Opinião

O Comissário sem qualidades

Das duas uma: ou a UE se posiciona claramente contra o populismo à Trump e Putin, ou promove um comissário que diz as mesmas coisas que eles.

Não há muitas razões para que o leitor se lembre de Günther Oettinger, e nenhuma é boa. Se rebuscar na memória talvez se lembre que nos idos de 2011 um certo comissário europeu de nacionalidade alemã decidiu improvisar numa entrevista recomendando que as bandeiras dos países com excesso de dívida fossem forçadas a ficar a meia-haste nos edifícios da União Europeia. À época consegui recolher cerca de duzentas assinaturas no Parlamento Europeu contra as declarações do comissário, infelizmente insuficientes para o obrigar à demissão, mas levando-o apesar de tudo a um pedido de desculpas freudiano, segundo o qual 1) não tinha feito aquelas declarações, 2) as declarações tinham sido mal entendidas e 3) caso tivessem sido bem entendidas não passavam de uma sugestão.

Facto curioso, entre os colegas alemães reinava a sensação de que Oettinger era um político demasiado inútil para que nos preocupássemos com ele e que, de qualquer forma, ninguém queria que ele voltasse para a Alemanha.

Pois bem, passado cinco anos eis que Oettinger está à beira de uma promoção, e que chegou a altura de nos preocuparmos. Graças a uma sequência de acontecimentos que relevam do notável tato da sua família política, o Partido Popular Europeu, a comissária búlgara Kristalina Georgieva decidiu sair para um novo emprego no Banco Mundial depois de tentar atrapalhar António Guterres na eleição para a Secretário-Geral da ONU e ficou livre o importantíssimo dossier do orçamento da UE. Em resultado, o presidente da Comissão decidiu atribuir esse pelouro ao comissário Oettinger.

Ora, eu sei que da última vez que me referi à capacidade que o PPE tem para destruir aquilo em que toca acabei por deixar Paulo Rangel, que é eurodeputado do PSD e vice-presidente do PPE, um tanto abespinhado. A nossa disputa consistiu em, segundo Paulo Rangel, que não foi o PPE que coordenou a candidatura de Georgieva à ONU — e segundo eu, que foram pessoas dentro do PPE e, mais importante, por dentro do PPE. Mas agora podemos deixar de lado estes detalhes porque segundo todos os pontos de vista — legal, institucional e político — o PPE tem mesmo responsabilidade e há algo que Paulo Rangel e o PSD podem fazer.

Sucede que o Presidente da Comissão não pode entregar o Orçamento da UE a Oettinger sem passar pelo Parlamento Europeu. E o PSD tem não apenas uma mas duas opiniões decisivas: a de Paulo Rangel e a de José Manuel Fernandes, coordenador do PPE na comissão europarlamentar do orçamento.

E sucede que o comissário Oettinger não esteve parado nos últimos anos. Pelo contrário, foi cada-tiro-cada-melro. Quando tinha sob sua responsabilidade a computação em “nuvem”, declarou que as pessoas que guardavam as suas fotos no sistema que ele deveria proteger eram “estúpidas”. Há pouco tempo meteu-se onde não devia para dizer que Portugal estava perto da bancarrota. Foi apanhado a fazer comentários racistas sobre uma delegação chinesa, dizendo que os chineses eram todos iguais, “com os olhos em bico e o cabelo puxadinho com graxa”. E decidiu até dar uma bicada em Merkel, sugerindo que a sua chanceler planeava tornar o casamento homossexual obrigatório e — mais a sério — que enquanto discutíamos questões de igualdade de orientação sexual arriscávamo-nos a ficar “mais fracos e menos competitivos”.

Das duas uma: ou a UE se posiciona claramente contra o populismo à Trump e Putin, ou promove um comissário que diz as mesmas coisas que eles. E é por isso que estou à espera que o PSD, com Paulo Rangel e José Manuel Fernandes à cabeça, declarem oficialmente que em nome do interesse europeu, da dignidade de países como Portugal e da credibilidade que restar à Comissão, o orçamento da UE não pode ficar nas mãos deste comissário sem qualidades.