o Donald Trump quis dizer. Se for necessário, vai levar a luta até ao Supremo Tribunal, tal como o Bush fez para ganhar. Mas os democratas tentaram distorcer as declarações e fizeram crer que o Donald Trump vai aparecer com um exército se perder. A última vez que alguém não aceitou uma eleição nos Estados Unidos foi em 1860, quando Abraham Lincoln foi eleito, e tivemos uma guerra civil. Acredito que após esta eleição o país vai voltar a unir-se. Vamos continuar a discutir, mas vamos unir-nos outra vez.”

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