Editorial

Medo. De Trump

Medimos a palavra, mas escrevemos – porque, quando está em causa a tradição da liberdade, também é nosso dever dizê-lo claramente. Sem medo.

Donald, The Donald, como ele próprio gosta de se chamar. Não é o nome que dá medo. Não é sequer a figura (olhe bem para a foto na primeira página da edição impressa deste sábado. É verdade, dá um bocadinho). O que realmente dá medo nele é o discurso.

Aqui no PÚBLICO discutimos esta primeira página com redobrado cuidado, porque sabemos que a nossa primeira missão é informar com isenção, com imparcialidade. E a palavra medo, aqui, tem obrigatoriamente de ser medida. Medimos, mas escrevemos – porque, quando está em causa a tradição da liberdade, também é nosso dever dizê-lo claramente. Os media devem ser isentos, mas não podem hesitar quando consideram que está em causa o nosso modo de vida, a civilização como nós a construímos – com os defeitos e virtudes que lhe conhecemos. Seja aqui, em Portugal, seja em França (e daqui a pouco temos presidenciais temíveis por lá), ou seja no país que mais influencia o que se passa no mundo, os Estados Unidos da América.

Não tenhamos, portanto, medo da palavra: "Medo." Porque um jornal não pode ser insensível quando alguém propõe um muro que nos separe. Porque não deve ser insensível quando ouve um discurso de desrespeito pela diferença. Porque não pode fechar os olhos quando se responde aos problemas com uma sociedade fechada, com passos atrás na globalização, com avanços no populismo mais perigoso, com ataques à própria liberdade de imprensa, a maior vitória do mundo livre, como Jefferson tão bem soube escrever.

Faltam apenas três dias. Mas só nos últimos meses os jornais americanos acordaram para o medo de Donald Trump. A tempo? Talvez.

Eis um exemplo que ilustra esse medo: no superconservador estado do Texas, entre os 40 jornais mais importantes, só um declarou apoio a Trump. Num notável editorial, o Dallas Morning News explicou porque declarava o apoio a Hillary, a primeira democrata que apoia desde a II Guerra Mundial. 

Lê-se assim: “Trump joga com o medo, explorando os instintos básicos da xenofobia, racismo e misoginia – para tirar o pior de nós e não o melhor. As suas mudanças de posição radicais em assuntos fundamentais revelam uma estrondosa ausência de preparação. Os seus insultos improvisados e tweets à meia-noite exibem uma perigosa ausência de julgamento e de controlo de impulso.”

A história já nos ensinou o que acontece quando as sociedades se fecham. E a história ditou que Hillary Clinton ficasse com o desafio gigantesco de ganhar a Trump, parar este processo e devolver uma liderança ao mundo. Que a sorte a proteja. E que ela consiga derrubar todos esses muros que se levantam.