Opinião

Este país não é para novos

Uma elite responsável, voltada para o futuro e liberta das amarras dos interesses particulares ou sindicados teria há muito percebido que há nestas dinâmicas uma oportunidade a não perder.

Nos dias que restam até à sessão inaugural do Web Summit de Lisboa era bom que olhássemos um pouco mais para as novas empresas e os novos empresários das startup, essa enorme expressão do país real que não vive das prebendas do Orçamento nem faz parte da cartilha dos direitos que supostamente os partidos mais à esquerda tanto gostam de proteger. O propósito da actualidade pode levar-nos aos viveiros de pequenas empresas lançadas por jovens que atafulham as salas da UPTEC, da Universidade do Porto, que se encontram no Parque de Ciência e Tecnologia do Alentejo, que gravitam na órbita da InvestBraga ou da Startup Lisboa. Mas podemos também estender um pouco mais o olhar e ver o que faz a nova geração de agricultores, que prioridades e expectativas têm os novos gestores da têxtil ou do calçado, que ambições têm os milhares de jovens que emigraram sempre à espera de uma oportunidade para regressar, ou, de uma forma mais banal, que dinâmica é essa que se vê em centenas de localidades onde nos domingos de manhã milhares de jovens se mobilizam para correr ou para jogar futebol.

Um olhar atento a toda essa energia permite-nos constatar com facilidade que há uma ampla margem de Portugal, de portugueses, que não tem lugar na política tradicional que os partidos tradicionais estão a desenvolver. Entre as amizades com as empresas do regime e as sinecuras dos negócios público-privados que a direita continua a privilegiar e a protecção interesseira que este Governo e os seus parceiros concedem a quem tem emprego no Estado, não há lugar para se olhar a fundo para o potencial dos jovens – ou para a fragilidade dos desempregados de longa geração. Dizer que os jovens não ligam à política é de alguma forma elogiar a sua atenção e a sua dignidade. Fazem-no porque a política não lhes liga a eles, nem aos seus problemas, nem às suas expectativas e, pior ainda para o futuro do país, não liga ao que realmente podem fazer pelo país. Ao proteger com unhas e dentes o sistema dos negócios privados, a corte dos políticos profissionais, as redes clientelares dos sindicatos ou o ensimesmamento da função pública, o regime contenta-se em definhar devagarinho quando ao lado tem uma mão para poder agarrar o futuro.

A Web Summit, que vai mobilizar 50 mil participantes, 15 mil empresas da vanguarda tecnológica e sete mil gestores acontece em Portugal depois de nove anos baseada em Dublin não apenas porque Lisboa pode garantir à organização mais lucros no final do dia. Acontece porque começam a despontar sinais de que há uma nova geração que, como nenhuma outra no passado recente, está sintonizada com o mundo. Acontece porque há talento, há portugueses que o simbolizam como o presidente da Peugeot, Carlos Tavares, há empresas como a Farfetch feitas de raiz entre Braga e Porto que conseguem angariar investimentos de mil milhões de euros, há uma geração que fala inglês e recebeu nas universidades públicas um nível de formação de classe mundial. Há energia e vontade de romper com as amarras de um país que não é para novos, nem para quem arrisca, nem para quem precisa de um Estado que facilite nos impostos, apoie nos financiamentos e dê um empurrão nas infra-estruturas. Portugal ainda está longe de ser a Finlândia ou a Alemanha no espírito empreendedor ou na ligação entre a ciência, a tecnologia e as empresas, mas, apesar da crise, apesar do Estado, os números das exportações de serviços tecnológicos, o surto de novas pequenas empresas tecnológicas ou a incorporação de ciência e serviços em sectores tradicionais mostram que o país real é muito melhor e muito mais voltado para o futuro do que o Estado - e ainda mais do que os políticos que o gerem e discutem.

Uma elite responsável, voltada para o futuro e liberta das amarras dos interesses particulares ou sindicados teria há muito percebido que há nestas dinâmicas uma oportunidade a não perder. Seguramente que o ministro da Economia o percebe e o seu secretário de Estado o entende, até porque ambos conhecem de perto essa realidade feita por milhares de jovens que lutam por uma ideia, por um projecto, e que fazem da sua luta uma forma de vida. Seguramente que temos no Governo ministros e um primeiro-ministro que ambiciona um país no qual a ciência há-de ser o caminho para nos salvar dos salários baixos e nos levar para o primeiro mundo – o crescimento do orçamento da ciência é de 135 milhões de euros. O que falta é um rasgo para olhar o país como algo que está a mudar, que não dispensa apoio aos mais frágeis e aos mais pobres mas que se recusa a cristalizar uma ordem onde cabem apenas os instalados e os que dispõem de mecanismos de representação política para os proteger. Fazer o mais fácil, como a política anda a fazer há 15 anos, não quer dizer que se faça o que era preciso fazer.

Claro que esta visão será sempre facilmente torpedeada com os anátemas do neoliberalismo propalados pela esquerda cristalizada ou com ataques da direita rançosa que desde sempre viveu sob a égide do rentismo ou da protecção clientelar do Estado. Mas é bom que percebamos que andamos há 15 anos a surfar na maionese apenas porque os portugueses são incapazes de perceber que, com este caldo de cultura, estão condenados a arrastar-se em permanente luta contra o défice e contra a dívida. Na semana do Web Summitt, tente-se ao menos perceber por que razão há milhares de quadros da nova economia, ou jornais mundialmente influentes, que consideram Lisboa como uma provável próxima capital da tecnologia ou da iniciativa. Há gente com competências e classe de nível mundial, há uma forma de viver única que ajuda a tomar decisões neste tempo em que o mundo se liga pela net, há o sol e a beleza das nossas cidades, há a gastronomia e os vinhos e a forma de viver lusa, há um país fabuloso feito por gente que luta e que olha para a frente. Só não há um Estado amigo nem um Governo que seja capaz de se alinhar com esse novo país que emerge. Até um dia.

2 – O Governo omitiu dados sobre as estimativas de execução do orçamento de 2016 para que não se percebesse que, afinal, a Justiça e a Educação vão perder verbas e que o crescimento da despesa da Saúde é residual. O Governo protege a posição do novo gestor da Caixa Geral de Depósitos que se recusa a cumprir as normas da transparência a que todos os servidores públicos estão obrigados. No centro de uma e outra destas manobras opacas há um nome: Mário Centeno. O guru das finanças públicas do PS que projectou um cenário que se provou delirante, que fez um orçamento que falhou todas as previsões, que faz declarações que ora assustam Bruxelas, ora assustam os mercados, é uma menos-valia. Centeno pode ter uma figura simpática, mas é seguramente o menos capaz dos ministros das Finanças desde os tempos de Joaquim Pina Moura. Quando a esta lacuna acresce uma tentaçãozinha para ocultar, para fazer de nós parvos, o caso torna-se intolerável. Alô doutor António Costa, temos um problema…