"O jornalismo trocou a grandeza da oferta pela tirania da procura"

O volume de informação cresce a um ritmo imparável, mas a sua diversidade e fiabilidade podem estar a diminuir, defende o especialista em ciências da comunicação Dominique Wolton, que lança o alerta: “A informação está a ser comida por uma ideologia técnica, e é preciso resgatá-la”.

Dominique Wolton é autor de dezenas de obras sobre os <i>media</i>, o espaço público e a globalização
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Dominique Wolton é autor de dezenas de obras sobre os media, o espaço público e a globalização PEDRO CUNHA/ARQUIVO

Fundador do Instituto de Ciências da Comunicação do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique) e director da revista internacional Hermès e da respectiva colecção de livros de bolso, Les Essentiels d’Hermès, Dominique Wolton é autor de dezenas de obras sobre os media, o espaço público, a globalização, ou as relações entre ciência, técnica e sociedade. A mais recente, Communiquer c’est vivre, acaba de sair em França. Colaborador próximo do filósofo e politólogo Raymond Aron, Wolton vem construindo há décadas uma original teoria da comunicação, que procura opor uma abordagem democrática e humanista à hegemonia do discurso técnico e económico. Convidado do Fórum do Futuro – um “festival de pensamento”, organizado pelo pelouro da Cultura da Câmara do Porto que abre esta terça-feira com o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura –, o investigador estará esta quinta-feira no Teatro Rivoli (19h), para falar do “desafio de paz e guerra no século XXI”, e dará no dia seguinte uma palestra em Lisboa, no auditório do Instituto Superior de Economia e Gestão, sobre o “impacto das redes sociais na comunicação”. Diz que é preciso travar o fascínio acrítico pelas tecnologias da informação e defende que a Internet precisa de regras, pois “actualmente é um faroeste que só serve a tirania económica e financeira”. 

Diz que “a velocidade da Internet e das redes sociais está a devorar a liberdade de informação” e que o jornalismo não deveria mergulhar nessa voragem. Quer argumentar?
A Internet é óptima para nos exprimirmos, mas expressão não é informação, é algo muito mais fácil. Separar os dois é função do jornalista. Ele deve olhar para a Internet como um novo meio de expressão e ter consciência de que, enquanto canal de informação, exige um trabalho de verificação. A última coisa de que os jornalistas se podem esquecer é que a informação é algo de valioso e difícil, que deve ser feito por profissionais.

Defende que a revolução tecnológica aumentou o volume de informação, mas não a tornou mais diversa, nem reduziu os rumores, que encharcam a Internet e são frequentemente replicados nas televisões e jornais. É uma fatalidade, imposta pelo contexto técnico, ou haveria outro caminho?
Não é uma fatalidade. Na verdade, é até uma grande surpresa. Pertenço a uma tradição democrática favorável ao aumento da informação, e todos nós, investigadores, jornalistas, políticos, achávamos que mais informação era mais verdade: toda a luta pela liberdade de informação, desde o século XVII, foi concebida a partir dessa premissa. Mas ninguém antecipou que o aumento da velocidade e a pressão da concorrência implicavam riscos, e que a informação em directo, que julgávamos mais próxima da verdade, podia afinal errar muito, porque n��o há tempo para verificar. Também não se pensou que quanto mais informação existisse, tanto mais rumores teríamos, porque os homens são complicados e há muita gente que se está nas tintas para a informação verificada e prefere os rumores e as teorias da conspiração. Outra surpresa foi a constatação de que todos os canais de informação falam das mesmas coisas ao mesmo tempo e que a crescente concorrência entre eles não tem servido para alargar o campo da informação. Dou um exemplo: a construção política da Europa, esta realidade de 6, 8, 15, 28 países que se entenderam, quando na verdade se detestam, é talvez a maior utopia da história da humanidade, mas com toda a informação que hoje circula na Internet parece que já não há curiosidade por este grande projecto político.

E por que é que isso acontece?
Acontece porque a procura se tornou o critério. E quando nas redacções não se trata este ou aquele assunto porque não interessa às pessoas, está-se a trocar a responsabilidade da oferta, que é a grandeza do jornalismo, pela tirania da procura. Mas o mais grave é não existir um discurso crítico sobre isto. Estas são questões verdadeiras, que colocam problemas graves ao nível da deontologia, e até da democracia, mas só por as levantarmos somos vistos como reaccionários. Uma coisa que me deixa tristíssimo é ver os jornalistas a passarem horas na Internet, a darem a volta ao computador em vez de darem a volta ao mundo, quando fariam muito melhor em sair e investigar. É verdade que sair do jornal três ou quatro dias para investigar é caro, fazer bom jornalismo é caro, e essa é uma questão política que teremos de enfrentar, porque a informação está a ser comida por uma ideologia técnica, e é preciso resgatá-la.

