Torne-se perito Crítica

Um romance transatlântico

Romance com banda sonora dentro, roteiro histórico-cultural e amoroso do Rio, grande reportagem do quotidiano carioca nas vésperas da Copa e da Olimpíada: Deus-dará, Alexandra Lucas Coelho.

Um ensaio de compreensão histórica, mítica e crítica de “quinhentos anos de equívocos”
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Um ensaio de compreensão histórica, mítica e crítica de “quinhentos anos de equívocos” Miguel Manso

Os escritores costumam ter nacionalidade e documento conforme. Burocracia oblige. E a literatura? Tem pátria? Gregório de Matos, Tomás António Gonzaga, Vieira “pertencem” à literatura portuguesa ou à brasileira? Ou a ambas? Indagação semelhante poderá fazer-se a propósito do novo romance de Alexandra Lucas Coelho (Lisboa, 1967), mas neste caso a pergunta tem resposta pronta: Deus-dará é um romance tão português quanto brasileiro. Venha o leitor e escolha. Aliás, o narrador, omnisciente e voluntarioso – e que, “imortal como um orixá”, virá desvelar-se como afloramento mediúnico do navegador Nicolau Coelho, que comandava uma das naus de Cabral em 1500 –, explicita ao que vem logo no início: “Caqui é dióspiro, como tomar umas é beber, encher a cara é beber demais. Língua que vai ao mar dá nisso, o narrador será transatlântico ou não será.” (p. 18). Será. E o romance também.

Se o livro é extenso (mais de 500 páginas), o seu subtítulo não o é menos: Sete Dias na Vida de São Sebastião do Rio de Janeiro, ou O Apocalipse Segundo Lucas, Judite, Zaca, Tristão, Inês, Gabriel & Noé (a ordem de entrada em cena das personagens nucleares). Com a vantagem de ser tão explícito e verdadeiro quanto o narrador: protagonista mesmo, neste romance, é só o Rio, a “melhor cidade da Via Láctea” (p. 98). As outras personagens são estrelas na constelação ficcional que o narrador desenha para guiar o leitor no céu mais vasto da(s) história(s). E, sobretudo, da História. Fica escrito lá para o final, quando o proteiforme narrador se autodetermina: “Sabe o que aprendi, entretanto? Que bolar um romance é ir achando constelações, unir pontos num novo desenho.” (p. 544) Tal desenho é simultaneamente aleatório e previsível: “Tem coisas que o narrador deixa para as personagens, tem coisas que elas deixam para ele. A gente se cria uns aos outros, não tem sentido único.” (p. 487)

Mapeada a poética, diga-se agora que o lugar da acção abarca o Rio desde Ipanema e Leblon – “quatro quilómetros de praia, o metro quadrado caviar da América Latina” (p. 56) – até à “cracolândia da Maré” (p. 90) e mais além, com foco e fulgor na Rua do Cosme Velho, pátria de Machado. E diga-se que o tempo da acção – três dias seguidos em 2012, três dias espaçados em 2013 e um dia em 2014 – é o tempo carioca da febre urbanístico-policial que antecedeu Copa & Olimpíada. Portanto: sete dias e sete personagens (fora o Rio). Só duas são portuguesas: Tristão, que foi para o Brasil porque queria fazer um doutoramento sobre os índios da Amazónia; e Inês, que chega ao Rio na véspera do apocalipse prometido, se bem se lembram, para o dia 20 (?) de Dezembro de 2012 – “Amanhã acaba o mundo mas começa o Verão”; no trópico: “Dezembro tropical, mês das noites brancas para o bem e para o mal” – e que é a personagem mais discreta do livro: memória de uma paixão perdida no Líbano – “Saudades do Verão em Baalbek, dos figos, do azeite, do vinho, do pão, do calor nos templos onde deus nunca é um” (p. 78) – e pouco mais. As cinco personagens brasileiras são mais trabalhadas e ‘programadas’. Se Gabriel, o reputado e requestado sociólogo, é o símbolo da improvável ascensão social de um crioulo da favela, os jovens Lucas e Noé são a sua reactualização: o primeiro, nascido lá no Pará, decidiu emudecer após o assassinato da mãe, é um “índio arraçado de negro e de branco”, um “filho da mistura” e foi só quando chegou ao Rio, em 2011, que “bateu de frente com o facto de não ser branco no Brasil” (p. 87); a negra Noé (“Cara, a gente precisa de uma segunda Abolição, mas é já.”) estuda Ciência Política na Pontifícia Universidade Católica. Com bolsa, é claro. E engravida sem dar conta. Como contraponto social (e também privilegiados pela narrativa), os irmãos Zaca e Judite, filhos do “decano dos estudos indígenas” no Brasil, com ascendência síria, e morando numa jóia modernista na rua onde viveu Machado. Zaca, “bícepsal dente’”, autor de uma biografia do “maior sambista brasileiro”, mas incapaz de escrever o Grande Romance Carioca anunciado. “Impotência”, dirá “certa carioca menos paciente”. “Um diletante”, dirá o narrador. O que não o impede de descrever com acerto e vagar a tardia (?) iniciação homossexual de Zaca. Judite é outra coisa. Judite, a advogada relutante que “achou a sua trindade: saquê gelado, terreiro de umbanda e o sexo como acesso ao que será que será” (p. 81). Será. O narrador será omnisciente, mas não é imparcial. Daí que a sua intimidade com esta personagem seja particularmente notória: “Coisas que Judite sabe desde o primeiro amante: quanto mais sexo têm, mais as mulheres se masturbam.” O narrador está obviamente apaixonado por Judite e acabará por confessá-lo impudicamente. E além de parcial, este narrador é omnívoro: convoca desenhos, fotografias, poemas visuais, letras de sambas e baiões para assessorá-lo no seu labor.

Não obstante, diria que esta camada mais formalmente ficcional é apenas um dos pontos da constelação que é o novo romance de Alexandra Lucas Coelho. Romance com banda sonora dentro (baião, samba, MPB, funk, rap… ou Luís Gonzaga, Noel Rosa, João Bosco, Aldir Blanc, Vinicius, Caetano, etc.), roteiro histórico-cultural e amoroso do Rio, grande reportagem do quotidiano carioca nas vésperas da Copa e da Olimpíada, é, sobretudo, um ensaio de compreensão histórica, mítica e crítica de “quinhentos anos de equívocos”. Ou o “achamento” do Brasil lido aqui como “a maior catástrofe que um punhado de homens alguma vez trouxe a milhões de homens” (p. 548). Macabra contabilidade, porém necessária, ou conveniente. Arredondando: um milhão de ameríndios dizimados, cinco milhões de africanos escravizados. Um requisitório contra os desastres da conquista e da escravidão. Mas talvez porque “tudo no Rio trabalha para os dois lados, a começar pela natureza”, as extensas e densas digressões ensaísticas, biográficas e históricas são compensadas pela sensualidade, pela leveza e pela extrema coloquialidade de muitas outras páginas. Ou o inverso.

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