“A mãe tem um nódulo na mama e vai ter de o tirar”

IPO-Porto alerta para o “preocupante” aumento de cancro da mama “em pessoas com menos de 40 anos a uma taxa de 2% ao ano”. Este domingo é Dia Nacional da Prevenção do Cancro da Mama.

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“As mulheres que têm um diagnóstico precoce têm a probabilidade de ter mais de 90% de cura de um cancro”, garante o presidente do IPO, Laranja Pontes FERNANDO VELUDO/NFACTOS
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“O que mais me custou foi contar às minhas filhas, de oito e 11 anos: ‘A mãe tem um nódulo na mama e vai ter de o tirar’”, lembra Elizabete Silva, de 40 anos, olhos marejados, mas aliviada por “a conversa não ter sido tão terrível como temia”. A mais velha ainda lhe perguntou: “Vais fazer quimioterapia?” Não só já está a fazer, na Clínica de Mama do IPO-Porto, como, por estes dias, terá de rapar o cabelo e começar a usar cabeleira — para que, explica, a queda do cabelo não a apanhe “desprevenida”. É um caso de esperança, mas o coordenador da clínica, Joaquim Abreu de Sousa, alerta para “o preocupante” aumento de cancro da mama em mulheres ainda mais novas do que Elizabete, “a uma taxa de 2% ao ano”, segundo o Registo Oncológico do Norte.

Passos seguros, sorriso rasgado a disfarçar o nervoso miudinho, Elizabete Silva percorre os corredores do IPO em direcção à Clínica de Mama onde, anualmente, se realizam mais de 30 mil consultas. É uma das 1200 novas doentes que, anualmente, ali dão entrada — no seu caso, com alguma esperança no rosto, porque chegou com um diagnóstico precoce e removeram-lhe o tumor que foi detectado numa fase inicial. Neste domingo assinala-se o Dia Nacional da Prevenção do Cancro de Mama.

Elizabete está em recuperação. “As mulheres que têm um diagnóstico precoce têm a probabilidade de ter mais de 90% de cura de um cancro”, garante o presidente do IPO, Laranja Pontes.

Segundo o coordenador da clínica e director do serviço de oncologia cirúrgica, Joaquim Abreu de Sousa, só em duas décadas (1994-2014) os novos casos em fase avançada diminuíram de 35% — 217 doentes no IPO num universo de 618 casos, em 1994 — para 5% (num universo de 1236 casos em 2014).

“Nunca me passou pela cabeça que iria morrer quando, em Agosto, descobri”, diz Elizabete Silva. Pensa antes que “é uma fase que vai passar”. O que mais a incomodou mesmo foi a ideia de dar a notícia às filhas. “Mas surpreenderam-me.” Já tinham acompanhado o tratamento da avó quando, três anos antes, ela sofreu de cancro da mama.

“Ainda assim, foi um choque muito grande, porque fui, descontraída, fazer a ecografia e a mamografia de rotina.” Tinha feito exames no ano anterior e estava tudo bem. E um ano depois sentiu que o chão lhe fugia quando o médico a informou de que tinha um “nódulo com aspecto irregular no peito esquerdo” e que teria de fazer uma biopsia. Tentou não perder o norte. “Fui trabalhar, mantive as minhas rotinas diárias à espera do resultado e, muito importante, a capacidade de rir. Encaro sempre tudo pelo lado humorístico, até a doença.” Não demoraram muitos dias até confirmar o tumor maligno de 15 milímetros no peito com uma alta taxa de proliferação celular.

“Porquê eu?”

Elizabete concentrou-se “logo em agarrar o touro pelos cornos como se diz em gíria popular”. Os clínicos consideram-na uma “lutadora”, com uma forma de lidar com a doença muito própria, em linha com a frase que se vê numa das paredes do IPO: “Que as dificuldades dos meus dias não roubem a minha fé de vencer.”

Elizabete sorri e atira: “Gosto pouco de dramas e desdramatizei sempre a doença.” Conta que nunca descurou a imagem e o gosto de se maquilhar, a sua auto-estima, e que manteve a “lucidez suficiente para decidir que clínicos procurar” e que passos seguir.