Apesar das dificuldades que os jornais de referência ocidentais enfrentam para assegurar a sua viabilidade financeira, não parece partilhar o pessimismo mais ou menos consensual que não vê futuro para a imprensa generalista em papel e desespera de ver surgir, no jornalismo on-line, uma solução estável e replicável. O que é que o leva a manter o optimismo?
Não sou pessimista porque a história mostra que há altos e baixos, e acho que o jornalismo tomará consciência de que a abundância de informação não é por si só um progresso, e que o terreno que essa informação cobre é hoje mais estreito do que nos anos 80. Os media deixaram de se interessar por uma série de assuntos importantes, e cada vez dão menos espaço aos pontos de vista especializados – dos militares, religiosos, empresários, cientistas –, em favor dessa “peopleização” mundial a que estamos a assistir [neologismo criado a partir do inglês “people”, que significa “povo” ou “pessoas”, e que os media costumam usar para designar as suas secções de “celebridades”]. Há uma fascinação pelas tecnologias de informação que é preciso travar: não é a tecnologia que faz a informação, são os homens. Eu acho que o jornalismo acabará por reagir e saberá tirar desta revolução técnica o que ela tem de bom.

Uma das lutas da sua geração foi garantir a existência de uma fronteira nítida entre o domínio público e a esfera privada. Não receia que esta nova geração, que cresceu com as redes sociais, venha a ter uma consciência um pouco mais frágil dos riscos de se permitir que essa fronteira se esfarele?
Lutámos durante séculos até termos, enfim, o direito a uma existência privada, e agora, com as tecnologias de informação e com o fenómeno da "peopleização", passamos a vida a publicitar a vida privada. É um contra-senso. E se esta geração não percebe que é preciso preservar essa separação, isso é grave, porque essa fronteira foi um verdadeiro campo de batalha, e conseguir impô-la representou uma grande vitória política. Não é por hoje ser possível contar seja o que for nas redes sociais, e haver quem o leia, que devemos fazê-lo. Diante do computador temos uma sensação de liberdade, mas dever-nos-ia preocupar a contradição entre esse sentimento de liberdade e o facto de a Internet ser dominada pelo poder económico, financeiro e técnico do Google, da Apple, do Facebook, da Amazon.

No mundo das redes sociais vive-se uma espécie de igualitarismo, em que não há fronteiras nem hierarquias e todas as vozes têm o mesmo peso. Quando uma parte importante do debate público emigrou para esta arena digital, e a sua lógica contamina cada vez mais os media, está aberto o caminho ao populismo?
Sim, há o risco do populismo. Nas redes sociais toda a gente se exprime em condições de igualdade, o que é aparentemente democrático, mas, na verdade, ao abolir-se toda a hierarquia cultural ou intelectual, o que existe é uma tirania da expressão. O que há a fazer? É preciso que jornalistas, professores, empresários, políticos, tenham a coragem de dizer que este espaço de expressão é um progresso, mas que não substitui as competências do político, do militar, do cientista, do jornalista. O que eles têm a dizer sobre a sociedade não pode ser posto no mesmo plano do que eu digo sobre mim próprio num qualquer canto do planeta.

Não é impossível que o aproveitamento da Internet pelo terrorismo e pelo crime organizado, entre outras ameaças, leve as democracias a ponderar colocar restrições à sua utilização, como já acontece, por outros motivos, em várias ditaduras. Parece-lhe defensável?
Este novo espaço de expressão e informação que é a Internet precisa de uma política, no mesmo sentido em que há uma política para as telecomunicações, os satélites, a imprensa ou a televisão, com coisas que são permitidas e outras que não o são. Neste momento, a Internet não tem regras nem limites. É claro que se deve salvaguardar essa dimensão de liberdade e de emancipação, mas com a condição de se criar uma política. A grande batalha futura em relação à Internet não é obviamente acabar com ela, mas estabelecer regras e leis. Actualmente é um faroeste que só serve a tirania económica e financeira. Há uma mentira sempre repetida: a que diz que se aplicarmos uma lei à Internet é o fim da liberdade. Na verdade, é o inverso: é a lei que permite a liberdade, que protege o fraco, sem ela temos a lei do mais forte, e o mais forte é hoje o poder financeiro. Falamos da Internet como símbolo de liberdade, quando ela está ligada aos grandes poderes imperiais do século XXI: Google, Apple, Facebook, Amazon. É uma contradição que se pode resolver, desde que se aceite que o progresso técnico é óptimo, mas que agora é preciso introduzir regras sociais, políticas, culturais.

Tem insistido na distinção entre informação, que designa a mensagem, e comunicação, que implica uma relação e uma negociação. Pensa que a revolução global da informação teve tradução no plano da comunicação, que os povos e culturas do mundo se compreendem e toleram hoje mais do que no passado recente?
Uma das grandes fraquezas da humanidade é que adoramos matar-nos, detestar-nos e não nos compreendermos uns aos outros. Seria de esperar que todas essas redes de informação tivessem aumentado a tolerância, mas não é verdade: o racismo e o ódio ao outro estão de boa saúde. Basta olhar para a Europa e para o que se passa com os refugiados no Mediterrâneo. Temos uma aldeia global, mas que é apenas técnica, e essa tecnologia, ao tornar mais visíveis as diferenças culturais, não só não está a promover a tolerância, como se arrisca a provocar mais intolerância. É um paradoxo incrível, mas verdadeiro.