Os presentes silenciosos e a revelação de Centeno inspirado por Bush

Foi um debate de muita picardia política e menos conteúdo. Centeno trocou Camões por Bush e houve quem nem precisasse falar para ser protagonista.

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Nuno Ferreira Santos

António Costa
Se Mário Centeno se inspirou em Camões, Costa terá ido beber inspiração a outras expressões poéticas e decidido que, para o debate, o silêncio é a melhor resposta. Contas feitas pelo CDS: havia 20 anos que um primeiro-ministro não defendia o Orçamento no Parlamento. A intenção do Executivo tinha sido divulgada e passava por dar mais protagonismo a quem o fez: o ministro das Finanças, “o número 4” do Governo. Costa esteve durante todo o tempo calado, sentado do lado direito de Centeno. 

Assunção Cristas
Na abertura do debate, Cristas foi a única líder de partido a fazer-se ouvir. Não foi possível contar os temas sobre os quais quis respostas. Foram muitos. Mas deixou três perguntas (sobre a disponibilidade do Governo em aumentar pensões mínimas, retomar o quociente familiar e em aceitar o crédito fiscal) e à última recebeu uma resposta (quase) positiva. O ministro das Finanças admitiu debater as medidas de apoio ao investimento do CDS.

Passos Coelho
O líder do PSD esteve lá. Foi visto nas imagens da televisão quando o deputado António Leitão Amaro acusava o Governo de ter um Orçamento “que era um arsenal de novos impostos” e acenava com a cabeça em sinal de aprovação. Mas não se ouviu. Caso mais estranho foi que em quase quatro horas de debate, nunca foi mencionado. É verdade que houve as habituais referências ao “passado” outras tantas menções ao “governo anterior”, mas ninguém falou do “ex-primeiro-ministro” e muito menos de “Passos Coelho”. Falará hoje, no encerramento. 

Mário Centeno
Read my lips: no new taxes”. Na quarta-feira, foi Camões, ontem o ministro das Finanças revisitou o famoso discurso do então candidato à presidência dos EUA George Bush (1988) para insistir que não há aumento de impostos. O ministro que não era político tomou conta da defesa do documento lançando recados, rindo-se das próprias piadas e acelerando nas críticas. Neste “Centeno show”, com mais ataque político que conteúdo, ainda houve tempo para gaffes, ou não chamasse “Conceição” a Assunção Cristas.

Maria Luís Albuquerque
Também esteve na Assembleia da República e também não falou, mas foi levada para o debate na generalidade do Orçamento de forma indirecta numa das tiradas de Centeno com tom mais sarcástico. “Se quer falar de embuste na sobretaxa, olhe para o lado, não para mim”, disse o ministro a Leitão Amaro. Maria Luís estava lá ao lado do deputado e os socialistas regozijaram-se com isso. Para a esquerda, desta vez, nem Maria Luís nem Passos precisaram de falar para serem “a cola da esquerda”. 

A esquerda unida que quer mais
Foram duas as vozes à esquerda que mais se ouviram, Mariana Mortágua (BE) e João Oliveira (PCP) e que disseram qualquer coisa como: este Orçamento já é melhor, não é o que faríamos, queremos que fique melhor, mas vamos aprová-lo. Confuso? Nem por isso. A esquerda garante já aprovação na generalidade, mas promete mais negociação para o debate da especialidade. O PCP até recebeu uma resposta positiva de Centeno para debater a redução do Pagamento Especial por Conta das empresas.