Duas semanas depois, já estava no bloco operatório e a perguntar ao cirurgião “se não era melhor tirar tudo de uma vez para o tumor não reaparecer”. Ficaram a olhar para ela. Mas removeram-no e preservaram a mama.

Elizabete já iniciou o tratamento de quimioterapia, com a duração de seis ciclos, de três em três semanas. E já marcou hora no cabeleiro para ir à máquina zero. “Não vou esperar que me caia.”

“Porquê eu, que não tenho factores de risco? Alimento-me bem, cuido-me e não tenho um historial familiar...” Esta é uma das perguntas que as mulheres mais fazem ao coordenador da clínica e director do serviço de oncologia cirúrgica. É preciso ter em conta, explica, contudo, Joaquim Abreu de Sousa, que “três quartos das pacientes não têm factores de risco identificáveis e não têm história familiar”.

Factores de risco

Há, sim, factores mais comuns que aumentam o risco de cancro da mama: a interacção entre o aumento da exposição hormonal (provocada, por exemplo, pela toma da pílula), as mudanças de estilo de vida e os padrões reprodutivos. A ausência de exercício físico, o consumo de bebidas alcoólicas, sobretudo na adolescência, uma primeira gestação tardia (depois dos 30 anos), o não amamentar, o excesso de peso, a terapêutica hormonal depois da menopausa são alguns dos riscos associados ao estilo de vida, prossegue Abreu de Sousa. Crê mesmo que as mudanças no estilo de vida associadas ao desenvolvimento económico aumentam o risco desta patologia. Só em 2012, realça, “foram diagnosticados cerca de 1,7 milhões de novos casos de cancro da mama em todo o mundo”.

Defende, por isso, a necessidade da prevenção primária, através da realização de um estudo epidemiológico. E insiste: “O cancro da mama está a aumentar, de forma preocupante, em pessoas com menos de 40 anos a uma taxa de 2% ao ano, de acordo com o Registo Oncológico do Norte.”

É certo que, no seu total, ainda é pouco prevalente entre as mulheres com menos de 40 anos — “são só 4% da totalidade dos quase seis mil novos casos que temos em Portugal” — mas está a crescer.

Problemas de rastreio

O presidente do IPO, Laranja Pontes, diz que “já há máquinas que cheguem para o rastreio”, que permitem às mulheres fazer periodicamente mamografias, mas é preciso maior organização dos cuidados, defende.

“Um dos problemas em Portugal é que o rastreio organizado não está a ser implementado em algumas áreas do país e não só no interior”, nota, dando o exemplo de Lisboa e Vale do Tejo, onde há anos se assinalam lacunas graves.

Vítor Veloso, da Liga Portuguesa Contra o Cancro, que tem quase o monopólio dos rastreios de base populacional do cancro da mama em Portugal, disse ao PÚBLICO em Setembro que o alargamento do rastreio à capital está já a ser negociado com a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo.

Em Abril, a Assembleia da República recomendou ao Governo que tomasse medidas para o acesso equitativo aos programas de rastreio de base populacional em todo o país.

Outros dados sobre cancro da mama:

Mamografia reduz mortalidade: segundo o director da Clínica de Mama do IPO-Porto, Joaquim Abreu de Sousa, com base em estimativas da Sociedade Americana de Radiologia, a mamografia ajudou a reduzir a taxa de mortalidade em cerca de 40% dos casos. O responsável garante que os dados da sociedade americana podem ser replicados em Portugal.

Maioria não tem historial da doença na família: cinco em cada mil mamografias diagnosticam um cancro da mama. O médico radiologista tem, assim, um papel-chave, como Cláudia Carneiro Bilber, do IPO-Porto, que defende que “a mamografia permite diagnosticar lesões potencialmente malignas de forma precoce, antes de as pacientes terem sintomatologia, para ter maior taxa de cura”. Três quartos das mulheres com cancro da mama não têm história familiar de doença e não são consideradas de alto risco.

25% antes da menopausa: ainda sustentado nos dados da Sociedade Americana de Radiologia, Abreu de Sousa explica que um em cada seis cancros da mama ocorrem entre os 40 e os 49 anos e 25% são diagnosticados antes da menopausa.